“HERMÍNIO ESCÓRCIO – UMA VIDA DE DEDICAÇÃO À POLÍTICA E AO DESPORTO”: SILVA CANDEMBO E A ALQUIMIA DA PALAVRA

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“Havia na Índia do século VI a.C. um homem rico que deparou um dia o seu ouro subitamente transformado em cinzas. Desiludido com a má sorte, deitou-se na cama e recusou qualquer alimento. Um amigo, ao saber de sua desgraça, visitou-o e deu-lhe este conselho: “Não fizeste bom uso da tua riqueza. Quando a acumulaste, não foi melhor do que cinzas. Agora presta atenção ao meu conselho. Espalha esteiras no bazar; amontoa essas cinzas e finge negociar com elas”. 

O rico fez o que o amigo lhe dissera, e quando os seus vizinhos lhe perguntaram: “Por que vendes cinzas?”, ele disse: “Ofereço os meus bens para venda”.

Depois de algum tempo, uma jovem chamada Kisa Gotami, órfã e muito pobre, passou e, vendo o rico no bazar, disse: “Meu senhor, por que amontoas ouro e prata para venda?” E o rico disse: “Por favor, entregue-me esse ouro e essa prata?” 

E Kisa Gotami pegou um punhado de cinzas, e eis que eles se transformaram novamente em ouro. Considerando que Kisa Gotami tinha o olho mental do conhecimento espiritual e via o real valor das coisas, o homem rico a deu em casamento ao seu filho, e ele disse: “Com muitos, o ouro não é melhor do que cinzas, mas com Kisa Gotami as cinzas se tornam ouro puro”.

Este início do conto O Grão de Mostarda, atribuído a Sidharta Gautama, o Buda, é aqui trazido para introduzir a obra Hermínio Escórcio – Uma Vida deDedicação à Política e ao Desporto, da autoria do insigne jornalista desportivo Silva Candembo, editada pelo clube Atlético Petróleos de Luanda (Petro Atlético).

Perguntareis: qual a pertinência do olho mental do conhecimento espiritual para esta apresentação?; qual o real valor das coisas, para além daquilo que o senso comum nos mostra?; as cinzas se tornam ouro puro, na estruturação metafórico-científica da Alquimia árabe?

As três questões são, na verdade, muito pertinentes ao livro ultra-biográfico de Hermínio Escórcio. Todos sabemos que, pela lei de conservação da massa, descrita por Lavoisier, na natureza, nada se cria, nada se perde, mas tudo se transforma. Essa lei já havia, porém, sido postulada 600 anos antes de Cristo, por Sidharta Gautama, o Buda, como Lei da Impermanência. 

O Budismo, que não é, nem nunca foi, uma religião, deixou-nos um precioso legado partilhado com egípcios e gregos (Heráclito e a parábola da água do rio), o teorema filosófico da Impermanência, cujo remanescente á a lei do eterno retorno, o escaravelho Khepri do Antigo Egipto, um deus que ressuscita o sol a cada manhã e o faz rodar no céu como se fosse puro esterco do tempo. 

No final desta apresentação retomaremos o objecto do olho mental do conhecimento.

Por ora, convém ressaltar que entre a pedra e o sonho, a vida socialmente útil do ser humano se transforma em biografia. A biografia, tal como o romance de ficção, desmitifica a morte. Tal como postulou Heráclito, não nos podemos banhar duas vezes na mesma água do rio. Mas isso não é o cerne da sua filosofia. O cerne é o leito do rio que deixamos.

As águas da vida de Hermínio Escórcio passaram. Mas ficou o leito, com as curvas e contra-curvas, a marca do seu pé a rasgar estradas na areia.

A FONTE

Na página 37, encontramos o cume do monte, ou seja, a fonte, as raízes desse rio chamado Hermínio Escórcio.

O capítulo descreve o esplendor económico e cultural do Lobito dos anos 30 e 40, marcado pela produção intensiva de sisal e pelo caminho de ferro,

O livro nos mostra como “o pequeno lugarejo ganhou, por direito de conquista, pelas suas façanhas, o estatuto de cidade poderosa, principalmente no plano económico, isto no segundo quarto do século XX. Foi essa posição que levou ao Lobito gente ida de toda a Angola e também do estrangeiro, não só para servir naconstrução do Caminho de Ferro de Benguela e do Porto do Lobito, como também para trabalhar na administração pública. Uma dessas figuras foi o senhor Ernesto Joaquim Escórcio, pai de Hermínio Escórcio, transferido de Luanda, para trabalhar na Alfândega do Porto do Lobito, cuja construção foi concluída a 31 de Janeiro de 1928”.

“No dia 1 de Junho do ano da graça de 1936, nasceu nesse torrão um menino, a quem os pais Ernesto Joaquim Escórcio e Eduarda Veríssimo da Conceição Escórcio, deram o nome de Hermínio Joaquim Escórcio.”

A urbe marginal cresceu e, nos anos 50, tinha alguns “emblemas desportivos, muitos dos quais filiais dos existentes em Portugal continental…

Foi neste ambiente que Hermínio Escórcio teve a oportunidade de jogar no Futebol Clube do Lobito no escalão de juniores.

Este livro é um documento histórico de valor apreciável. Só escreve uma peça com esta dimensão quem tem, como Kisa Gotami, o olho mental do conhecimento espiritual, quem vê o real valor das coisas, quem transforma as cinzas em ouro puro

O LEITO

O rio começa a alargar-se no seu leito inicial quando entramos no Capítulo 2 – Despertado para a consciência nacionalista, que se inicia na página 49.

Aos 16 anos  de idade, e já órfão de pai desde os cinco anos, Herminio Escórcio viu a sua mãe, Eduarda Veríssimo da Conceição Escórcio, partir para a eternidade. Dona Eduarda havia uma década fazia de pai e mãe, devido à morte do marido, e sustentou cinco filhos, com trabalhos de costura.

Como apenas 16 anos, Escórcio teve de se emancipar, e conseguiu emprego nos escritórios do Caminho de Ferro de Benguela (CFB), na cidade do Lobito.

Até à década de 1950 o Lobito era governado por um apartheid não legislado. “Não havia mistura entre raças e inclusive havia cinema para negros (o Colonial) e para brancos (o Imperium, propriedade do Lobito Sports Club).

Lê-se neste segundo capítulo que “O Lobito da década de 1950 era uma cidade vibrante, com ligações estreitas ao exterior, através do seu porto.

Como era de esperar, por mais vigilância que houvesse, chegava também alguma literatura “subversiva”, como os livros sobre luta anti-colonial, liberdade, dignidade humana e afins, assim classificados pelas autoridades coloniais portuguesas. Alguns desses livros eram do celebrado escritor brasileiro Jorge Amado  Seara Vermelha (1946) e Os Subterrâneos da Liberdade (1954) são títulos que à época fizeram história.

Outras circunstâncias contribuíram igualmente, de forma decisiva, para o processo de cristalização da consciência nacionalista do jovem Hermínio Escórcio. Sensivelmente em meados da década de 1950 chegou à cidade do Lobito Viriato da Cruz, o qual em 1948, havia dado o mote para o Movimento dos Novos Intelectuaisde Angola (MNIA) “Vamos Descobrir Angola”, em parceria de Agostinho Neto, António Jacinto e Mário António, entre outros. 

Também teve passagem pelo Lobito Amílcar Cabral. Hermínio Escórcio bebeu algumas ideias que lhe chegavam por forma interposta de Amílcar Cabral. Tudo isso, juntado às reuniões clandestinas que ia tendo nas vezes em que se deslocava a Luanda de férias, fez com que o jovem lobitanga estivesse preparado para entrar na luta contra a ocupação colonial portuguesa.

Aos 21 anos de idade, Hermínio Escórcio partiu para Luanda, onde integrou os quadros dos Serviços de Meteorologia de Angola. Em Luanda decidiu continuar a carreira futebolística no Sporting Clube de Luanda, também por razões estratégicas, pois o Sporting era um “clube do sistema”, não concitando suspeições de “figura subversiva” para si.

A página 69 dá de caras com o Capítulo 3 e com o Clube Atlético de Luanda.

Na capital, Escórcio passou a lidar com mais frequência com pessoas já integradas na luta de  libertação nacional, inclusive da direcção do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

Após o regresso de Agostinho Neto a Angola, este encontrou-se em ocasiões diversas com Hermínio Escórcio no seu consultório médico, na Rua da Brigada.

Porém, para a PIDE estava mais do que claro que os “bate-papos” entre ambos e outros nativos que demandavam o consultório tinham um propósito: “dividir” Portugal, retirando-lhe Angola.

A 14 de Junho de 1963, foi detido por agentes da PIDE para averiguações, num processo que envolveu outros 17 nacionalistas.

A título de curiosidade e registo histórico, “a quase interminável lista de crimes de que Hermínio Escórcio ia acusado indicava que ele “propôs-se fazer um atentado contra a vida do Presidente da República Portuguesa, lançando granadas no dia da sua chegada a Luanda, a fim de provocar uma forte reacção das Forças Armadas contra a população, propícia para o desenvolvimento emocional no espírito dos nativos das ideias subversivas defendidas pelo MPLA”. E que “desistiu de pôr emprática a sua ideia apenas porque não lhe foi possível arranjar as granadas e porque o Comité director não lhe deu a sua concordância, por recear as consequências trágicas que do acto poderiam advir”.

Foi condenado a 5 anos e 6 meses de prisão maior, com 15 anos de suspensão de direitos políticos, acrescidos de medidas de segurança por um período de 1 a 3 anos.

Na cadeia HE pôde conviver com a malta do Clube Atlético de Luanda. De modo que, após sair em liberdade condicional da cadeia, Hermínio Escórcio também deu uma mão no Atlético, em 1970, ajudando a reerguer o clube dos escombros.

Como era óbvio, a PIDE estava de olho nas actividades desenvolvidas no clube, nas feiras, nas verbenas… Por isso, pouco tempo depois voltou à cadeia, desterrado no distrito de Moçâmedes por se tratar de um indivíduo com o rótulo de “altamente perigoso”. O calendário assinalava o ano de 1970 a escassos 60quilómetros da Baía dos Tigres, “um lugar onde não havia remissão de pecados”.

O Capítulo 4 – Na SONANGOL para a “obra” que se impunha, com início na página 97, refere a mudança ocorrida em Luanda, com a detenção e posterior desterro de Agostinho Neto. Hermínio Escórcio passou a contactar directamente com Lúcio Lara e Aníbal de Melo, duas figuras do alto escalão da hierarquia do MPLA, em Kinshasa. O contacto era quase regular e feito por carta, tendo por “pombo-correio” um indivíduo branco, metropolitano, curiosamente monarquista e filho de um escrivão de Direito em Luanda, José Manuel Gonçalves, reputado escritor e economista nos dias de hoje (Jonuel Gonçalves) e que, à época, ia várias vezes a Kinshasa a pretexto de ir visitar um irmão, proprietário de uma panificadora na capital do então Zaíre. Foi por via desses contactos com a Direcção do Movimento que outras pessoas conseguiram juntar-se à resistência no exterior do território, atravessando a fronteira.

Em 1974, na sequência da Revolução dos Cravos, Hermínio Escórcio é finalmente solto.

Assim, pode assistir ao Congresso do MPLA, em Agosto de 1974, em Lusaka, Zâmbia, bem como esteve na Conferência Inter-regional de Militantes, ocorrida nas matas de Lundoji, distrito do Moxico, de 12 a 20 de Setembro de 1974, durante a qual foi eleito membro do Comité Central (CC) do MPLA.

Também integrou a delegação do MPLA que em Lwnyameji, distrito do Moxico, assinou, a 21 de Outubro de 1974, o acordo de cessar-fogo com as autoridades portuguesas, o que permitiu a deslocação à capital de Angola de parte da Direcção do Movimento no exterior. 

Foi ele que preparou a recepção de alguns membros da Direcção e dos quadros que iriam chegar a Luanda, chefiados por Lúcio Lara, em 1975.

Os trabalhos de Hermínio Escórcio, em Luanda, saldaram-se no aluguer do antigo colégio de freiras na Vila Alice, o emblemático edifício n.º 100 da Rua da Liberdade, e do prédio onde funcionou o Departamento de Organização e Mobilização (DOM) regional, na Dona Amália. 

Em tudo isso estavam as impressões digitais de Hermínio Escórcio que funcionava como uma espécie de “ministro sem pasta”. 

Foi também pela sua mão que surgiu a nova sede do MPLA, nas proximidades do edifício-sede dos Serviços de Geologia e Minas.

No quadro da confiança que despertou, fez as démarches para que Agostinho Neto pudesse levar vários convidados ao palácio do governo, na Colina de São José, na noite do 11 de Novembro de 1975.

Em Junho de 1979, o ministro dos Petróleos indicou Hermínio Escórcio como director-geral da SONANGOL.

Passamos agora ao esforço para a formação do Petro-Atlético, a partir do Capítulo 5 – Petro: Um sonho tornado realidade, da página 125 em diante.

Às rédeas da petrolífera, HE pôde dar asas ao sonho de tornar o desporto mais inclusivo.

Uma semana a seguir a sua indicação para a Direcção da SONANGOL, Hermínio Escórcio começou a fazer os contactos para concretizar a sua pretensão: “Por tudo o que o clube fez durante a Luta de Libertação, entendemos ser de justiça que, se alguma colectividade devesse merecer a primazia de associação com a SONANGOL, este deverá ser o Atlético”.

No dia 5 de Janeiro de 1980, associados da colectividade reuniram-se em assembleia geral convocada pelo presidente da mesa, Dr. Diógenes Boavida, com ponto único: Discussão e decisão sobre a filiação do clube à SONANGOL e consequente alteração do nome.

O novo projecto passou pela fusão do Clube Atlético de Luanda e do Benfica de Luanda. Nascia assim o Petro-Atlético de Luanda, onde a maioria era proveniente do Atlético.

O Capítulo 6 – Muito à frente dos padrões de Angola, com início na página 153, mostra-nos como “Hermínio Escórcio pensava fora da caixa. Do mesmo modo que queria do melhor para a SONANGOL, também queria o melhor para o Petro-Atlético de Luanda”.

Depois de uma experiência com o futebol do campo socialista, nomeadamente a Jugoslávia e a Bulgária (na época em que o fino nos bares de Luanda ficou famoso pelo volumétrico “búlgaro” de cerveja, o frasco onde vinha uma espécie de cereja da Bulgária), o Petro-Atlético de Luanda contrata António José Clemente, que representou “uma lufada de ar fresco no futebol angolano, trazendo a experiência única do país mais avançado em matéria de futebol”.

Clemente trouxe “um conjunto de novidades que resultaram num enorme salto qualitativo no futebol da equipa do Petro-Atlético de Luanda”.

Fruto desse investimento, o Petro-Atlético de Luanda ganhou o “Provincial” de Luanda, superando o super favorito Progresso do Sambizanga. Acto contínuo, durante a prova de apuramento, a equipa do Petro-Atlético de Luanda qualificou-se para a elite nacional do futebol, estreando-se na I Divisão em 1981. Não tardou, no “Girabola’82” conquistou o título nacional, destronando o poderoso 1.º de Agosto.

Mas o grande sonho de Hermínio Escórcio era tornar o Petro-Atlético de Luanda, no maior de Angola e num dos maiores de África. “Em 1983, o Petro-Atlético de Luanda acabou conhecido em toda a África do futebol, depois de “estremecer” o grande Canon de Yaoundé, dos Camarões, na Taça dos Clubes Campeões Africanos.

O Petro Atléctico, sob a direcção de HE obteve êxitos noutras modalidades desportivas. Foi assim que em 2006, quando menos se esperava, em Lagos, Nigéria, nasceu um novo campeão africano de basquetebol masculino, o Petro-Atlético de Luanda.

E navegamos já perto foz do caudaloso rio que é a vida e a obra de Hermínio Escórcio, entrando para o Capítulo 7 – Conferindo grandeza ao futebol nacional, que inicia na página 175.

O pretexto foi o 10.º aniversário da SONANGOL, que teve o condão de reciclar as relações entre Angola e Portugal.

Este torneio contou com as renomadas equipas do FC Porto e do SL Benfica, de Lisboa, e do Vasco da Gama, do Brasil. Realizado em vésperas da saída, em 1987, de Hermínio Escórcio toda SONANGOL, exigiu trabalhos de salvação da “Cidadela.

Os supersticiosos poderão alegar que o Petro-Atlético de Luanda trabalhou com feitiço, ao bater por 2-0 o FC Porto, com golos de Antoninho e Abel Campos e ter ganho ao histórico Benfica de Lisboa no desempate através de pontapés da marca da grande penalidade, deixando em casa o Troféu SONANGOL.

A FOZ

Já se vislumbra o Atlântico, onde as águas se tornam salobras, onde as águas se misturam, com a suave agitação do Capítulo 8 – E o sonho ganhou asas, na página 207.

O Petro-Atlético de Luanda tornou-se famoso nos círculos da comunicação Social, com a introdução do “futebol-samba”. “De 1986 a 1990, o Petro-Atlético de Luanda conquistou um inédito “penta”, com Hermínio Escórcio sempre à frente da Mesa daAssembleia Geral, que levaria à criação por Rui Óscar de Carvalho, do Hino do Petro-Atlético de Luanda, hino esse musicado por Dionísio Rocha, e que tem como mote “Na Hora da Verdade Ninguém Segura o Petro”.

Podemos ler neste último capítulo que “Hermínio Escórcio foi peça fundamental para manter a coletividade entre as principais referências do desporto nacional, para sustentar a aura vencedora do emblema da Estrada de Catete / EixoViário”.

O MAR

Ultrapassada a foz do rio biográfico chamado Hermínio Escórcio, entramos no grande mar, que somos nós, leitores. Vamos retomar a promessa que fizemos no início desta apresentação da obra de Silva Candembo. Voltamos à figura de Kisa Gotami.

Este livro é um documento histórico de valor apreciável. Só escreve uma peça com esta dimensão quem tem, como Kisa Gotami, o olho mental do conhecimento espiritual, quem vê o real valor das coisas, quem transforma as cinzas em ouro puro”. Só os bons jornalistas como Silva Candembo conseguem esta proeza.

Silva Candembo pegou no punhado de cinzas do komba de HE e transformou-as em ouro do conhecimento. 

Silva Candembo mostra-nos nesta obra como é que se molda e se aparafusam as peças de uma biografia. É como construir um motor. Há motores de motocicletas, motores de automóveis e motores Rolls Royce dos potentes Boeings. Fabricar um destes últimos exige uma tecnologia avançada, uma equipa de especialistas e investimento financeiro. Silva Kandembo apresenta-nos hoje um motor biográfico de alta tecnologia. 

Nenhum livro, seja ele de ficção, de narrativa histórico-bibliográfica, ou de conteúdo científico, nenhuma obra é escrita, impressa e vendida por mero capricho de dar à estampa um discurso somente para ser lido, ou mesmo para ter na estante. Um livro, qualquer livro, tem uma função social, uma função didáctica: ensina ao leitor qualquer coisa sobre e para a vida. Este livro sobre Hermínio Escórcio não foge à regra dos chamados mestres-mudos.

Há neste livro registos muito importantes, subsídios valiosos para a História de Angola. Um destes subsídios aponta para o domínio das relações internacionais. E os protagonistas são Angola e o Brasil, nos anos 80. É importante aqui ressaltar o facto de Lopo do Nascimento ter divulgado um ensaio de sua autoria sobre este relacionamento bilateral que já vem dos tempos da Administração Portuguesa em Angola. A irmandade entre o Brasil e Angola também tem genes sul-atlânticos: o caminho marítimo entre Luanda e o Rio de Janeiro é mais recto e menos demorado do que o que liga Luanda a Lisboa. Por outro lado, o facto de o Brasil ter sido o segundo país do planeta a reconhecer a República Popular de Angola (o primeiro foi o Congo-Brazzaville) conferiu-lhe preponderância na continuidade dessas relações. Daí que, no compósito estruturante da geo-política reinante na época, marcada pela chamada Cortina de Ferro, Hermínio Escórcio pensou bem e melhor fez acontecer o contributo do progresso desportivo sobre o nosso futebol, com a contratação de António Clemente. Mas, o que este parêntesis quer realçar são as impressões digitais da irmandade entre Angola e o Brasil. A cooperação com o Brasil na área do entretenimento, tendo a SONANGOL como ponta de lança, também aconteceu com a importação das célebres telenovelas, Gabriela Cravo e Canela, Roque Santeiro e O Bem Amado, bem como a série Os Trapalhões onde pontificavam Didi Mocó e o incontornável melanodérmico Mussum. 

Como todos sabemos, ficaram gravados na toponímia da cidade lugares emblemáticos, como o mercadinho dos Trapalhões na Ilha de Luanda, o imponente mercado do Roque Santeiro, no Sambizanga (que já foi demolido, mas cuja memória ainda lá o localiza). Agora que se está a apostar seriamente no Turismo, com a fusão dos ministérios da Cultura e deste último, talvez seria óptima ideia marcar os espaços com os nomes resultantes da irmandade Brasil-Angola. 

Mas, diga-se de passagem, tudo isso é fruto da visão universalista e progressista de Hermínio Escórcio, pois foi o dinheiro da SONANGOL que pagou também as novelas. Afinal, estes nomes marcaram uma época histórica da Angola independente, uma época em que a guerra era a tónica principal e não é apenas para honrar a memória do nacionalista cuja biografia hoje aqui se lança, é sobretudo para que esse período da nossa História fique registado não só pela atroz mordida da guerra, mas também pelo suave lenitivo que essa cooperação deixou marcado nas nossas memórias de angolanos.

E se Hermínio Escórcio tivesse sido indigitado para ministro da Educação, em vez de director da SONANGOL? Poderíamos, talvez, ter hoje um moderno sistema de Ensino, à imagem do Petro e da SONANGOL? São conjecturas, apenas. Mas uma coisa é certa e é conclusiva da leitura deste livro: não há progresso em nenhum sector da vida de um país, sem investimento sério nem dedicação extrema. O Petro só foi e é o que é hoje graças aos petrodólares da SONANGOL e à paixão de HE por Angola, uma paixão centrada na excelência, na visão de uma Angola progressista.

Como referimos, nenhum livro se produz para amparar a perna de uma mesa torta, mas sim para cumprir a sua função social relevante que é ensinar caminhos aos leitores. E extraímos desta obra Hermínio Escórcio, uma vida de dedicação à política e ao desporto, duas lições fundamentais.

Lição nº 1 para o dia de hoje: na página 56 desta obra, podemos ler que “Na verdade, à época, praticamente na primeira metade da década de 1950, provavelmente os termos mais apropriados para as aspirações dos nativos seriam emancipação e justiça social, algo que faltava grandemente”.

Na página 125, lemos que “Enquanto experimentava as agruras das masmorras da Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a famigerada e temida PIDE, acalentava o sonho de um país melhor para todos, sem segregação racial, seminjustiça social, sem miséria. Esse sonho casava bem com a opção de desenvolvimento socialista de Angola, cujo propósito era construir uma sociedade mais justa que a colonial”.

Portanto, a solidariedade que impulsionou os nacionalistas da craveira de Hermínio Escórcio para uma luta sem tréguas contra o colonialismo não foi auto-direccionada, como o pronome pessoal reflexo que se volta para si mesmo. Não tinha como objectivo alcançar benefícios individuais. Os benefícios estavam pensados para o bem-estar social, económico, cultural e político dos outros, da maioria. A grande lição que este livro nos transmite é que, a partir de biografias como a de Hermínio Escórcio, se pode e deve reacender a essência da solidariedade e extravasa o mero “amor à camisola”. Só assim se poderá “construir uma sociedade mais justa que a colonial”.

Lição nº 2 para o dia de hoje, uma lição essencialmente histórica e de carácter sociológico: as sociedades humanas, seja qual for a latitude ou o regime político vigente, da República Popular da China aos Estados Unidos da América, progridem segundo a lei da luta dos contrários, que diz que toda e qualquer discriminação gera os anti-corpos da revolta. Foi essa lei que gerou em Hermínio Escórcio o vírus do reviralho.

Esta lição se compagina com a proposta do filósofo Jürgen Habermas de uma “dialética da racionalidade comunicativa”, que busca superar as contradições e alcançar um consenso por meio do diálogo e da argumentação racional. Ele argumenta que a comunicação é fundamental para a construção de uma sociedade democrática e justa.

Quem tiver ouvidos para ler que peneire estas pepitas de oiro rolantes sob as águas deste rio (ou livro), na alquimia verbal de Silva Candembo.