Bónus para Ricardo,
ónus para outros

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O Presidente da República empossou segunda-feira, 13, Rui Paulo de Andrade Teles Carreira no cargo de secretário de Estado para os sectores da Aviação Civil, Marítimo e Portuário, para o qual o nomeou três dias antes.

Na ocasião, João Lourenço anunciou um forte investimento na TAAG de modo a torna-la “mais competitiva para melhor servir os seus passageiros e o país”.

O PR referiu que as novas aeronaves que o Governo encomendou à construtora Boeing não devem esmagar a necessidade de recuperação da frota acantonada TAAG, “que não é nada pequena”. 

Nos estaleiros da TAAG está uma frota composta por quatro B777 e 2 B737.

De acordo com o Presidente da a TAAG será a prioridade do novo secretário de Estado da Aviação Civil, Marinha e Portos.

João Lourenço pediu-lhe, expressamente, “dedicação e atenção especial à TAAG, sem prejuízo das outras áreas que também são da sua responsabilidade”.

Rui Carreira ouviu do Presidente da República a recomendação de fazer “uma TAAG melhor, porque ela já é uma grande companhia, simplesmente precisa de uma atenção particular da parte do nosso Executivo”.

Os novos desafios colocados à TAAG devem estar alinhados ao estado de graça em que estão as relações de Angola com os Estados Unidos da América.

“Nós estamos a melhorar, todos os dias, os laços de amizade e cooperação com os Estados Unidos da América, que nos têm aberto as portas e, portanto, essa oportunidade deve ser bem aproveitada.(…) não podemos nos contentar em voar apenas para poucas capitais europeias, mas também ter a ambição de voar para algumas cidades dos Estados Unidos da América”.

Elevando a fasquia, o Presidente João Lourenço disse que a TAAG tem “obrigação” de servir melhor “o nosso próprio continente, abrindo mais rotas em África” e deve, também,  ambicionar a abertura de novas rotas no continente asiático. “Não nos podemos contentar em voar apenas para a China, da mesma forma que, em relação ao continente americano, não nos podemos contentar em voar apenas para o Brasil”. 

João Lourenço acredita que a “sólida experiência” do nomeado no sector da aviação será vital para que a TAAG atinja as metas preconizadas.

Presidente da Comissão Executiva da TAAG (2018 a 2021) e, depois, administrador não executivo até à sua nomeação para as novas funções, Rui Carreira saiu do palácio presidencial na prática investido, também, nas funções de principal gestor da companhia aérea pública.

Depois do que o Presidente da República disse, é muito difícil imaginar as atribuições que sobram  para a administração da TAAG. Ao que tudo indica, doravante quer a decorativa presidente do Conselho de Administração, Ana Major, quanto o CEO, o espanhol Eduardo Fairen Soria, não terão muito o que fazer.

Na verdade, o Presidente esvaziou completamente as competências da administração da TAAG.

Rui Carreira, piloto de profissão, substituiu no cargo Emílio Vumpa de André Londa, o 31º da extensa lista de secretários de Estado que o Presidente João Lourenço nomeou no dia 21 de Setembro de 2022. 

No despacho através do qual exonera Emílio Londa, o Presidente João Lourenço não justifica a sua decisão. É uma prática assumida publicamente.

A ausência de explicação para o afastamento ocorrido no dia em que o Governo festejava a inauguração do Novo Aeroporto Internacional de Luanda vem sendo compensada com especulações.

Nas redes sociais, a exoneração de Emílio Londa é associada ao desastroso desempenho interno e externo da TAAG.

Dentro e fora de portas, a TAAG é sinónima de atrasos e cancelamentos de voos, sem prévia justificação aos seus utilizadores. Pessoas com compromissos de trabalho deixaram de voar pela TAAG.

A imagem interna e externa da TAAG deteriorou-se desde que o ministro dos Transportes, Ricardo Viegas de Abreu confiou, já lá vão mais de dois anos, a gestão da empresa a um espanhol que deixou um imenso rasto de incompetência em países sul-americanos onde também se travestiu em gestor de companhias aéreas.

O actual estado de degradação da TAAG tem o rosto e as impressões digitais do ministro dos Transportes.

Estranhamente, com o Presidente João Lourenço os ministros nunca assumem a responsabilidade política decorrente dos fracassos dos pelouros que dirigem.  

Invariavelmente, eles eximem-se de culpas e atiram os seus subordinados às fogueiras.

O país já perdeu a conta do número de vezes que a ministra da Saúde sacrificou directores e outros responsáveis hospitalares para salvar a sua pele?

O país já perdeu o número de vezes em que o Presidente da República condescendeu com ministros que enjeitam responsabilidades políticas que deveriam ser inalienáveis.

Tal  como a reincidente Sílvia Lutucuta, especialista em “electrocutar” subordinados, também Ricardo d’Abreu lavou as mãos sobre a miséria em que a TAAG se transformou.

Com o “alto patrocínio” do ministro dos Transportes, a HiFly, uma minúscula e quase desconhecida companhia aérea,  sobreviveu à falência porque, durante meses a fio, foi-lhe permitido entulhar os bolsos por via da operação da rota Luanda/Lisboa, a mais lucrativa da TAAG. E fê-lo com aviões que só por mero acaso não se despedaçaram no ar. 

O próprio Ricardo de Abreu em pelo menos uma ocasião ficou retido em Lisboa – o que no caso dele não é transtorno nenhum, muito pelo contrário – porque a “cangalha” da HFly que deveria fazer o voo para Luanda apresentou avaria só comum em aviões com tempo de uso expirado.

Em Dezembro de 2022, escrevemos aqui nesta página que “quem quer que tenha contratado Eduardo Fairen Soria para liderar a Comissão Executiva da TAAG por certo que esqueceu-se de lhe dizer que a gestão da empresa não se confunde com a sua titularidade ou propriedade. E sem os limites próprios de um empregado, Eduardo Fairen Soria julga-se com carta branca para tratar a companhia aérea de bandeira como sua propriedade pessoal”.

Já em Março deste ano, alertamos “que tomou conta da gestão da companhia aérea pública angolana, Eduardo Fairen não tem disfarçado os seus propósitos de desossar a TAAG. Para inicio de conversa, tomou-lhe a operação da sua mais lucrativa rota (Luanda-Lisboa-Luanda), algo que fez sob o pretexto de que a companhia angolana não possuiria aeronaves em condições de responder à crescente demanda. O espanhol mandou para oficinas ou acantonou a moderna e competitiva frota de aviões de longo curso que encontrou na TAAG”. (A mesma de que o Presidente João Lourenço acabou de referir). E mais: “com o acantonamento dessas aeronaves, Eduardo Fairen arranjou pretexto não apenas para a contratação da companhia HiFly, que usa, quase exclusivamente, aviões Airbus 330, como paulatinamente vai afastando a marca TAAG do espaço europeu. Nos dias que correm, a rota Luanda/Lisboa/Luanda é operada pela HiFly com os seus cansados A 300. Se colocados lado a lado, o A 330 estaria para o B 777 300 ER, de que TAAG possui cinco unidades, como um Toyota Rav 4 estaria para um Toyota VXR Twin Turbo. A troca de aviões na mais procurada rota da TAAG levou ao ócio centenas de pilotos, mecânicos e outros especialistas que a transportadora nacional formou ao longo de anos. A ‘restruturação’ da rota atingiu até o Pessoal Navegante de Cabine, os nossos conhecidos comissários de bordo,  A despersonalização da transportadora angolana atingiu, agora, o call center (centro de atendimento) em Lisboa, o seu principal destino europeu, para onde semanalmente embarca e desembarca milhares de passageiros, maioritariamente angolanos. Com essa decisão, a TAAG  distancia-se cada vez mais da capital portuguesa. Sem qualquer informação prévia, nos últimos dias quem procurou contactar a TAAG através do seu call center habitual confrontou-se com silêncio no outro lado da linha.Sabe-se, agora, que os interessados em contactar a TAAG telefonicamente terão de fazê-lo através de um número que não é português. O indicativo (+34) seguido do número 7074 50023 dizem que o call center migrou para a Espanha. Isto é, quem, estando em Portugal, necessite de contactar a TAAG em Lisboa terá de fazê-lo por duas únicas vias: ou deslocar-se fisicamente ao aeroporto Humberto Delgado ou fazer uma chamada internacional”.

Com todo esse histórico de cumplicidade do ministro dos Transportes com a destruição da TAAG, responsabilizar, exclusivamente, um secretário de Estado é, para dizer o mínimo, um acto de injustiça.

Em muitos círculos comenta-se que a deterioração dos serviços e imagem da TAAG é inversamente proporcional ao crescimento do património do ministro dos Transportes em Espanha, país para onde a TAAG passou a voar semanalmente, mesmo sem trafego que justifique comercialmente essa opção.

Dir-se-ia que, com o Presidente João Lourenço, os ministros chamam a si o bónus da função e repassam os ónus aos subordinados. É sabido que Sílvia Lutucuta, Ricardo d´Abreu ou João Baptista Borges não repartem com os seus auxiliares os imensos dividendos que acumulam no exercício das funções. Mas, qualquer um deles é lesto a sacudir o capote à menor ameaça de qualquer tempestade.

No fim do dia, mesmo esvaziados nas suas funções, a PCA e o PCE da TAAG continuarão a usufruir os seus milionários salários, o ministro dos Transportes saiu incólume e o desgraçado do Emílio Londa é que vai para casa, carregando a culpa, na “mulumba”, a culpa de haver atrasado a TAAG. 

Nomeado ministro dos Transportes em Junho de 2018, para substituir Augusto da Silva Tomás, Ricardo Daniel Sandão Queirós Viegas de Abreu já “electrocutou” quatro secretários de Estado da Aviação Civil. O primeiro foi Miguel Domingos, em Agosto de 2018. António Joaquim da Cruz Lima, aqueceu o lugar durante pouco mais de um ano, sendo demitido em Novembro de 2019. O cargo foi depois confiado a outro Antão, Carlos Antão Fernandes Borges. Em 21 de Novembro de 2º22, já no segundo mandato de João Lourenço, Ricardo de Abreu convenceu o Titular do Poder Executivo que precisaria de um outro coadjutor para o Sector da Aviação Civil. O escolhido foi o docente universitário Emílio Vumpa André Londa. A pouco menos de 11 dias de completar um ano no lugar, Londa foi defenestrado, entrando para o seu lugar Rui Carreira.

A expectativa, agora, é saber quanto tempo o antigo piloto da Força Aérea Nacional vai resistir aos fios “descarnados” que Ricardo de Abreu coloca na trajectória dos seus secretários para a Aviação.

Com tantos secretários de Estado e responsáveis hospitalares usados como “bodes respiratórios”, o Presidente da República não deveria, ainda, variar a dieta, mandando pastar ministros e poupando a raia miúda?