JL viaja, mas os problemas não

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O Presidente de Angola, João Lourenço, é o mais alto representante de Estado presente no que o Centro de Imprensa da Presidência da República qualificou segunda-feira como “evento promovido pela GAVI”, que decorre no Reino de Espanha. 

A GAVI é a sigla da Aliança Global para as Vacinas, um organismo multilateral que se ocupa da gestão das vacinas ao redor do mundo e tem no português Durão Barroso o seu Presidente desde o ano de 2020.

Segundo a justificação do CIPRA, o Presidente angolano “foi convidado para participar na Conferência Global sobre o Impacto da Vacinação tendo em atenção a sua participação muito destacada na vacinação contra a Covid-19 em África”.

Como já aqui se escreveu ontem, terça-feira, a nota do CIPRA suscitou, pelo menos, duas perguntas:

 a) a “destacada participação” de João Lourenço “na vacinação contra a Covid-19 em África” ocorreu em quê país do continente africano? É que em Angola, a vacinação contra a COVID ficou muito abaixo do que Alexandre Simeão designaria como mínimos olímpicos. Para a prova dos 9, o Ministério da Saúde poderia ser desafiado a mostrar os números reais dos cidadãos angolanos imunizados contra aquela doença.

b) A ministra da Saúde (ou a geralmente desocupada vice-Presidente da República) não poderia representar o Presidente da República na dita Conferência Global sobre o Impacto da Vacinação? 

Apesar da grande “importância” que o CIPRA atribuiu à GAVI, o facto é que ao segundo  e último dia do evento, os mais altos representantes presentes eram, além do “inevitável” Presidente João Lourenço, o director-geral da Organização Mundial da Saúde, o etíope Tedros Ghebreyesus, e o português Durão Barroso, que preside à GAVI.

A decorrer quase nas traseiras da sua residência oficial, nem mesmo o primeiro-ministro espanhol se dignou honrar o evento com a sua presença.

Provavelmente impressionado com a grande “aderência mundial” ao evento, o CIPRA suprimiu, discretamente, a notícia através da qual anunciou segunda-feira a nova deslocação do caixeiro-viajante ao Reino de Espanha. 

Segundo a nota do CIPRA de segunda-feira, João Lourenço usaria da palavra no evento.

Com a sala às moscas e sem um único homólogo no evento a fazer companhia ao compulsivo viajante, o CIPRA deletou o comunicado da viagem bem como a intervenção prevista.

Mas, como João Lourenço e turma não são de levar “desaforos” para a casa, o CIPRA anuncia, já, com antecedência de dois meses, a próxima visita ao estrangeiro do caixeiro-viajante. É uma provável consolação ao fiasco que foi a deslocação ao Reino Unido.

Numa nota, o CIPRA avisa que João Lourenço ficará pouco menos de dois meses em Angola, período em que, como é de prever, adjudicará mais obras à empresas de amigos – Omatapalo, Grupo Carrinho, Mitrelli e pouco mais -, convocará o governador do BNA e a ministra das Finanças para ver como vamos de “bolso”, entulhará a mala de viagem, exonerará uns poucos desafectos e nomeará outros poucos borra-botas e abalará para Havana onde, ao que diz o documento “foi convidado a participar na Cimeira de Chefes de Estado do Grupo 77 mais a China (G77+China), a ter lugar, na cidade de Havana, em Cuba, de 15 a 16 de Setembro”.  

Antes, em Julho, o viajante-compulsivo irá à China para endividar o país em mais 7 biliões de dólares pretensamente para a construção da refinaria do Lobito.

O convite a Cuba não ofusca o constrangimento decorrente de João Lourenço ser o único chefe de Estado que participou da conferência da GAVI.

Presidente de um país neste momento a braços com uma crise cambial sem precedentes, com descontentamento social na estratosfera e com um governo sem rumo, que o assemelha a um avião que voa sem plano de voo, a sua ida ao evento de Espanha deu de João Lourenço a imagem de alguém a quem até a vergonha fugiu da cara.

Com a exoneração de Manuel Júnior e a nomeação de José Massano Júnior para a Coordenação Económica, João Lourenço acreditou ter encontrado solução para a crise económica sem precedentes. 

Mas, como se sabe, as pessoas viajam, mas os problemas não.

Quando regressar a Angola, João Lourenço vai encontrar os problemas no mesmo ponto em que os deixou. Se não se agravarem.

Os confrontos ocorridos terça-feira no Namibe sugerem que a insatisfação popular decorrente do aumento do preço da gasolina e a desenfreada especulação de preços praticada por comerciantes estrangeiros, sobretudo libaneses e oeste-africanos, a grave crise cambial, que incapacita as empresas de produzirem, indicam que a solução do problema está muito distante. E ela não está nem na ponta do fuzil do agente da Polícia, e muito menos nas viagens desnecessárias ao estrangeiro.