E. Mulaza. Director do Valor Económico
alvo de tentativa de rapto em Lisboa

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Valor Económico

O profissional  terá sido vigiado por ‘agentes’ que tinham definido como ponto do sequestro as imediações da estação de Sete Rios, em Lisboa. 

Sindicato dos Jornalistas insta o Ministério Público a investigar essa e outras denúncias

Informações publicadas sábado, 21, pelo conhecido portal Club-K, atestam que o jornalista Evaristo Mulaza, director-geral do semanário Valor Económico, foi alvo de uma tentativa de rapto, aquando da sua última passagem por Portugal, onde permaneceu por alguns meses no decurso deste ano.

Segundo o portal, o regime angolano terá agenciado um “sindicato” baseado em Lisboa e cujos operativos terão vigiado os passos do director do Valor Económico, com o objectivo de raptá-lo nas imediações da estação de metro de Sete Rios, em Lisboa.

Além de director do jornal Valor Económico, Evaristo Mulaza é também director-geral da Gem Angola Global Media, a empresa que tutela o jornal e a Rádio Essencial, que emite na frequência 96.1 FM, em Luanda.

Com largos anos de experiência na direcção de órgãos de comunicação social, incluindo o extinto ‘Cruzeiro do Sul’, o jornal ‘Expansão’ e o ‘Nova Gazeta’, este último também detido pela Gem Angola Global Media, Evaristo Mulaza mantém-se desde há pelo menos três anos como comentador residente na rádio Essencial, em que analisa particularmente os temas que marcam a semana no programa ‘Dias Andados’, às sextas-feiras. Nos últimos meses, passou a integrar o painel de comentadores residentes do programa ‘Conversas Essenciais’, aos sábados, também da rádio Essencial.

A matéria do Club-K menciona outros casos de intimidação de profissionais da comunicação social, como é o caso do jornalista Victor Hugo Mendes, a residir actualmente em Portugal e que apresenta um programa de análise e debate na RTP África. Mendes relatou ameaças através de telefonemas anónimos e mensagens, tendo reportado o caso às autoridades portuguesas.

O portal dirigido pelo jornalista José Gama lembra também o caso do rapto do activista Hitler Samussuku, em 2019, depois de ter feito um vídeo com críticas dirigidas ao Presidente João Lourenço, além das agressões de que foi vítima o actvista Jota Privado por guardas da Presidência da República num restaurante em Brasília, aquando da passagem de João Lourenço pelo Brasil, para a cerimónia de investidura de Lula da Silva. Jota Privado tem-se destacado essencialmente com a reprodução de textos de pendor crítico contra o regime liderado por João Lourenço, no seu canal do YouTube.

Na edição deste sábado, 21 de Outubro, do programa ‘Conversas Essenciais’, o jornalista Graça Campos também relatou ter-se sentido vigiado em pelo menos uma ocasião num evento público em Portugal, além de revelar a existência de um processo em curso no SIC, em Luanda, cujos detalhes, como a identidade do queixoso e as suas motivações, desconhece completamente. 

SJA INSTA A PGR A AGIR

Contactado a propósito, o Sindicato dos Jornalistas Angolanos, através do seu secretário geral, manifestou o seu “total apoio” aos jornalistas visados e a “todos os outros a quem possa estar a ser infundido o medo”. Teixeira Cândido recorda que o jornalismo “não é uma profissão ilegal”, mas antes uma actividade profissional com dignidade constitucional e regulada pela lei de imprensa, sendo que todo o profissional com carteira “está habilitado” a exercer a profissão em Angola. “O jornalista Evaristo Mulaza está autorizado pela Comissão de Carteira e Ética, entidade competente, para exercer o jornalismo em Angola. Não há nenhuma razão que autorize quem quer que seja a orquestrar raptos ou o que quer que seja. É uma informação grave avançada pelo Club-K e, por isso, a Procuradoria-Geral da República, enquanto entidade competente para lançar mão à acção penal, tem aqui razões mais do que suficientes para mostrar, de facto, que está ao lado de todos os cidadãos, é defensor da legalidade e não apenas defensor daquelas pessoas que ocupam cargos de relevo no Estado”, sublinhou Teixeira Cândido, insistindo que os jornalistas merecem ser protegidos pela PGR nos mesmo termos em que o faz com as figuras que ocupam funções de relevo no Estado. “É um apelo que o Sindicato lança à PGR para que, de facto, não cruze os braços, para que lance mão a todos os mecanismos que tem para ver esclarecida esta situação.”

Lembrando que não se trata da primeira vez que profissionais da classe são intimidados, Teixeira Cândido recorda que, no ano passado, a sede do Sindicato dos Jornalistas Angolanos foi assaltada várias vezes, além de residências de jornalistas e que, até ao momento, não se conhece nenhuma investigação com conclusões sobre o que se passou. “Mais uma vez temos notícias de que jornalistas estão a ser alvo de planos de sequestro, há jornalistas a serem ameaçados e, mais uma vez, o sindicato apela às entidades competentes, à Procuradoria-Geral da República e ao Serviço de Investigação Criminal para que, de facto, utilizem os meios do Estado para garantirem segurança aos cidadãos”, Sublinha Cândido, enquanto reitera o “apoio incondicional do sindicato ao jornalista Evaristo Mulaza” para que “não se iniba” no exercício da sua profissão. “É uma profissão legal, é uma profissão constitucional, nós vivemos num Estado de Direito, segundo a Constituição e, no Estado de Direito, todas as entidades, incluindo os particulares, têm apenas e só a lei, se quiserem ver reposto um direito que lhes tenha sido violado. Portanto, qualquer instituição, qualquer cidadão que se tenha sentido ofendido pelo Evaristo Mulaza ou por outro jornalista, no exercício da profissão, tem os tribunais e deve recorrer a estas instâncias para ver reposto o seu direito. Sequestrar ou orquestrar planos para sequestrar cidadãos é, na verdade, um crime e o Ministério Público não deve cruzar os braços”, desafiou o secretário geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos.