Cumprimento que sabe a pouco…

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Ter boas relações políticas, económicas e militares com os Estados Unidos é, sem dúvida, bom para o nosso País.

País periférico, Angola não pode dispensar uma boa colaboração com aqueles que contam no mundo. 

Com José Eduardo dos Santos, Angola gastou “latim” e, sobretudo, muito dinheiro com “miudezas” como Burundi, RCA e outras e não teve retorno nenhum.

A RCA, por exemplo, é hoje um feudo, cujos fabulosos recursos minerais são pilhados pelos mercenários russos da Wagner. Parte dos milhões de ajuda de Angola àquele país desaguou nas contas bancárias de Catherine Samba-Panza, uma então presidente centro-africana que, em visita a Luanda, quase levou o Presidente José Eduardo dos Santos às lágrimas em face da montanha de dificuldades que lhe contou.

O Presidente João Lourenço também faz bem em reavaliar as relações com a Rússia. 

Tendo vivido na carne os horrores da guerra, Angola faz muito bem em afastar-se daqueles que cultivam a morte e a destruição. O que a Rússia está a fazer na Ucrânia é absolutamente inaceitável. O Presidente João Lourenço faz muito bem em afastar-se de assassinos como o Putin e cambada que lhe faz o corono no extermínio do povo ucraniano.

Mas, cultivar boas relações com os Estados Unidos não pode ser a única “raison d´être” do Governo do Presidente João Lourenço.

A composição da delegação de Angola que acompanhou o Presidente João Lourenço aos Estados Unidos deu esse inquietante indício.

Quase se pode dizer que a Washington só não foram os ministros ou que estavam doentes ou que tinham óbitos na família. E não eram muitos numa ou noutra situação.

Para sublinhar a importância que atribui à deslocação a Washington, em resposta ao convite do Presidente Joe Biden para participar da cimeira EUA-África, João Lourenço incluiu na “bagagem”  não só quase todos os membros do Executivo, como permitiu que cada um incluísse na sua própria “bagagem” três a quatro colaboradores mais chegados.Resultado: só não foram a Washington aqueles que, como a generalidade dos angolanos, não contam.

Ora, está aqui um dos primeiros equívocos em que o Presidente João Lourenço incorre sistematicamente.

A numerosa comitiva não é compatível com discurso de um país que se diz afectado  pela “actual crise económica mundial, consubstanciada nas crises de segurança, energética, alimentar e ambiental”, como disse João Lourenço na abertura da mais recente reunião do Comité Central do MPLA. 

Mas, não deve constituir qualquer drama para o Presidente João Lourenço não ter sido honrado com um encontro privado com Joe Biden.

A quase generalidade dos chefes de Estado africanos atendeu o convite de Biden para a cimeira USA-África. Se recebesse individualmente todos os dignitários africanos, a Joe Biden não sobraria tempo para outras tarefas que requerem a sua atenção. 

Sucede que Biden não se pode permitir a alguns “luxos”, nomeadamente o de “engavetar”, por minutos que sejam, assuntos internos urgentes ou os acontecimentos na Ucrânia.

Privado de um encontro restrito com Biden, João Lourenço regressa ao país com um travo amargo. 

A foto dos dois casais presidenciais em público soube a muito pouco.

É que, apesar da sua muito preenchida agenda, Biden arranjou tempo para o “imberbe” George Weah, presidente da Nigéria, e para Félix Antoine Tsisekedi, da RDC.

Além disso, o velho Joe convidou o presidente nigeriano Muhannadu Buhari e o primeiro-ministro marroquino Akhannouch para, juntos, assistirem o jogo Marrocos-Portugal.

Por detrás da desfeita a João Lourenço não há, necessariamente, a mão invisível de um qualquer inimigo.

João Lourenço não adentrou no salão azul porque ainda não fez o suficiente para merecer a honraria.

Informados da obsessão de João Lourenço de ser recebido no salão oval da Casa Branca, os americanos estão a esticar a corda, para obter do Presidente de Angola as maiores cedências possíveis. 

Depois de, numa exigência de Washington, virar definitivamente as costas a Putin, de manifestar interesse em armas dos Estados Unidos e de outros membros da OTAN, e de fazer novos acenos à Boeing, de quem o Governo angolano deu mostras de algum afastamento, João Lourenço parece disposto a ceder mais. Os americanos sabem disso. 

Com a cabeça totalmente tomada pela obsessão de entrar no salão oval da Casa Branca, João Lourenço desconectou-se momentaneamente do país.

É isso que explica o menosprezo com que a Presidência da República lidou com a notícia de que o corpo de José Eduardo dos Santos estaria à mercê de vermes e a exalar odores insuportáveis.

Sob o título Guardas abandonam jazigo de JES devido ao mau cheiro de cadáver, o Club-K noticiou no dia 15, quinta-feira, estar a par de reclamações segundo as quais “tem sido quase impossível visitar o jazigo onde se encontram depositados os restos mortais do Presidente José Eduardo dos Santos devido ao mau cheiro que o corpo estará a exalar”.

Segundo o portal, depois de a viúva de JES haver sido visitado pela viúva Ana Paula dos Santos, em Setembro passado, tornou-se impossível à aproximação ao jazigo onde estão depositados os restos de José Eduardo dos Santos por causa do cheiro insuportável que advém dali.

Incomodado com o cheiro, guarda do jazigo ter-se-ia mesmo afastado do local.

Depois de sair vitorioso do rumoroso, mas também constrangedor, braço-de-ferro com os primeiros filhos de José Eduardo dos Santos pela tutela do cadáver do antigo Presidente da República, esperava-se que as autoridades angolanas e, nomeadamente, o chefe da Casa Militar do Presidente da República, reagissem à notícia do Club-K à medida da sua gravidade.

Estranhamente, até agora não houve qualquer pronunciamento oficial. 

Um dia depois da notícia do Club-K, foi publicada nas redes sociais – tão combatidas pelo Governo – uma desfocada fotografia com a seguinte legenda:

Dr. Leonardo Europeu, Secretário de Estado do Ministério da Saúde e o médico legal (não seria legista?) do SIC, Dr. Aurélio e outras entidades visitaram ontem 15 de Dezembro o jazigo de José Eduardo dos Santos, e garantem estar tudo bem”. Ou seja, Leonardo Europeu e o médico legista do SIC visitaram o jazigo minutos depois da notícia do club-k. O que é, no mínimo, estranho.

A foto-legenda não é aceitável como resposta oficial. 

A gravidade da denúncia exigiria a sua apurada investigação, o que incluiria, obrigatoriamente, a ida da imprensa – e não apenas as correias de transmissão do MPLA e do seu Governo  em que foram transformados todos os órgãos de comunicação social públicos – ao jazigo.

Indiferente à denúncia do Club-K, no mesmo dia o ministro de Estado e chefe da Casa Militar do Presidente da República, Francisco Furtado, enfiou-se num avião rumo ao Cuando Cubango para inaugurar o que as redes sociais designam como uma picada no Licua. São-lhe atribuídos interesses na prospecção e exploração de diamantes naquela província.

Francisco Furtado foi o rosto da Presidência da República na disputa que a opôs à Isabel, Tchizé e outros filhos pela posse do cadáver do antigo Presidente da República. 

Em Luanda, onde se encontra há mais de duas semanas, o jornalista José Gama disse ao Correio Angolense não ter sido contactado por nenhuma entidade oficial para contestar a notícia sobre as condições em que se encontram os restos mortais do presidente emérito do MPLA, o partido que governa Angola.

Até ser contrariada por factos irrefutáveis, a opinião pública continuará a dar credibilidade à notícia do Club-K.