MPLA. A culpa é dos outros…

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– Boavida Neto, antigo SG: “O Partido não pode estar refém de uma elite de militantes oportunistas”

Aparentemente, não lhe causou qualquer inquietação especial a embaraçosa derrota que o MPLA teve em Luanda nas eleições de Agosto  passado. 

Comparativamente às eleições de 2017, o MPLA perdeu 35% de eleitores, o equivalente a 361.991 votos, do que resultou a eleição de apenas dois deputados.

Luanda, que o MPLA sempre tomou como sua praça inexpugnável, “caiu” para as mãos da UNITA, a quem deu 3 dos 5 cinco deputados do circulo.

A avaliação que o MPLA faz das eleições de Agosto está sintetizada num documento, com a tarja de Confidencial, denominado Relatório Analítico Preliminar sobre o Processo Eleitoral.

Tanto no seu discurso de vitória, do dia 29 de Agosto, quanto no do dia 25 de Novembro, com que abriu a III reunião extraordinária do Comité Central do MPLA, o líder do Partido, João Lourenço, não se mostrou particularmente perturbado pela acentuada perda de influência do MPLA na capital do país.

De acordo com o documento confidencial, o MPLA foi a votos com uma base de 5.846.063 potenciais eleitores. Desse universo de militantes, cujos votos o MPLA tinha como garantidos, exactos 2.636.634 ou se abstiveram ou votaram noutro partido.

O MPLA atribuiu a perda da maioria de 2/3 obtida em 2017 não à insuficiências próprias, mas, essencialmente, à abstenção, que o partido dividiu em duas categorias: a) abstenção total (que incluiria os mortos que o Ministério da Administração do Território insistiu em manter no ficheiro de eleitores), que foi de 7.945.282, isto é, 55,27% do eleitores e b) abstenção real, que foi de 5.305.282 (36,84%).

O relatório confidencial do MPLA identifica como causas da elevada abstenção, no documento classificada como “prováveis ausências”, os “reflexos da actual situação de crise económica financeira mundial derivado da baixa de preço do petróleo e ainda prevalecentes no País”, as “críticas feitas pela sociedade ao modelo de governação e da Administração Local do Estado e sobretudo pelo desempenho dos responsáveis”, as “dificuldades do Governo em dar respostas cabais as preocupações dos cidadãos em matéria de educação, saúde, energia eléctrica, água, saneamento básico, salário mínimo nacional, apesar do esforço e resultados notórios já conseguidos”; e, ainda os “sucessivos escândalos de vária ordem que foram denunciados pela comunicação social privada, cujos reflexos se fizeram sentir negativamente a nível nacional e internacional”.

Num pequeno assomo de pragmatismo, os autores do documento confidencial, incluem também, entre as causas das “prováveis ausências”, a “corrupção como fenómeno social que ao longo do mandato foi sendo questionado e que mesmo merecendo a devida atenção e combate, contribuiu para a desmotivação dos eleitores, sobretudo pelos seus resultados concretos”, o “desgaste da imagem de algumas figuras públicas na manobra da acção política e governativa contribuiu outrossim para a

desmotivação dos eleitores”,  o “desapontamento dos militantes e da sociedade em relação a seleção de alguns nomes que integraram as listas de candidatos a Deputado, quer pelos Círculos Nacional ou Provincial”. 

BN põe o dedo na ferida

No relatório é, também, aceite que “produtos como o petróleo e os diamantes que têm um elevado peso na economia do país não têm vindo a ser motivo para alavancar outros sectores da economia nacional e têm constituído motivo de descontentamento e desencanto das populações locais e não só”, apesar, dizem, dos “esforços do Executivo no combate à fome e “a pobreza”. 

Na contramão da ligeireza das conclusões do Relatório Analítico Preliminar sobre o Processo Eleitoral, Boavida Neto, antigo secretário-geral do MPLA, assume criticamente que o Partido não fez bem o seu “trabalho de casa”.

Ao Correio Angolense, o antigo nº 2 do MPLA, nomeado e desenastrado por João Lourenço no curto espaço de 9 meses, confessa que “hoje podemos até  sorrir, mas o último resultado eleitoral doeu muito, porque não estava nas nossas expectativas. Não fizemos bem a leitura dos sinais dos tempos. O excesso de confiança fez-nos embandeirar em arco”.

Boavida Neto assume que o MPLA foi induzido no erro de que teria uma vitória retumbante. “Mas, aprendemos a lição; os erros cometidos far-nos-ão ver melhor o futuro”.

Contrariamente ao líder do Partido, o antigo secretário-geral do MPLA não subestima a derrota em Luanda. Pelo contrário, vê no fenómeno um alerta para o que pode vir aí.

“Se não nos redimirmos em províncias como Kwanza Sul, Kwanza Norte, Malange, Huambo e Huíla,  os resultados eleitorais de Luanda são apenas o prenúncio do que poderá vir a acontecer nas eleições autárquicas e nas eleições gerais de 2027”.  

Boavida Neto não atribuiu o fracasso do MPLA à abstenção dos seus potenciais eleitores. Atribuiu o desastre  “à arrogância, mentira, populismo, hipocrisia e à inexistência de uma base sustentada pelo MPLA territorialmente. A estratégia foi assente no imediatismo e no desfile pelas redes sociais, ao invés de procurarmos trocar e partilhar sentimentos com as bases e as comunidades, num novo formato partidário mais incisivo”.

Boavida Neto, secretário-geral do MPLA por apenas 9 meses

Antigo governador do Namibe e do Bié, Boavida Neto acredita que  apesar do forte abanão que sofreu nas eleições de Agosto passado, o MPLA ainda pode reerguer-se, mas, para tanto precisaria de reencontrar-se com a “nossa essência de luta. O Partido não pode estar refém de uma elite de militantes oportunistas que têm o MPLA para satisfazer os seus egos em detrimento das nossas populações. Chega de estarmos dependentes de iluminados que, intencionalmente, expõem o nosso Partido à inverdades, hipocrisia e cinismo político. Teremos de voltar a ser, por mérito próprio, a esperança certa do nosso povo, a verdadeira vanguarda de luta para o progresso e justiça social”.

Na abertura da sua mais recente reunião, o Presidente do MPLA desafiou os membros do Comité Central a ”fazer o balanço das eleições no geral, do nosso desempenho e resultados alcançados, suas consequências, pontos fortes e fracos”. Segundo ele, “a nossa abordagem deve ser analítica, objectiva e crítica, para identificarmos as acções e medidas de correcção a realizar desde já, à nível interno do Partido do topo à base, assim como ao nível da acção do Executivo para melhor satisfazer as grandes aspirações dos cidadãos”.

João Lourenço disse que o compromisso do MPLA “para com o desenvolvimento económico e social de Angola e para com o bem-estar dos angolanos” foi fortemente prejudicado pela “actual crise económica mundial, consubstanciada nas crises de segurança, energética, alimentar e ambiental que hoje são globais”.

Ao desafio do seu líder para uma “abordagem analítica, objectiva e crítica” para “identificarmos as acções e medidas de correcção a realizar desde já”, o Comité Central respondeu com um comunicado em que se congratula “com a intensa actividade diplomática realizada recentemente pelo Camarada João Lourenço, com pendor para a mediação de conflitos que assolam determinadas regiões do continente africano, com realce para os que opõem o Ruanda e a República Democrática do Congo (RDC), tendo incentivado o Titular do Poder Executivo a persistir nesta senda, com vista a garantir a estabilidade na região.”

O Comité Central contornou a identificação de acções e medidas de correcção para se congratular “com os resultados alcançados pelo Camarada João Lourenço, Presidente do MPLA e da República de Angola, no quadro da visita de Estado que efectuou à República da Noruega para o reforço das relações económicas com aquele país europeu, revelando a intenção de Angola aprofundar a transparência na gestão económica, no aumento do conhecimento científico e tecnológico, privilegiando as empresas nacionais que operam nos diferentes sectores e proporcionando o surgimento de novas áreas de formação para os jovens angolanos”.