RUÍDO NA AGENDA SETTING DO GOVERNO

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Na sexta-feira, 8, o Centro de Imprensa da Presidência da República noticiou um encontro do PR com membros do Executivo com “a finalidade de abordar os caminhos seguintes da relação com os Estados Unidos da América, depois do encontro na Casa Branca, há uma semana, com o Presidente Joe Biden”. 

No final da reunião, o ministro de Estado para a Esfera Económica disse à imprensa ser imperioso “saber tirar proveito deste novo momento” que se abriu nas relações entre os dois países. 

“Saber tirar proveito deste momento”, de que José Massano falou, significa criar condições institucionais e de outra natureza para que os norte-americanos não “despejem” apenas dinheiro no Corredor do Lobito, em painéis de energia fotovoltaica, de que Angola para já não precisa, ou numa distante conexão ferroviária entre Luanda e a República Democrática do Congo.

No imediato impõe-se que os governantes angolanos identifiquem outras áreas e regiões atractivas ao investimento americano na agricultura.

Trata-se de um processo que, muito provavelmente, implicará a expropriação de milhões de hectares de terras férteis, mas ociosos, cuja titularidade é reclamada por generais, ministros e outros dignitários.  

São conhecidos muitos casos de milhares de hectares de terras férteis que, ao invés de produzirem alimentos, são autênticas réplicas das bíblicas cidades de Sodoma e Gomorra. 

Nos arredores de Luanda, terras que poderiam prover a cidade de tomate, verduras, mandioca, gindungo, batata e outros alimentos foram transformadas em prostíbulos, para onde são aliciados até menores de idade. Outros tantos milhares de hectares, devidamente infraestruturados pelo Estado, foram transformados em salões de festa ou em casas de campo, para onde os novos donos do país levam semanalmente amigos para lhes mostrar o quão bem lhes corre a vida.

Restituir esses milhões de hectares férteis à esfera pública para depois serem concessionados a quem deles souber e tiver meios de rentabilizar é um colossal desafio que se coloca às autoridades angolanos. 

É que não há voltas a dar: ou o Governo devolve à esfera pública os milhões de hectares ociosos que generais e outros reclamam ou não teremos nenhum investidor americano na Agricultura para produzir os alimentos de que tanto necessitamos.  

Indissociáveis da nova era nas relações entre os Estados Unidos e Angola, muito fortalecidas com a visita do Presidente da República a Washington, quase diariamente são anunciadas novas intenções de investimento norte-americano em Angola.

Além do já referido projecto ferroviário de ligação de Luanda à República Democrática do Congo, esta semana foi assinado, com a Africa Global Logistics, um contrato de exploração do terminal polivalente do Porto do Lobito.

Com a agenda-setting do Governo focada na visita de João Lourenço aos EUA e nos seus efeitos imediatos e a curto prazo, tirar da cartola o paradeiro das ossadas de Wilson dos Santos e Tito Chingunji foi um tiro mortal na estratégia governamental de maximização dos benefícios que se esperam da nova era nas relações entre Angola e Estados Unidos.

A Comunicação Política do Governo, elaborada a seguir à visita do Presidente aos Estados Unidos da América, ganhou tracção depois do pronunciamento do embaixador de Washington em Luanda, quase uma semana depois da visita. A notícia sobre a reunião do Presidente com membros do seu Executivo não visou outro objectivo que não fosse o de manter o assunto no debate público. 

Tudo parecia obedecer aos cânones de uma bem elaborada agenda política quando, ávido de protagonismo, alguém entendeu desenterrar «as ossadas da Jamba». 

Quem quer que tenha tirado essa carta da cartola, conseguiu dois efeitos imediatos: introduziu ruído na agenda-setting do Governo, roubando-lhe a atenção da opinião pública, e demonstrou, mais uma vez, que o poder em Angola está fragmentado em ilhas descontinuadas. Ficou evidente que, dentro do Poder, o sucesso de uns incomoda outros.

De acordo com a Televisão Pública de Angola, uma “fonte que não quis ser identificada (…) revelou que as mortes de Tito Chingunji e Wilson dos Santos ocorreram em 1991 a mando do então líder da UNITA, Jonas Savimbi, e a queima das ossadas oito anos depois”.

Segundo a mesma estação televisiva, a “revelação surge na sequência das recentes buscas efectuadas pela Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), na localidade da Jamba, no quadro do processo levado a cabo pelo Executivo sob o signo abraçar. E perdoar”.

Afectada por grave amnésia, a TPA – e outros órgãos públicos – por certo que já não se lembra de haver noticiado, em Agosto passado, a ida à Jamba de uma delegação encabeçada pelo coordenador da Subcomissão de Segurança, Logística e Infra-Estruturas da CIVICOP, Fernando Garcia Miala “em busca de restos mortais de altos dirigentes da UNITA”.

Foi um exercício infantil atribuir à fontes anónimas a “revelação” de que Tito Chingunji e Wilson dos Santos foram mortos em 1991 e que se desconhece o paradeiro das respectivas ossadas.

A “notícia” sobre as mortes de Tito e Wilson introduziu um enorme ruído na agenda-setting do Governo. Em linguagem terra-a-terra, dir-se-ia que a CIVICOP deu um valente chega p´ra lá, o nosso vulgar quinhão, à agenda do Presidente da República. E o beneficiário desse ruído não é, garantidamente, ele. 

No rescaldo desse injustificado e injustificável ruído, à comunicação social pública sobrou o papel de bola de trapo, cujo controlo passa de mão em mão. 

Ao lado da comunicação social pública angolana, a Maria que vai com todos seria uma honrada senhora…

Ao ressuscitarem as mortes de Wilson dos Santos e Tito Chingunji numa altura em que o Governo se empenha em capitalizar as relações com os Estados Unidos, responsáveis da CIVICOP revelaram-se incapazes de avaliar risco reputacional e de relações públicas de um assunto que provoca mais dissensões na opinião pública do que coesão social.

A esses “experts” também passou despercebido que na tradição cristã, dominante em Angola, a época natalina é sinónima de paz e de reconciliação. Não é altura apropriada para abrir ou reabrir feridas.

As “sumidades” que se revezam na concepção da propaganda e da manipulação da comunicação do Governo têm de aprender, de uma vez por todas, que hoje a simples alusão a um político já não comove os consumidores. É o inverso. Em Comunicação Política ensina-se que a política é que tem de ser vendida como produto. 

Um assunto tão estruturante como o encontro dos Presidentes João Lourenço e Joe Biden ainda deveria continuar em “cartaz” na política presidencial.

Ora, a inoportuna introdução das «ossadas» da Jamba deitou tudo a perder. 

E desnudou o que muitos sabem: editorialmente, a comunicação social pública anda ao sabor de caprichos pessoais de muitos “chefes”, espalhados pelo SINSE, CIPRA, Secretaria do Presidente para a Imprensa, GAPI e outros. Só mesmo aos jornalistas é que não é permitido piar.