Quem não ouve conselho não chega a velho

3333

No princípio do seu mandato, quando ainda vivia a fase de bem sucedido vendedor de ilusões, o Presidente João Lourenço assegurou a jovens, com que reuniu em Luanda para auscultar as suas necessidades e aspirações, que conhecia o país como poucos ou nenhum dos restantes participantes presentes, maioritariamente membros da JMPLA e dos Serviços de Inteligência.  

Empolgado com o aplauso que tal afirmação arrancou, sobretudo dos membros da JMPLA, João Lourenço aproveitou para comunicar que boa parte da comida que saciava a fome dos jovens ali presentes era produzida por ele. 

Há uma semana, João Lourenço voltou a gabar o conhecimento que diz ter do país.

“Eu conheço o país!  Não preciso de vir ao Cunene para saber o que é o Cunene, o que tem, o que é que precisa de ter”.

Do alto do seu convencimento, fingiu esquecer-se que horas antes o governador da Huíla lhe desmentiu o conhecimento que diz ter do país.

A exclusão do conhecido triângulo huilano do milho do chamado Planagrão é prova mais do que suficiente de que o Titular do Poder Executivo desconhece em absoluto o país que governa.

Aliás, num momento de louvável honestidade, João Lourenço aceitou que o conhecimento que tem do país advém-lhe de informações esparsas fornecidas por jovens burocratas que quase nunca arredaram pé dos seus confortáveis gabinetes em Luanda.

“As minhas visitas (às províncias) são, no fundo, para vir concretizar ideias que são cozinhadas em Luanda pelo Executivo, com os meus auxiliares, que estão à frente dos departamentos ministeriais”, confessou.

O Planagrão, de que a Huíla foi excluída, é um plano agrícola megalómano, anunciado pelo Presidente João Lourenço na campanha eleitoral do ano passado. Com ele, pretender-se-ia incentivar, em grande escala, a produção de milho, arroz, trigo e soja através de uma linha de crédito do BDA.

Com o Planagrão visava-se a auto-suficiência de cereais e a subsequente exportação dos excedentes

Por via do Planagrão, o Executivo perseguia, igualmente, a promoção do desenvolvimento da região leste do país. 

Angolanos com comprovado conhecimento de causa e que não foram tidas e nem achadas na concepção do ambicioso plano, criticaram-lhe, primeiro, o curto prazo estabelecido para que gerasse os primeiros resultados. 

Os experts avisaram que o número de agricultores angolanos com capacidade para uma empreitada do género é muito pequeno e como tal inexpressivo. Segundo, o leste de Angola não tem estradas e muito menos outras infra-estruturas para permitir uma produção significativa de cereais. Em terceiro lugar, os críticos sublinharam que entre as culturas eleitas, a região leste só tinha tradição e vocação para o arroz.

Por fim, angolanos avisados alertaram que, se queria, efectivamente, apostar na recuperação da produção de cereais em grande escala no curto prazo, o Executivo deveria prioritariamente apostar na cultura de milho, por ser a principal prioridade alimentar e, também, por fornecer matéria-prima indispensável para a produção de ração para frangos de ovos, suínos, caprinos.

Finalmente, os entendidos na matéria advertiram que, se o Planagrão também contempla a produção, em grande escala, de milho, a província da Huíla deveria ser o seu principal foco, por ser a que sempre foi mais produtiva nesse cereal, como, aliás, o atesta o facto de se situar naquela província o conhecido triângulo do milho, nome que ganhou notoriedade por fazer referência aos municípios de Caconda, Caluquembe e Chicomba, que constituem, desde o tempo colonial, a principal região produtora de milho.

No tempo colonial, altura em que os “costureiros” do Planagrão ainda não eram projectos de pessoas, o milho produzido naquele triângulo era escoado por camião até à Caala, donde seguia para outros destinos, como o Porto do Lobito ou os países vizinhos a leste. É dali que decorre, erradamente, a atribuição do distintivo rainha do milho à Caala.

“ É por essa razão – disse o governador da Huíla – que consideramos estratégico o respectivo triângulo figurar na Primeira Fase do Programa Nacional para a produção de cereais, vulgo Planagrão”.

Enquanto o governador Nuno Mahapi dava a sua “aula de sapiência” sobre as potencialidades agrícolas da Huíla, o semblante do Titular do Poder Executivo variava entre a indiferença, a surpresa e o tédio, provas de que desconhecia em absoluto o que ali se estava a falar.

Diz a sabedoria popular que quem não ouve, não chega a velho.

Depois da rigorosa radiografia do governador Nuno Mahapi, o Presidente da República deveria reformular imediatamente o Planagrão, o que implicaria, necessariamente, o afastamento dos imberbes, confortavelmente instalados em luxuosos gabinetes em Luanda, que conceberam e lhe impuseram a mal amontoada montanha de ideias.

Quando alguém que se gaba de conhecer o pais como a palma da mão deixa de fora o triângulo huilano para o relançamento da produção de cereais o mínimo que se pode suspeitar é que estejamos perante não já um charlatão, que seria adjectivo desapropriado a um Chefe de Estado, mas perante alguém que tem como fontes de informação privilegiadas meninos acabados de desmamar… 

“Nós quando ouvimos falar do Planagrão, logo estalamos os dedos porque dissemos: pronto, o triângulo do milho já está dentro. Mas, foi triste ouvir que o triângulo do milho não estava dentro do Planagrão (…) O Planagrão deve nascer no triângulo do milho porquê? Porque neste quinquénio nós conseguimos resolver este problema (déficit de cereais). Se fizermos a nossa parte, vamos ter a auto-suficiência alimentar no nosso país”, disse o governador.

Depois do que ouviu no Lubango, o Presidente João Lourenço perdeu completamente “chão” para continuar a responsabilizar a guerra que a Rússia levou à Ucrânia pela escassez de cereais no nosso país.

Depois do que ouviu, João Lourenço deve optar entre continuar a dar ouvidos aos garotos que tem como principais auxiliares ou conhecer verdadeiramente o país. Algo que passa, entre outros, por circular por via terrestre. O Presidente da República não perderia o título se, por exemplo, depois do Lubango se deslocasse ao Cunene por estrada. Essa experiência é que dá o verdadeiro conhecimento do país.