MPLA repete conto do vigário

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“O elemento primordial do controlo social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distracções e de informações insignificantes”.

(Noam Chomsky, cientista cognitivo norte-americano em A Manipulação dos Meios de Comunicação)

No momento em que o País é sacudido por violenta crise, com repercussões económicas, sociais, morais e éticas, o MPLA lançou mão de um velho e desgastado expediente, o da distração dos angolanos.

A Agenda Política para 2023, ruidosamente apresentada no Kuito, mais não é do que uma torpe tentativa de desviar a atenção dos cidadãos da grave crise que atravessa a Justiça, com os líderes dos Tribunais de Contas e Supremo envolvidos, eles próprios, em suspeitas de crimes de peculato, corrupção, nepotismo. 

Não por acaso, o momento escolhido para o lançamento da dita Agenda coincide com um gigantesco movimento de emigração, que está a esvaziar o país de boa parte da sua massa cinzenta e de força de trabalho qualificada. 

A Agenda é lançada numa altura em que a generalidade dos angolanos está totalmente tomada pelo desespero e pela desesperança.

Numa altura em que boa parte da população já não lhe atura a incompetência e a falta de patriotismo com que desgoverna o país – é disso uma manifestação concreta o desespero de milhares de jovens, muitos deles com sólida formação académica e técnica,  por obtenção de vistos que lhes permitam fugir do “ inferno” em que o país se tornou -, o MPLA vai ao Bié para dizer que ainda lhe restam na manga algumas cartas para tirar o país do sufoco em que o mergulhou.

É preciso não ter vergonha na cara.

Como faz ciclicamente, mais uma vez o MPLA imita a avestruz, que enterra a cabeça na areia quando não lhe convém enfrentar um problema.

Como a avestruz, o MPLA enfia a cabeça na areia para não ver a vergonha diária de Angola  defronte aos postos de atribuição de vistos de Portugal, Brasil, Namíbia, Dubai e outros países.

O MPLA enterra a cabeça para não ver as centenas de mães com filhos às costas que se acotovelam nos semáforos, mendigando tostões ou o que seja para ludibriarem momentaneamente a fome.

Como a avestruz, o MPLA enfia a cabeça na areia para não ver  os milhares de angolanos, em idade activa, que deambulam sem rumo pelas ruas do país, cabisbaixos, porque não conseguem emprego que lhes proporcione um mínimo de rendimentos para sustentar as suas famílias.

O MPLA fecha os olhos ao país real e refugia-se em artimanhas que já não seduzem nem o mais incauto dos seus membros.

O MPLA finge-se morto para não ver que Exalgina Gamboa, sua militante, foi constituída arguida por crimes de corrupção, extorsão, entre outros.

O MPLA imita a avestruz para não ver o sarilho em que Joel Leonardo, protegido do seu líder, se meteu.

Concentrado em si próprio, o MPLA não deu conta que os angolanos cresceram politicamente. Os jovens hoje lêem Leandro Karnal, Noam Chomsky e outros pensadores que agregam coisas à humanidade.

Hoje e até mesmo nas suas hostes, dificilmente o MPLA encontrará alguém que perca tempo a ler os lugares-comuns do seu líder.

Com o caixeiro-viajante mais um vez no ar, para mais uma tentativa, já antecipadamente condenada ao fracasso, de impingir aos japoneses um país que não existe à face da terra – sim, porque o paraíso de que falou, onde a fome é relativa, não existe qualquer crise institucional e em que cidadãos que se aventuram às ruas em manifestações têm a integridade física garantida, só existe mesmo no imaginário do próprio – coube à vice-presidente do MPLA a ingrata missão de ir ao Kuito espalhar mentiras recicladas.

Aquilo a que o MPLA chama Agenda Política para 2023 é uma condensação das mesmas patranhas que prega aos angolanos desde, pelo menos, 1992. Sem mais nem menos uma vírgula. 

Agora, por exemplo, fala em “aproximar mais a governação ao cidadão”.

Trata-se, claramente, de um ardil com o qual o MPLA quer justificar uma nova divisão política e administrativa de Angola. Apenas isso. 

Não está no DNA do MPLA envolver os cidadãos na discussão dos assuntos públicos. 

Há apenas 6 anos, quando tomou posse do seu primeiro mandato, João Lourenço disse: “A construção da democracia deve fazer-se todos os dias, mas ela não compete apenas aos órgãos do poder de Estado. Ela é um projecto de toda a sociedade, um projecto de todos nós. Vamos, por isso, construir alianças e trabalhar em conjunto, para podermos ultrapassar eventuais contradições e engrandecer o nosso país” e que nenhuma “governação será bem sucedida sem o diálogo aberto com as diferentes forças sociais”.

Levante a mão quem, ao longo desses seis anos, viu o Presidente da República  partilhar com toda a sociedade a construção da democracia.

Os actos de João Lourenço denunciam que, se dependesse exclusivamente dele, todos os partidos da oposição e organizações sindicais seriam ilegalizados e seus líderes presos. Se dependesse apenas dele, direito à manifestação e as liberdades de imprensa e de expressão teriam sido apagadas da Constituição na revisão de 2021. 

Noutro embuste, a Agenda 2023 diz que o MPLA propõe-se a “promover e assegurar uma governação de qualidade, com ênfase para o controlo da execução da despesa pública, em prol do desenvolvimento e benefício das populações”.

O MPLA desqualifica-se a si mesmo como partido que pretende ser sério. 

De quê forma o MPLA pode assegurar o controlo da execução da despesa pública se o seu líder que é, também, o Presidente da República, trata as finanças públicas como uma extensão do seu quintal?

Como é que o MPLA pode perseguir o controlo da despesa pública se o seu líder, que vem a ser, infelizmente, também Presidente da República, “queima” aproximadamente 70 mil dólares por cada hora que usa o Boeing 787 Dremliner  com o qual se passeia pelo mundo desde que lhe tomou o gosto em 2018?

Repetindo: o controlo da despesa pública  e da sua execução não é possível com um líder deslumbrado e tomado pela compulsão de desbaratar o dinheiro público, algo que faz preferencialmente ou em luxuosas vagens ao estrangeiro ou através de adjudicação directade milionárias empreitadas públicas a amigos.

Como é que o MPLA pode comprometer-se a controlar a despesa pública se o seu chefe não resiste a satisfazer os insaciáveis apetites dos seus amigos do Grupo Carrinho, Omatapalo e outros?

Como pode controlar a execução da despesa pública se foi o próprio MPLA que requereu ao Tribunal Constitucional para mutilar a Assembleia Nacional da sua obrigação de fiscalizar o Governo?

Noutro capítulo do compromisso que sabe à partida que nunca cumprirá, o MPLA diz que vai “estabelecer e promover políticas que estimulem o sentimento angolano, junto das comunidades angolanas no estrangeiro”. Não vai nada! Desde logo para o MPLA as “comunidades angolanas no estrangeiro” se resumem aos bufos que entopem todas as representações diplomáticas. Se o MPLA pretendesse estimular o sentimento pátrio junto das comunidades angolanas no estrangeiro teria facilitado a sua participação maciça nas últimas eleições.

Como se sabe, se dependesse exclusivamente dele, apenas funcionários diplomáticos teriam votado nas pretéritas eleições.

No Kuito, para onde foi enviada para dizer o que alguns dos seus companheiros não aceitariam, Luísa Damião pôs a tocar um disco de vinil completamente riscado. Disse enormidades como “ouvimos e interpretamos correctamente os anseios da nossa juventude, a quem prestaremos uma atenção particular” e prometeu-lhe mais empregos e auto-empregos.

Se identificassem no MPLA alguma, pequena que fosse, seriedade e vontade de exigir do seu Governo políticas públicas geradoras de emprego, milhares de jovens não desesperariam hoje por deixar o país à sorte de chineses, malianos, libaneses e outros, um movimento que a breve trecho introduzirá profundas alterações na geografia humana em Angola.

A maciça emigração de angolanos, algo que aparentemente não incomoda o MPLA (em recente post, o seu líder disse ter apreço pelos jovens que emigram…) traduzir-se-á, a breve trecho, em significativa alteração da geografia humana do país, com os estrangeiros, nomeadamente oeste-africanos, a imporem a sua agenda em virtude da sua superioridade numérica.

Jovem e conhecedora da realidade do país e do “modus operandi” do seu partido, com certeza que foi com algum constrangimento que Luísa Damião repetiu o conto do vigário do “desafio de aprofundarmos o espaço de diálogo quer no Parlamento, quer no espaço da comunidade e da academia, e também com os líderes e formadores de opinião no país e na diáspora”.

No histórico discurso de 26 de Setembro de 2017, cujo autor já deve ter sofrido uma profunda lavagem cerebral,  se coisa pior não lhe aconteceu, João Lourenço fez um apelo “aos servidores públicos para que mantenham uma maior abertura e aprendam a conviver com a crítica e com a diferença de opinião, favorecendo o debate de ideias, com o fim último da salvaguarda dos interesses da Nação e dos cidadãos”.

Nos dois anos que se seguiram a esse discurso, João Lourenço mandou “estatizar” a Media Nova (proprietária da TV Zimbo, Jornal O País, Rádio Mais), a TV Palanca e a plataforma de conteúdos da ZAP. Com isso, matou, incinerou e sepultou o debate político e a liberdade de imprensa, que tanto tinha gabado. 

Atarantado, sem saber o que fazer do país que não seja a sua pilhagem completa, o MPLA já nem sequer é capaz de sincronizar o seu discurso. 

Há dias, Higino Peito Alto Carneiro disse que nenhum partido no mundo fez mais pelo seu povo do que o MPLA.

Vem, agora, a vice-presidente do MPLA, que não é suposto falar sem profundo conhecimento de causa, assumir que emprego e auto-emprego para os jovens só neste ano de 2023 é que entram na agenda do partido.

Então, em quê é que ficamos?

Como é que o MPLA fez pelo seu povo o que nenhum outro partido fez se, como reconhece a sua vice-presidente, só agora descobriu a necessidade de diálogo e proximidade com a sociedade civil? 

Em suma, não há na dita Agenda para 2023 nada que o MPLA já não tenha prometido milhentas vezes e milhentas vezes descumpriu.