JES foi-se, mas a cleptocracia ficou

3588

Qualquer dicionário de língua portuguesa ensina que cleptocracia é sinónimo de corrupção e roubalheira desenfreadas.

O Wikipédia diz que cleptocracia é a junção das palavras gregas kléptēs e krátos, que significam um governo cujos líderes são corruptos e usam o poder político para se apropriarem das riquezas dos seus países.

Os cleptocratas são indiferentes ao sofrimento dos restantes cidadãos. 

Segundo o Club-K, a Sonangol teria atribuído o qualificativo de cleptocrático ao governo de José Eduardo dos Santos.

A Sonangol trava uma braço-de-ferro com Isabel dos Santos, primogénita de José Eduardo dos Santos, num tribunal holandês, por desacertos na divisão de dividendos da GALP, a petrolífera portuguesa em que as duas partes estão representadas.

De acordo com o Club-K, numa exposição enviada ao tribunal holandês, a 5 de Agosto de 2020, para contestar a divisão dos dividendos da empresa, o presidente do Conselho de Administração da Sonangol, Sebastião Pai Querido, teria adjectivado como cleptocracia o regime que o falecido Presidente José Eduardo dos Santos encabeçou por prolongados 38 anos.

“A título de contexto, a transacção ocorreu durante o antigo regime cleptocrático de Angola, numa altura em que o país era reconhecido como um dos países mais corruptos do mundo”, diz a carta de Pai Querido, que acrescenta que “a beneficiária da Exem, Isabel dos Santos, é um símbolo proeminente da antiga cleptocracia angolana, e o signatário da Sonangol no contrato, era Manuel Vicente, um associado de longa data e confidente próximo da família Dos Santos”.

Sob o regime cleptocrata do pai, Isabel dos Santos tornou-se na mulher mais rica de África. Sob o regime cleptocrata de José Eduardo dos Santos, Sebastião Pai Querido, quadro sénior da empresa, integrava um restrito grupo de angolanos com acesso directo à mesa de Manuel Vicente, a quem é atribuída uma fortuna de mais de 60 biliões de dólares, construída com dinheiro roubado à Sonangol.

Quando chegou à presidência do Conselho de Administração da Sonangol, em Maio de 2019, nomeado pelo Presidente João Lourenço, Pai Querido já tinha feito o seu “pé de meia”.

Sob a cleptocracia capitaneada por José Eduardo dos Santos, o “impoluto” Pai Querido tornou-se accionista do BAI, um banco constituído com capitais da Sonangol, accionista da SOMOIL, uma empresa petrolífera constituída por uns poucos escolhidos por José Eduardo dos Santos no âmbito do que definiu como acumulação primitiva do capital. Também foi sob a sombra do regime cleptocrata de José Eduardo dos Santos, que Pai Querido criou o grupo Global Inn Investments (GII), a quem a Sonangol atribuiu duas concessões na bacia on shore do Kwanza. Ele tem, também, participação no projecto de mineração de Chiumbe, igualmente atribuída na vigência do regime cleptocrático.

Numa declaração datada de 6 de Julho de 2023, o Grupo Parlamentar da UNITA diz que o ano passado o “Estado acumulou mais de 11 mil milhões de dólares do diferencial do petróleo e até hoje o Governo não explica o que vai fazer com esse enorme excedente”.

O Governo não tugiu nem mugiu.

O silêncio do Governo pode significar que o dinheiro foi parar aos bolsos de alguns  “praticantes” de cleptocracia. 

Tomado por enorme embaraço, o Governo não assume publicamente a grave crise de tesouraria por que passa o país por estes dias.

O expediente de imputar a crise à baixa de produção de petróleo não comoveu ninguém.

Os angolanos sabem que não foi por essa razão que o gato foi às filhoses. 

Um ano depois da sua morte, a actual crise económica e social, de proporções inéditas, mostra que José Eduardo dos Santos partiu para a eternidade, mas esqueceu-se de levar consigo a “sua” cleptocracia.

É esse imperdoável “esquecimento” de José Eduardo dos Santos que levou a que – e já sob o regime do Presidente João Lourenço, que prometeu um novo “paradigma” ao país, assente num sério e férreo combate à corrupção, impunidade, nepotismo – o querido Pai da Sonangol pusesse a esposa e restante parentela a perambular pelo mundo à expensas da empresa pública.

A nomeação, em Fevereiro de 2020,  de Janice Martins para o Conselho de Administração do BFA, também é consequência do maldito esquecimento de José Eduardo dos Santos.

Janice Martins é filha do querido presidente do Conselho de Administração da Sonangol, accionista do BFA. 

Os restos mortais de José Eduardo dos Santos não foram sepultados. Jazem numa urna, num anexo do mausoléu do “Guia Imortal”, Agostinho Neto.

Não é possível encaixotar o “regime cleptocrata” para ser colocado ao lado do seu fundador e exclusivo beneficiário?