PR troca cimeira de verdade por cimeira de papel

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Com a participação recorde de 52 chefes de Estado e de Governo, a cidade suíça de Davos acolhe desde ontem, segunda-feira, o Fórum Económico Mundial, um evento anual que reúne líderes políticos e económicos relevantes.

O Presidente João Lourenço não está entre os participantes dessa 53ª edição do Fórum Económico Mundial de Davos. 

Convidado, ele preteriu o Fórum de Davos pela presença numa inexpressiva cimeira sobre Sustentabilidade, que decorre até amanhã, em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos.

A decisão do Presidente João Lourenço de não ir ao Fórum de Davos pode decorrer de eventuais limitações impostas pelos organizadores do evento.

Por causa do elevado número de participantes, o Fórum de Davos tem sido um permanente desafio à capacidade hoteleira da pequena cidade de Davos. 

Além de convidados oficiais, em números aproximados a 3.000 pessoas, a Davos acorreram, este ano, como habitualmente, outros milhares de cidadãos, sobretudo europeus, que se juntam em manifestações de protesto sob diferentes pretextos. O mote das actuais manifestações, bastante ruidosos, são a crise climática, o capitalismo e a desigualdade global.

Avisados dos constrangimentos protocolares e logísticos que provoca nas suas deslocações ao estrangeiro, os organizadores do Fórum Económico Mundial podem ter pedido a Angola algum comedimento na composição da sua delegação.

Nada habituado a ser contrariado, o Presidente João Lourenço cancelou não apenas a sua ida como também como também qualquer representação oficial de Angola ao Fórum de Davos.

Onde quer que se desloque e qualquer que seja o propósito, João Lourenço “arrasta” invariavelmente um numeroso séquito.

Em Dezembro passado, João Lourenço encabeçou a mais numerosa delegação que foi a Washington para a cimeira EUA/África. Contam-se pelos dedos de uma só mão os membros do Governo que ficaram de fora da delegação que o acompanhou. 

Além de ministros, a obesa delegação angolana incluiu funcionários do gabinete do Presidente, das Casas Civil e de Segurança e numerosos membros da Unidade de Segurança Presidencial.

Pouco depois e numa visita de trabalho de escassas horas ao Gabão, o Presidente João Lourenço cometeu a proeza de superar em número a delegação anfitriã. Foi um 6 x 4, a “favor” de Angola.

No dia 1 de Janeiro, a generalidade dos países convidados para a tomada de posse do Presidente Lula da Silva fez-se representar, no Palácio do Planalto, por não mais de duas pessoas. O Presidente João Lourenço fez a diferença: além da primeira-dama, levou o ministro das Relações Exteriores, Teté António, e o embaixador de Angola no Brasil, Mário Cabral.

Sem o que fazer, os membros menores da delegação, instalados no hotel Marcos, nos arredores de Brasília, entregaram-se a constrangedoras cenas de pugilato, que terminaram com todos os envolvidos, entre eles o brigadeiro Santos Manuel Nobre, vulgo Barba Branca, 2º comandante da Unidade de Segurança Presidencial, numa esquadra policial.

Nas suas deslocações ao exterior o Presidente angolano chama à atenção de observadores não apenas pelo despropositado séquito mas, também, pela quantidade e qualidade dos aviões que mobiliza. Além do luxuoso Boing 787-8 Dreamliner a bordo do qual o PR viaja juntamente com a primeira-dama e uns coadjutores muito próximos, as deslocações de João Lourenço envolvem, via de regra, mais duas aeronaves, para transporte de ministros e membros do gabinete do Presidente e outra a bordo da qual se misturam jornalistas, membros dos Serviços de Segurança e secretárias. 

Em Abu Dhabi, para onde se deslocou sábado para participar de uma cimeira sobre Sustentabilidade, o Presidente da República, para não variar, levou, mais uma vez, um numeroso séquito.

Até a ministra das Finanças, que estava convidada para o Fórum de Davos, foi incorporada na delegação que foi a uma cimeira que se debruça sobre sustentabilidade.  

Não há conhecimento de que a numerosa comitiva tenha levado uma única proposta com “cabeça, troncos e membros”. O discurso do Presidente João Lourenço, que deve falar no painel sobre a maneira de transformar África numa fábrica de energias limpas, não deverá fugir aos habituais lugares-comuns que povoam todas as suas intervenções públicas. 

Segunda-feira, a página do Centro de Imprensa da Presidência da República (CIPRA) no Facebook anunciou como principal actividade do dia do casal presidencial, “acompanhado pelos restantes membros da delegação oficial angolana, que integra sobretudo ministros de pelouros com incidência nas questões do Clima e Ambiente, como Energia e Águas, Ambiente e Recursos Naturais, Petróleo e Gás”, a participação num evento social.  

Além de omitir a natureza desse evento social, o CIPRA também nada diz sobre a presença dos titulares das Finanças, Justiça, Pescas e outros numa comitiva “que integra sobretudo ministros de pelouros com incidência nas questões” climáticas e energias renováveis.  

É também através da sua página no Facebook que o CIPRA anunciou no mesmo dia que a cimeira  sobre a sustentabilidade atribuiu galardões e diplomas aos vencedores dos Prémios Zayed, que distinguem projectos inovadores nos domínios da Saúde, Alimentação, Energia, Água e Educação, desenvolvidos por ccidadãos de várias partes do mundo. 

O Sheik Mohammed bin Zayed Al Nahyan é o presidente dos Emirados Árabes Unidos.

Segundo o CIPRA, o Presidente João Lourenço subiu ao palco para proceder à entrega do prémio a um dos projectos vencedores.

Nenhum integrante da obesa delegação angolana foi contemplado com qualquer dos prémios que o Sheik Mohammed bin Zayed Al Nahyan patrocina. 

Não tendo nenhuma ideia inovadora para apresentar à Semana da Sustentabilidade, o Presidente João Lourenço poderia delegar em Esperança Costa, a representação de Angola no evento, com o que começaria a criar na sua Vice-Presidente rotinas com o mundo exterior. 

O Presidente João Lourenço participou no Fórum Económico Mundial de 2018. É certamente dali que os organizadores do evento tiveram contacto com os constrangimentos logísticos e protocolares  que o Chefe de Estado provoca nas suas deslocações ao exterior.

Internamente, as viagens do PR ao exterior traduzem-se em pesados encargos ao erário.