A cidade de Benguela, em particular, e de um modo geral a província, correm o risco de perder peças importantes do seu património arquitectónico, quando daqui a uns meses iniciar uma onda de demolições de edifícios públicos degradados. As demolições foram recentemente anunciadas pelo Gabinete de Infra-estruturas e Serviços técnicos do Governo da Província (GPB), tendo por objectivo lavar a cara da urbe. Nessa perspectiva, serão também reabilitados alguns imóveis que mereçam isso mesmo.

Neste momento decorre para o efeito um inventário de imóveis degradados para depois, em função da classificação que obtiverem, serem derrubados ou recuperados. Mais de uma centena de edifícios públicos já foram arrolados, sendo que alguns esperam pela acção demolidora do camartelo. Os 10 municípios da província já apresentaram o que as autoridades provinciais benguelenses dizem ser “edifícios em avançado estado de degradação”.

A identificação dos imóveis foi feita por um grupo criado a propósito. Integram o corpo de trabalho técnicos ligados ao Laboratório de Engenharia de Angola, assim como representantes dos Bombeiros, da Ordem de Engenheiros, do Gabinete de Infra-estruturas do GPB e de associações sócio-profissionais.

Estranhamente, não há nessa equipa de trabalho  qualquer representante do ministério ou da delegação provincial da Cultura. É que, tratando-se de edifícios em avançado estado de degradação, parte-se do princípio que a maior parte seja antiga. Logo, é muito possível que entre os edifícios arrolados hajam preciosidades arquitectónicas que, mesmo velhas, sejam verdadeiros tesouros culturais, sejam parte da história da vetusta cidade e da província.

Na proposta composição dessa comissão de trabalho não há um único especialista   em condições de  avaliar um património histórico-cultural porque não tem formação para o efeito. Esta seria uma tarefa para quadros especializados do Ministério da Cultura ou da sua delegação na província. 

Em face da ausência de elementos da Cultura do grupo criado pelo GPB para ditar a “pena capital” a alguns imóveis, é bem provável que na ânsia de lavar a cara da cidade parte da história seja derrubada. Afinal, fundada em A 17 de maio de 1617, Manuel Cerveira Pereira – foi governador de Angola entre 1615 e 1617 –, Benguela é a segunda cidade mais antiga do país. Por isso, há larguíssimas possibilidades de haver património histórico-cultural em risco, o qual só pode ser detectado por olhos altamente especializados. Benguela corre, pois, o risco de imitar Luanda, que se desfez de parte importante do seu património arquitectónico, um dos quais o palácio Dona Ana Joaquina, derrubado há exactos 20 anos para no local erguer-se uma cópia do vetusto edifício. A imitação serve agora de tribunal Provincial de Luanda.