A padronização da gratificação

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Como lhe competia, José Octávio Serra Van-Dúnem tomou posição pública a favor dos carros com que a Presidência da República decidiu mimosear os membros do renovado Conselho Económico e Social.

As declarações públicas de José Octávio  são coerentes com as diligências que ele fez pessoalmente para que aos conselheiros fossem atribuídas viaturas todo-o-terreno. 

Contrariamente ao que alguns intriguistas semeiam, a generalidade dos angolanos não é mesquinha ao ponto de se opor à recompensa do trabalho dos membros do Conselho Económico e Social.

Devendo sê-lo com todos os seus cidadãos, está hoje à vista que Angola é mais generosa para com uns poucos “eleitos”. Trata-se de uma minoria “minoritária”, escolhida a dedo, a quem o Estado dá  tudo e mais alguma coisa. A essa “minoria minoritária”, o Estado brinda com milionárias empreitadas, sem a chatice de medir forças com outros; a essa minoria o Estado vende bancos a preço do feijão “espera cunhado”; a essa minoria o Estado entrega, de mão beijada, a gestão da Reserva Estratégica Alimentar; a essa minoria, o Estado não pode contas quando lhe enfiam barretes como a vala de drenagem de Cafu; essa minoria permite-se, a cada dia,tirar um tijolo no imponente “edifício” que já foi a nossa companhia aérea de bandeira. A essa minoria já só falta entregar a gestão do Banco Nacional de Angola e o comando das Forças Armadas e da Polícia Nacional. 

Num país moldado para concentrar os benefícios materiais e outros nuns poucos, a ninguém pode ser exigido que dê trabalho a seus neurônios a troco de nada. Mesmo porque, como se agora se diz, já lá vai o tempo em que se jogava por amor à camisola. 

É, por conseguinte, falsa a premissa de que a generalidade dos angolanos se opõe à atribuição de carros aos Excelentíssimos senhores membros do Conselho Económico e Social.

O que alguns cidadãos, entre os quais se encontra este vosso escravo, questiona é a insistência do carro como único meio de gratificação ou de recompensa a qualquer serviço público.

Porquê será que o Estado usa os carros como única moeda de troca?

Porquê não  considerar, por exemplo, a entrega do valor do carro a cada membro do CES para que ele faça uso do dinheiro da maneira que mais lhe convier?

Seguramente, a conselheiros (e temos por lá uns tantos casos conhecidos) que já têm mais do que um carro, 200 mil dólares dariam mais jeito ou para fazer benfeitorias nas suas casas ou para outros fins. 

Num país de tantas incertezas como Angola, em que quase ninguém sabe o que seremos daqui a escassos três anos, provavelmente alguns dos mais prudentes conselheiros fariam poupanças com o dinheiro.

Não é de todo impossível que o CES tenha no seu seio membros que não têm casas com alguma dignidade. É provável que a imponência das “bombas” atribuídas a alguns membros do CES contrastem com os “moquifos” em que vivem. Também não é de descurar que, de tão modestas, as casas de alguns dos conselheiros nem sequer tenham quintais para acomodar os vistosos e espaçosos carros.

Donde, novamente a pergunta:  porque ter no carro o único meio de gratificação ou recompensa?  

A escolha de carros para gratificar tudo e todos muito provavelmente é explicada por ser um negócio que envolve vários intermediários. Desde a escolha do fornecedor, que geralmente não é nenhum dos concessionários conhecidos, à negociação do preço e da comissão. 

Por isso é que os carros chegam ao destinatário final a preços enjoativos.

Por outro lado, a padronização do modelo de carros para as diferentes categorias de conselheiros e consultores do Presidente da República torna-os numa espécie de gingongos.

Pela marca e modelo do carro, todo o cidadão passa a saber a função do seu usuário.

Num país em que se pensa que o sonho de todos os cidadãos é quebrar os pescoços dos governantes, não seria prudente evitar a exposição dos conselheiros do Presidente da República? Porquê torná-los identificáveis a partir dos carros que usam?

E todos eles coincidiram na escolha da marca e modelo do carro?

A padronização dos “usos e costumes” coloca o nosso país no mesmo patamar de “atrasos de vida” como a Coreia do Norte.

Essa padronização remete-nos a um passado não tão longínquo vivido aqui mesmo no nosso país.

Quem, como nós, já viu alguma coisa, com certeza que se lembrará que em determinado momento do auge do monopartidarismo, em que o MPLA reivindicava para si a vanguarda de todos os angolanos, os membros do Bureau Político distinguiam-se porque andavam em Fiat 136 ao passo que aos membros do Comité Central, do Estado Maior faz FAPLA e  do Governo cabiam Fiat menor, o 128. 

Estamos perante a “ressureição” do mesmo paradigma, com a diferença de que a cilindrada e os preços dos carros hoje atribuídos a algumas excelências  são infinitamente superiores. 

Mas, repita-se, a eventual contestação aos carros atribuídos aos membros do Conselho Económico e Social não têm nada a ver com inveja ou mesquinhez.

Já agora, quando é que a padronização de carros chegará a médicos, professores universitários e a outros profissionais que, diferentemente dos membros do CES, “queimam” diariamente os neurónios em prol do bem comum e não apenas 5 vezes por ano?