Presidente da República assume participação no “banquete”

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I

Na entrevista que concedeu ao Canal 24, em Londres, provavelmente a mais relevante actividade que teve na capital britânica, o jornalista perguntou: “Alguns observadores dizem que o Sr. Presidente substituiu o anterior sistema (de corrupção) pelo seu sistema. Como responde a estas críticas?”

Se calhar, para surpresa do próprio entrevistador, o Presidente João Lourenço respondeu: “O actual sistema é de combate à corrupção. Portanto, diz bem: é mesmo uma reposição! Não é uma continuidade, é uma reposição. Nós repusemos aquilo que era considerado normal, por algo que não era normal na altura, que era combater a corrupção. O que houve foi, de facto, uma reposição e não uma continuidade. Se se diz que repôs o sistema antigo pelo novo, está bem-dito. E eu estou de acordo”. 

Perante a indisfarçável perplexidade do jornalista, o Presidente João Lourenço esclareceu: “Nunca se combateu a corrupção!.(…) A corrupção só está a ser combatida agora no meu mandato (…). Os órgãos de Justiça nunca se dedicaram tanto a tratar de casos de combate à corrupção como agora no meu mandato (…) o antes era promover a corrupção”.

Apesar da narrativa contraditória, elogie-se a honestidade do Presidente João Lourenço.

Já em Fevereiro de 2020, a boca do Presidente João Lourenço fugiu-lhe para a verdade. 

Entrevistado pela rádio Voz da Alemanha (DW), ele assumiu, corajosamente, que fez parte de um “antes” que promovia a corrupção.

Todos nós fizemos parte do sistema. Ninguém pode dizer que não fazia parte do sistema”.

Daquela entrevista inferiu-se, obviamente, que, como todos os outros membros do sistema, também o actual Presidente da República roubou e pilhou o País.

Donde, o mandado de captura internacional contra Isabel dos Santos encaixa, como mão numa luva, na chamada selectividade do combate à corrupção.

II

PR tergiversa sobre III mandato

Na mesma entrevista ao Canal 24, o jornalista perguntou a João Lourenço: “Uma questão ligada ao fim dos mandatos. Sabemos que em alguns casos devem ser dois mandatos, mas tomam decisões de alterar a Constituição. A nova Constituição trouxe algumas tensões no seu país, quando decidiu concorrer para o segundo mandato. Talvez decida concorrer para um terceiro mandato ou esta questão está clara em Angola, neste ponto específico?

Resposta do Presidente da República: “Não há razão nenhuma que justifique um golpe de estado. Absolutamente nenhuma. Portanto, se alguém não está a governar bem, os eleitores devem castigá-lo nas urnas. Aguardar que haja eleições e esse partido político, este candidato que se apresente para governar o país nos anos que se seguem às eleições se não está a governar bem, será penalizado.

Repito e gostaria de sublinhar, que nada justifica, absolutamente nada, nenhum argumento pode surgir a favor da necessidade de se dar um golpe de estado”.

Propositadamente, ou não, João Lourenço não diz se se refere a golpe de Estado militar ou golpe de Estado constitucional.

A Ciência Política ensina que golpes de Estado constitucionais são facilitados por instituições democráticas fracas e pela ausência de forte cultura democrática. Um retrato perfeito de Angola.

De qualquer forma, o Presidente João Lourenço remete para 2027 uma resposta concreta para a pergunta do jornalista francês.

No caso concreto de Angola, eu penso que é cedo para se falar no assunto. Acabamos de sair das eleições agora. As próximas serão em 2027. A minha resposta está dada, se calhar podemos falar disso lá para 2027”.

Ou seja, apenas em 2027, o Presidente João Lourenço decidirá o expediente de que se socorrerá para chegar ao terceiro mandato, que, em momento algum da entrevista, descartou de modo implícito ou explícito. 

Portanto, é avisado que este país, de instituições democráticas fracas e de forte ausência de cultura democrática, ponha já as barbas de molho.

Apesar do seu insanável conflito com a língua portuguesa, João Lourenço é homem de “papo recto”. A tergiversação quanto ao terceiro mandato e à via para lá chegar foi propositada.