CAMARAFU FOI “RASTEIRADA”
PELO MINDENVP/FAA

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A Camarafu, empresa detida maioritariamente pelo general Hélder Vieira Dias “ Kopelipa”, acaba de perder o contrato de abastecimento, em regime de exclusividade, de bens alimentares e outros ao Ministério de Defesa Nacional e Veteranos da Pátria e às Forças Armadas Angolanas.

O contrato da Camarafu com o MINDENVP e FAA contemplava o fornecimento de mais de 500 itens de bens alimentares e outros, nomeadamente, papel higiénico, pastas dentífricas, etc.

Assinado quando exercia o cargo de ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente José Eduardo dos Santos, o contrato, que não passou pelo crivo do concurso público, rendia à Camarafu uma facturação anual na ordem de 300 milhões de dólares.

Segundo soube o Correio Angolense, a Camarafu não será indemnizada pela rescisão unilateral do contrato.

A “rasteira” que a Camafaru acaba de sofrer coincide com o momento em que o general Kopelipa, seu principal accionista, já foi constituído arguido num processo em que a Procuradoria Geral da República o acusa de uma imensidão de crimes, nomeadamente, peculato, fraude, associação criminosa, falsificação de documentos e tráfico de influência. 

Os putativos crimes teriam sido praticados quando o general Kopelipa acumulava a chefia da Casa de Segurança de José Eduardo dos Santos com a de director do poderoso Gabinete de Reconstrução Nacional, um apêndice da Presidência da República que geria os mais de 20 biliões de dólares que a China emprestou ao nosso país para se reerguer dos escombros da guerra. 

O Ministério da Defesa e as FAA prescindiram os serviços da Camarafu a favor do Grupo Carrinho. 

A Carrinho chama a si a logística alimentar do Ministério da Defesa e das FAA também sem passar por qualquer concurso.

O grupo benguelense junta ao contrato com o MINDENVP e FAA a outro, que lhe concede, também em regime de exclusividade, o fornecimento de bens alimentares e outros ao Ministério do Interior e órgãos dependentes.

Esse contrato foi negociado pelo anterior ministro do Interior, Ângelo da Veiga, a quem são geralmente atribuídos interesses no Grupo Carrinho.

O novo contrato com o MINDENVP e FAA representa uma sobrecarga a que o Grupo Carrinho não tem correspondido à altura.

Fontes conhecedoras do assunto garantiram ao Correio Angolense que, desde que assumiu o compromisso com o Ministério da Defesa e com as FAA, o Grupo Carrinho não tem conseguido satisfazer, sequer, 30% das necessidades daquelas duas instituições.

“Falta-lhe claramente capacidade para atender a tanta demanda”, referiu a fonte do CA.

Além dos fornecimentos alimentares e outros ao Ministério do Interior e órgãos dependentes e, agora, ao Ministério da Defesa e às Forças Armadas Angolanas, o Grupo Carrinho gere a Reserva Estratégica Alimentar, num contrato com o Governo que lhe rende 800 milhões anuais.

A Reserva Estratégica Alimentar é um expediente a que o Governo de João Lourençolançou mão a partir de 2021 com o propósito de regular o mercado e influenciar a baixa dos preços da cesta básica.

Nas semanas que antecederam as eleições de Agosto passado, o Governo festejou ruidosamente a baixa de preços de produtos como arroz, coxas de frango, óleo e massa alimentares e pouco mais.

Realizadas as eleições, de que o MPLA se auto-proclamou vencedor, os preços da cesta básica alimentar voltaram à “normalidade”, ou seja, continuaram muito acima dos rendimentos do cidadão comum. 

Desde então, os cidadãos não mais ouviram falar da REA.

Pouco depois de ganhar a gestão da REA, o semanário Expansão disse ter tomado contacto com facturas a partir das quais detectou que a Carrinho importava “produtos fornecidos pela Many AG, uma empresa com sede na Suíça e sucursal em Portugal e pertencente ao mesmo grupo e os revendia a Angola a preços quatro a cinco vezes mais caros  que nos mercados. Na prática, receia-se que o Estado colocou duas raposas a gerir o galinheiro que é a Reserva Estratégica Alimentar”.

Desde que chegou ao poder, em 2017, o Presidente João Lourenço tirou o Grupo Carrinho do anonimato e transformou-o num dos maiores beneficiários de negócios com o Estado.

Em 2021, o Grupo Carrinho comprou o Banco do Comércio e Indústria, o segundo banco público, pela bagatela de 28 milhões de dólares. 

Numa entrevista colectiva, João Lourenço fez uma tenaz defesa do grupo empresarial benguelense.

“Que eu saiba, o Estado não pôs nenhum tostão neste projecto do grupo Leonor Carrinho”, e revelando conhecimentos compatíveis com os de um contabilista do grupo, o Presidente da República acrescentou que esse conglomerado de empresas prosperou “com meios próprios dos negócios que foram tendo ao longo dos anos e recorreram à banca comercial”.

Sobre o facto de o Grupo Carrinho ter sido o único usufrutuário em 200 milhões de euros de uma linha de crédito alemã de 1.000 milhões, cuja concessão impunha como condição incontornável a apresentação de garantias soberanas, o Presidente da República sustentou que a empresa criada no Lobito seria a única que “conseguiu provar que está habilitada a beneficiar desta linha de crédito. Quem beneficiar desta linha, o crédito fica coberto de uma garantia soberana que o Estado dá”.

O Estado, segundo o Presidente da República, “não pôs nenhum tostão neste projecto do grupo Leonor Carrinho”, mas o Grupo Carrinho concorreu ao crédito alemão com uma garantia soberana do Estado angolano.

Dada a sua profunda ligação “sentimental” ao grupo benguelense, presume-se que a orientação para que o Ministério da Defesa e as FAA rompessem, sem aviso prévio, com a Camarafu, em benefício do Grupo Carrinho, tenha partido directamente do próprio Titular do Poder Executivo que, simultaneamente, Comandante-em-Chefe das Forças Armadas Angolanas.

Os privilégios com que o Presidente João Lourenço cobre o Grupo Carrinho e a Omatapalo contrariam a cantilena anti-monopólio com a qual justificou a retirada da primazia que Isabel dos Santos tinha no mercado cimenteiro.

Na sua primeira Mensagem à Nação, em Outubro de 2017, feita na Assembleia Nacional, João Lourenço disse que a situação privilegiada em que a primogénita de José Eduardo dos Santos se encontrava na indústria do cimento provocava concorrência desleal.

Com o Presidente João Lourenço, os monopólios deram lugar a oligopólios como Grupo Carrinho, Omatapalo e outros, a quem são, invariavelmente, atribuídas o “filet mignon” das empreitadas públicas.

Esses oligopólios são a expressão mais tangível do regime oligárquico que o Presidente do MPLA e da República está, ao arrepio da Constituição, a implantar no país.

Kope em vias de desfazer-se
da Edgar Transportes

Com um pesado processo judicial às costas, no qual  lhe são atribuídos “penalties” como peculato, fraude, associação criminosa, falsificação de documentos e tráfico de influência, com os diferentes painéis da saúde intermitentemente acessos, impedido de sair do país para tratamento médico mais qualificado no exterior, ao general Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, já começa a faltar ânimo e disponibilidade para dedicar ao seu imenso universo empresarial.

Depois de perder o contrato de fornecimento de bens alimentares ao Ministério da Defesa e às Forças Armadas Angolanas a favor do Grupo Carrinho, decisão unilateral que não contestará judicialmente, o general Passo em Corrida, como Kopelipa também é conhecido por causa da sua marcha sempre acelerada, colocou à venda a Edgar Transportes, uma empresa que tinha o monopólio do transporte de produtos da Sonangol, nomeadamente combustíveis, para o interior do país.

Enfraquecido por doenças e por processos judiciais, o general Kopelipa vai se afastando paulatinamente do universo empresarial

No tempo em que o general “Kopé” era, de facto, a segunda figura do país, a frota da Edgar Transportes, que circulava por todas as estradas do país, era constituída por várias centenas de camiões-tanque, todos eles comprados à porta da fábrica.

Correio Angolense sabe do interesse de algumas empresas na compra da Edgar Transportes, mas o preço que o general Passo em Corrida cobra por ela não está ao alcance de muitos.

Por isso, acredita-se que, como muitos outros negócios, também a empresa de Kopelipa acabará no “colo” de um dos novos oligarcas criados pelo Presidente João Lourenço.

Acredita-se que transitará também para o futuro titular da Edgar Transportes o contrato com a Sonangol. Afinal, essa é a galinha de ovos de ouro da empresa.