Fuga para o exterior

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Agostinho Neto escreveu um texto publicado no  jornal “Farolim” nos anos 40, ainda actual nos dias de hoje.

Tinha apenas 24 anos e o texto intitulava-se  “Marcha para o exterior – uma causa psicológica”. 

Foi, portanto, na década de 40 do século XX, e esta é fase “‘nativismo” do autor de “Sagrada Esperança.”

Vinha o autor assinalar com preocupação a “desnaturalização do nativo “, sobretudo pelo sistema de ensino que o colonialismo lhe destinava.

Lamentava que o nativo era obrigado (por exemplo) a conhecer  os rios de Portugal e sobre Angola pouco ou nada sabia.

Motivo da introdução do presente texto. Nos nossos dias, os jovens estão fisicamente em Angola, mas, vivem psicologicamente na Europa ou nos Estados Unidos da América.

Trocam a vivência do quotidiano angolano por canais de televisão estrangeiros e aí sintonizados com outra cultura,  que não a deles.

Preferem estar a par dos campeonatos de futebol na Europa ou da Liga de Basquetebol nos EUA.

Trabalham para comer em Angola e reservam a sua satisfação espiritual ao exterior. O Estado despende na sua formação milhões de milhões de kuanzas nas universidades e, no entanto, sonham viver no exterior. 

O jovem licenciado não quer permanecer no país e prefere ser empregado da construção civil  em Portugal. 

O dilema é este. Há na juventude um tal grau de insatisfação (não apenas, mas um sentimento de repúdio) com as coisas no país; com a governação, mais vezes errante do que acertada. 

Os governantes são desonestos (intelectualmente) e têm uma aversão insanável à critica dos jovens e dos cidadãos em geral. No geral, respondem com brutalidade a manifestações de jovens por melhor ensino, educação e liberdade. 

Ainda recentemente, um dirigente,  arrebatado (parece) por uma súbita aptidão para a extravagância verbal, disse:” nenhum partido político no mundo fez mais pelo seu povo do que o MPLA.” 

Falava para a juventude. Percebe-se, porque antes disso, noutro trecho do discurso, claramente referiu-se a ela (juventude) como estando a “falar ou  gritar” contra o governo. 

Ora, a opinião pública, imediatamente, perguntou-se, com razoável dúvida, se o orador estava a falar da Noruega ou de Angola e se, porventura, antecedendo o discurso, tivesse passado pelos terrenos de um kimbanda de fama ou, mesmo, exercitado o olfato com algo que a generalidade dos angolanos rejeita. 

Os memes nas redes sociais foram abundantes. O mundo conhece os índices paupérrimos de transparência governativa em Angola e um pouco por toda a África e a corrupção é tão somente o carrasco dos sonhos da juventude. 

Perante um tal cenário desencorajador, resta aos jovens a fuga para o exterior.

Depois das eleições (Agosto de 2022), os jovens se deram conta que nada mudou e não mudará.

Pelo contrário. A corrupção (é o sentimento geral) mudou de nomes, mas não mudou de endereço.