Política, afectos & empatia

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Irremediavelmente, grande parte dos dirigentes angolanos fazem questão de aparecer em público, serem televisionados até, com uma postura facial que o povo baptizou de “cara podre”, e uma praxis política muito longe do pulsar do coração dos governados.

Isto não teria nada de relevante ou de mediático – cada um manda no seu rosto e no seu “aquilo” que o conjunto Águias Reais bem insinuou na música Mariana, – se não estivéssemos num país africano, saído, portanto, dos desafectos próprios da colonialidade, e se não estivéssemos a enfrentar, desde 1975, inúmeras carências, das quais, as mais gritantes são a falta de luz eléctrica e de água potável. Estas, ainda e só, já que falar de fome em Angola tem tido justificações como a do segundo Presidente de que, quando entraram em Angola, vindo do maquis, este povo já comia o que o poeta António Jacinto versejou “fuba podre, peixe podre” e a do terceiro Presidente, quando disse que “a fome é relativa”.

Sendo essas as carências mais gritantes, que têm a ver com as necessidades básicas de sobrevivência humana, não se pode descurar a grande carência que, parecendo irrelevante – repito que estamos a viver num país saído do sistema colonial fascista, há 47 anos –, não deixa de merecer a atenção de todos os 32 milhões de angolanos, mesmo daqueles que fazem finca pé na chamada “cara podre”. Estamos a falar da antítese desta, a delicadeza, a afectividade, que, no tempo da luta armada os poetas designaram “o amor ao seu povo”.

Onde anda esse tão propalado “amor pelo povo”? É com imensa surpresa e um misto de terror que ouvimos altos dirigentes a utilizar expressões rasteiras, torpes, como “vão levar porrada”, “lúmpens” (o termo “lúmpeno” nunca existiu) e outras mais que o respeito pelo leitor nos impede de repetir.

Falemos então do afecto e da falta dele nos gestos e na postura da maioria dos dirigentes angolanos, sentimento que qualquer povo saído de séculos de colonialismo espera de quem, sendo melómano e bantu, o dirige, e tendo em consideração que as teses de Maquiavel têm delimitações históricas e culturais. 

A homenagem cultural ao mais alto mandatário brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva, no passado dia 25 de Agosto, no Palácio Presidencial, na colina de S. José, deixou a imprensa angolana fervilhante e alguns observadores da cena política da banda com saudades. Fervilhante até que ponto? Saudades de quê?

A imprensa está ainda a fervilhar de debates nas redes sociais. Sim, nas redes sociais que pescam o contraditório na análise fina ou grossa feita por jornalistas de gema que os temos cá na banda, uns, e fugidos da perseguição que os pretende vitimar, outros, na diáspora, e porque na comunicação social pública o que há é o vazio vertiginoso de comunicação, a favor da informação vertical.

Na cena política ficaram saudades de um protagonismo solto e afectivo demonstrado por um chefe de Estado de país estrangeiro que já se foi embora. O facto de esse estadista, Lula da Silva, falar a mesma língua que nós, serviu para aquecer esse afecto. De que afecto se trata? O simples apertar a mão do guitarrista e dar uma palmadinha nos ombros dos outros músicos do grupo musical Duia, que esteve no palácio de S. José a animar a recepção de Lula. Não ficando por aí, Lula da Silva acenou a convidar o Presidente angolano a subir ao estrado onde estava a tocar a banda. O que é que esta cena tem de extraordinária?

Tudo aquilo que se disse atrás. O governo angolano é carente de empatia com o seu povo. É ver na televisão. Ministros, governadores e outros mwatas e pequenos sobas do Executivo com um travessão facial e um vinco de leão nos olhos parece que o povo lhes pediu dinheiro emprestado e não lhes pagou. Os dirigentes angolanos são falhos de afecto e empatia, esse gesto como o que Lula da Silva protagonizou, ao subir ao estrado para acarinhar os músicos do grupo Duia que estavam a tocar samba brasileiro. Nós, por cá, temos de ser convidados por um estrangeiro a acarinhar o nosso próprio povo?