O CULPADO É ELE MESMO!

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Já soa à desculpa de mau pagador, à disfarce de incompetência a insistência do Presidente da República em putativos angolanos que estariam a desencorajar o investimento estrangeiro no país.

Desde que tomou posse, em Setembro de 2017, contam-me pelos dedos de uma mão, e sobram bastantes, os principais países do mundo que o Presidente da República não visitou para atrair investimento estrangeiro.

João Lourenço já esteve nas principais capitais de quatro continentes. Só lhe falta ir à Nova Zelândia e à Austrália, para completar o giro pelos cinco continentes do mundo.

Os custos das deslocações de João Lourenço para atrair investimento estrangeiro, iniciativa enquadrada na dita diplomacia económica, suplantaram, de longe, as necessidades de investimento.

O  luxuoso Boeing 787 Dremliner, que João Lourenço não dispensa nas suas deslocações às principais capitais do mundo, tem custos diários altíssimos.

Como qualquer soba do século passado, quando se desloca ao estrangeiro, João Lourenço leva consigo um numeroso séquito. 

Calculados muito por baixo, a deslocação do Presidente de Angola ao Brasil, para a tomada de posse de Luís Inácio Lula da Silva, implicou gastos que muitos países não conseguem suportar em dois anos.

Mais de seis anos depois de infrutíferas perambulações pelo mundo, João Lourenço vira-se agora para dentro do país para responsabilizar terceiros pelo seu insucesso.

No sábado, na abertura do Conselho Económico e Social, João Lourenço afirmou que “(…) infelizmente, enquanto trabalhamos para o desenvolvimento económico e social do país, alguns políticos da nossa praça que nunca quiseram o bem de Angola e dos angolanos, vêm realizando trabalho contrário junto das instituições financeiras internacionais, dos credores e investidores a desencorajar o investimento em Angola”.

Como em muitas outras ocasiões, João Lourenço não identificou os tais “políticos da nossa praça que nunca quiseram o bem de Angola e dos angolanos”.

Os angolanos sabem a quem o Presidente não tem coragem de nomear. E não o faz porque carece de provas.

 Na terça-feira, 5, João Lourenço generalizou a suspeição a todos os angolanos que vivem fora do país.

Num post, e mais uma vez sem apontar nomes, o Presidente escreveu que “sejam quais forem os motivos que o levem para fora do país, cada angolano deve sentir-se embaixador da sua Pátria” e que “Ninguém é digno de ser considerado filho, quando este luta pela degradação da imagem dos seus pais (…)”.

Em João Lourenço, a insinuação, a suposição ou a generalização já vão se tornaram vícios. Sempre que lhe faltam provas, insinua.

Em Janeiro de 2021, presidindo a uma reunião do Conselho de Ministros, João Lourenço disse que os indivíduos que teriam depredado autocarros e incendiado parcialmente a sede do MPLA ao Benfica, em Luanda, teriam deixado “impressões digitais indeléveis”.

Dois anos depois, a Polícia não conseguiu identificar os autores das pretensas impressões digitais…

Naquela altura, como agora, percebeu-se que o Presidente da República pretendia associar a UNITA à depredação daqueles bens.

No dia 15 de Abril de 2011, em meio à grave crise económica e social e face à incapacidade do seu Governo de dar resposta à situação, o então Presidente do MPLA e da República, José Eduardo dos Santos assumiu, corajosamente, a incompetência.

Falando aos seus pares do Comité Central, José Eduardo dos Santos admitiu ser uma fantasia a ideia de que a fome e a miséria seriam banidas em tempo razoavelmente curto pela simples razão de que “não foi o MPLA nem o seu Governo que a criou”.

Tal como José Eduardo dos Santos assumiu que o seu Governo não tinha soluções para a fome e a miséria, a João Lourenço também é exigida a honestidade de reconhecer que não são alguns políticos da nossa praça que afugentam o investimento estrangeiro.

Os investidores procuram outras paragens para aplicar o seu dinheiro porque Angola não tem sido capaz de criar um bom ambiente de negócios, “para atrair investimento privado directo estrangeiro, para incentivar a Banca e o sector empresarial privado a fazerem a sua parte”. Os resultados das tentativas de atrair investimento “ainda são tímidos” porque só um investidor com um fio descarnado na cabeça investiria o seu dinheiro num país em que a justiça é dirigida por indivíduos sem idoneidade moral; em que o Presidente da República só se consulta com os seus botões para adjudicar empreitadas públicas.

Os investidores estrangeiros não precisam de quaisquer vende-pátrias para saberem que Angola é um Estado autoritário em que por vontade expressa do Presidente da República um activo económico pode mudar de mãos de um momento para outro. Através das embaixadas dos seus países, os investidores estrangeiros sabem que Angola é um Estado autoritário que praticamente suprimiu as liberdades de expressão e de imprensa constitucionalmente protegidas e em que cidadãos são enjaulados por ousarem criticar o Presidente da República.

O Presidente João Lourenço não comoverá ninguém com o infantil argumento de que “alguns políticos da nossa praça” desencorajam o investimento estrangeiro.

Nenhum investidor estrangeiro sério também o acompanhará na lamúria de que a acção de alguns políticos da nossa praça “espelha bem a falta de patriotismo, de sabotagem contra os interesses de seu próprio país”.

O que está irremediavelmente condenado ao fracasso é a tentativa de atrair investimento estrangeiro num país que não criou quadro legal para que o estrangeiro aplique o seu dinheiro sem correr risco.

Se, como se ilude o Presidente da República, “os financiadores, credores e investidores” se guiassem “por critérios objectivos de análise dos mercados, e conhecem nossa seriedade no que diz respeito a honrar nossos compromissos para com os credores”, João Lourenço não precisaria hoje de agarrar-se desesperadamente ao argumento de pretensos vende-pátria. 

O primeiro e principal vende-pátria é o próprio Presidente da República, que sacrifica os interesses do País a favor dos seus; que adjudica a empresas de amigos ou nas quais tem interesses milionárias obras públicas sem concurso público; que encoraja pública e oficialmente o Tribunal de Contas a violar a Lei; que mantém à testa do Tribunal Supremo alguém com uma extensa folha de serviço suja.

Até para usar o escudo de bodes expiatórios é necessária alguma imaginação. Faculdade que vai rareando no Presidente da República.