A omissão da classe política

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A generalidade dos angolanos esclarecidos não tem nenhum apreço pela sua classe política.

Com muitos políticos, os angolanos não podem contar porque estão atrelados até à medula ao poder e à benesses associadas.

Com o que sobra de políticos, os angolanos também não contam muito. Encafuam-se em tocas quando o País mais precisa deles para sacudir o torpor em que se encontra.

Agora mesmo,  os políticos angolanos, de uma e de outras barricadas, fazem-se surdos, mudos, cegos e até paraplégicos perante assuntos como os sucessivos escândalos que têm no centro o presidente do Tribunal Supremo, as repetidas denúncias de tráfico de drogas, que acabam de receber do antigo comandante geral da Polícia um importante “input”, ou o descalabro parcial do Sistema de Transferência de Água do Rio Cunene, conhecido como Canal de Cafu. 

Em qualquer outro país decente, o Presidente da República teria atraído um furioso enxame de abelhas após haver promovido funcionários do SIC suspeitos de envolvimento no tráfico de drogas.

Em qualquer outro país menos atrasado, as instituições não ficariam indiferentes ou paralisadas perante a sucessão de escândalos que envolvem o presidente do Tribunal Supremo. Há denúncias, não desmentidas, do envolvimento de Joel Leonardo na venda de sentenças; há denúncias, não contestadas, de indeléveis impressões digitais do presidente do Supremo em tentativas de extorsão de presos; há provas de que Joel Leonardo empregou familiares directos no Tribunal Supremo; há provas documentais de que o presidente do Tribunal Supremo envolveu-se, pessoalmente, na negociação para a aquisição de viaturas para os juízes. 

Por fim, há evidências de que o presidente do Tribunal Supremo tem vindo a apropriar-se de património que deveria reverter para o Estado depois de ser recuperado de quem dele se tinha apossado imerecidamente.

Com as incontornáveis impressões digitais de Joel Leonardo, Angola vai viver, a partir de hoje, segunda-feira, um dos momentos mais constrangedores da sua história quando 8 dos 16 juízes conselheiros do Tribunal Supremo em efectividade se apresentaram ao Tribunal de Justiça de Portugal para o início das aulas sobre tramitação processual, programação e organização das sessões das Câmaras e do Plenário, elaboração de modelos de tabelas e realização das sessões de julgamento das Câmaras e do Plenário.

Os presidentes das Câmaras do Cível, Administrativo e Aduaneiro e da Câmara de Trabalho,  Efigênia Lima e Teresa Marçal, comandam as respectivas tropas que foram a Lisboa aprender, também, como elaborar projectos de acórdão e saber dos portugueses o número limite de processos que cada juiz conselheiro pode inscrever por sessão.

Joel Lisboa também deverá ir a Lisboa para juntar-se a um segundo grupo de juízes que se propõe aprender com os portugueses como publicar acórdãos e outras práticas processuais.

Como que petrificado, o País assiste, silenciosamente, à sucessão de escândalos que sacodem o Tribunal Supremo.

Petrificado também ficou o País quando o Presidente da República deu, por via da sua promoção, pública prova de confiança aos responsáveis do SIC recorrentemente associados ao tráfico de drogas.

Sem reacção também está o País agora perante o desabamento parcial de uma obra que há menos de 1 ano foi apresentada pelo Presidente da Republica  como algo que nunca antes na história de Angola fora feita.

Sendo sabido e consabido que o MPLA e a sua maioria parlamentar não permitiriam, sequer, o agendamento de qualquer desses assuntos para debate na Assembleia Nacional, a verdade é que os partidos da oposição também não se mostram comovidos com esses temas. 

Uma tentativa de agendamento desses temas deixaria claro quem é quem.

A máxima segundo a qual é nos momentos difíceis que se distinguem os amigos também é aplicável ao actual momento. 

Perante o tsunami de problemas, a classe política eclipsou-se por completo. Muito seguramente não compartilha as dores dos cidadãos.

No fundo, perante a catadupa de problemas, os angolanos descobrem que, afinal, estão órfãos de políticos.