As birras da TAAG

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Isso é birra ou capricho de algum ´poderoso”, que não aceita partilhar algumas delícias com o que eles consideram pessoas inferiores” – foi com essas palavras que um antigo funcionário da empresa reagiu à decisão da TAAG do dia 6 de proibir o transporte, nas suas aeronaves, de produtos perecíveis como carne e peixe.

No terça-feira, 6 de Dezembro, a Direcção de Operações de Terra comunicou à Divisões de Assistência a Passageiros, de Segurança de Placa e a todos os chefes de escala que a partir daquela data é “expressamente proibida a aceitação de produtos perecíveis para transporte em rotas internacionais, seja qual for o tipo de embalagem utilizada para a sua conservação” e que doravante “o agente do check-in tem a obrigação de verificar o conteúdo de verificar o conteúdo de toda caixa térmica”.

A Direcção de Operações de Terra alega que a decisão ora tomada visa “evitar danos na bagagem de outros passageiros ou nas aeronaves da TAAG”, pretensamente causados “pelo transporte de produtos perecíveis, como carne e peixe, em caixas térmicas”.

Antes do mais, a Direcção de Operações de Terra deveria perceber que caixa térmica não é o mesmo que “seja qual for o tipo de embalagem utilizada para a sua conservação”.

Como ensina qualquer dicionário, caixa térmica é, em regra, fabricado em material plástico  e possui uma parede dupla, com o material isolante entre estas duas paredes, constituído por poliuretano.

Não é, portanto, razoável estabelecer qualquer linkage entre uma caixa térmica e “danos a bagagens de outros passageiros”.

Ao Correio Angolense, um indivíduo que trabalhou para a TAGG durante mais de 40 anos disse não ser comum que as caixas térmicas provoquem “derrames susceptíveis de causar danos na estrutura da aeronave”. 

Segundo essa fonte, “os perecíveis são, em regra, transportados em caixas térmicas, que são as embalagens apropriadas e acondicionadas de forma a evitar danos”.

É esse, aliás, o procedimento com as malas, que devem ser carregadas no porão com o cuidado requerido, para evitarem-se danos que, em caso de ocorrerem, devem ser assumidos pela companhia transportadora. 

“Vejo birra ou algum capricho por detrás dessa decisão. Nos meus mais de 40 anos de TAAG nunca, ou não me lembro, recebi qualquer reclamação de um passageiro reclamar de prejuízos à sua bagagem provocados pela caixa térmica de um terceiro. Vejo aqui uma manobra de algum dos nossos chico-espertos: alguém tem stocks de bacalhau em Angola e não quer concorrência”.

O bloqueio ao transporte de perecíveis como peixe e carne afecta, sobretudo, os angolanos que, nesta altura do ano, recorrem a Portugal, sobretudo, para comprar o bacalhau para a ceia de natal. A decisão da Direcção de Operações de Terra, chefiada pela espanhola Paola Jiménez, inibe, também, os angolanos de enviarem para os seus entes no estrangeiro produtos como cacusso ou carne seca.

A decisão de proibir o transporte de produtos perecíveis de e para Angola deve ser tomada pelo Ministério da Saúde quando em presença de alguma doença que pode circular de um lado a outro através de bens de consumo.

“Essa medida faria  sentido nos voos de Angola para países da União Europeia, nessas regiões são regularmente tomadas medidas sanitárias que proíbem a entrada de qualquer perecível susceptível de  contaminar pessoas. Nos voos do exterior para Angola  não faz sentido, porque não conheço nenhuma determinação do Ministério da Saúde que proíba a entrada no país de produtos perecíveis como carne e peixe e não havendo nenhuma restrição do Governo estamos, claramente, diante de uma medida arbitrária da TAAG. É uma medida que não tem fundamento nenhum”. 

Nenhuma outra companhia aérea que voa para Luanda – TAP, Air France, Luftansa, Qatar, Turkish Airlines, Emirates e outras – acompanham a TAAG nessa sua estranha decisão de deixar de transportar produtos perecíveis como o peixe e a carne.

A decisão da Direcção de Operações de Terra só é aplicável aos voos internacionais. Para os voos domésticos, a DOT não mostra a menor preocupação com os danos que o transporte de perecíveis possam causar às bagagens de outros passageiros.

Como escreve o João de Almeida  se se desenrolar as súbitas e inexplicáveis causas da decisão da TAAG “certamente que iriamos dar com obscuras figuras e interesses de espaços comerciais do retalho que teriam influência sobre a Paola Jimenez e a administração da TAAG para tomar tal medida. Nesta quadra festiva, estas figuras obscuras precisam vender o seu bacalhau sem a concorrência dos passageiros finórios.”

Na foto de capa, o espanhol Eduardo Fairen Soria, presidente da Comissão Executiva da TAAG em amena cavaqueira com o Presidente da República, João Lourenço e sua esposa. 

É dessa relação que lhe advém as “confianças” com que toma algumas decisões na TAAG?