O PR viajou… de comboio!

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Através da página oficial do Centro de Imprensa da Presidência da República (CIPRA) no Facebook, os angolanos ficaram a saber que entre os grandes “feitos” do Presidente João Lourenço no “giro” ao Japão incluem-se duas viagens de comboio…público.

Segundo o CIPRA, depois  “de ter trabalhado na cidade de Nagoya – cidade à qual se dirigiu recorrendo ao serviço dos comboios públicos -, o Presidente da República, João Lourenço, em companhia da Primeira Dama, rumou já para a cidade de Kyoto, onde quarta-feira cumprirá a etapa final da sua visita oficial ao Japão.  Até Kyoto – localidade à qual chegou utilizando novamente o transporte ferroviário – o Chefe de Estado angolano vai cumprir um programa essencialmente cultural, em linha com os traços de ancestralidade e legado histórico da cidade que já foi capital do Japão”.

Não se sabe com quê propósitos o CIPRA chamou à atenção para o facto de João Lourenço haver viajado, em duas ocasiões, em comboios públicos.

Admitindo que o CIPRA pretendeu dizer-nos que João Lourenço é tão humilde ao ponto de viajar em comboio público, essa hipótese suscitaria uma enxurrada de perguntas como, por exemplo:

a)  Porquê é que em Angola o Presidente da República não viaja em transporte público?

b)  João Lourenço viajou em comboio público porque os japoneses não fedem à catinga?

c)  Em Angola, João Lourenço evita o transporte público por suspeitar em cada angolano propósitos de lhe torcer o pescoço?

d)  Porquê é que o Presidente João Lourenço não viaja nos voos de carreira da TAAG?

Na nota através da qual o CIPRA anuncia triunfalmente o facto de João Lourenço haver viajado em comboio público há uma grave omissão: no Japão, como em outros países civilizados, não há comboios particulares. Quer o Imperador Narahito quanto o primeiro-ministro Fumio Kishida usam transporte público nas suas deslocações internas.

Em 2022, o PIB japonês foi de 4,1 trilhões de dólares. Para o mesmo ano, o FMI previa que o PIB de Angola chegaria, se tanto, a 124, 8 mil milhões de dólares.
Mas, apesar da abissal diferença, o primeiro-ministro do Japão não aluga um Boieng 787 Dreamliner para as suas deslocações ao exterior.

Apesar da incomparável riqueza, o primeiro-ministro não se entrega a excentricidades como a de viajar “escoltado” por pelo menos duas aeronaves, além de uma “brigada” de  homens, que mistura ministros de Estado, ministros, secretários do Presidente da República e por aí adiante.

O Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, um professor catedrático de renome internacional, viaja pela TAAG quando visita Angola.

No seu país, ele frequenta restaurantes populares e anda de táxi.

Em França, o presidente Emmanuel Macron apanhou uma galheta de um cidadão, mas a República não estremeceu. 

Galhetas num servidor público não é nada que as democracias maduras não possam encaixar.

Ao exaltar o facto de João Lourenço ter viajado em comboio público, o CIPRA colocou no Presidente da República o rótulo de complexado, que se julga superior não apenas a todos os outros angolanos, como até aos homólogos estrangeiros que, sensatamente, têm os pés assentes no chão.