FAF usa “método terrorista” para desfazer-se do seleccionador nacional

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O seleccionador nacional de futebol, Srdan Vasiljevic, partiu quarta-feira passada, 21, para o seu país, praticamente expulso pela direcção da Federação Angolana de Futebol (FAF).

É verdade que a entidade máxima do futebol nacional não tem competência legal para pôr a marchar qualquer cidadão estrangeiro, mas no caso do técnico sérvio a instituição usou de “método terrorista” para assustá-lo e pô-lo a andar o quanto antes, uma vez que estava a ser já um verdadeiro “incómodo” para os dirigentes daquele organismo.

Ao que Correio Angolense apurou, o plano terá sido devidamente arquitectado, com requintes de crueldade, por dois dirigentes, designadamente o presidente Artur Almeida e Silva e o seu “vice” Adão Costa, que conformam a direcção da FAF, onde outros quatros “vices” bateram com a porta por discordar da forma como o “número 2” comandava os destinos da Federação. Como durante todo o tempo em que serviu a Selecção Nacional Srdan Vasiljevic só via os seus salários pagos quando reclamava na comunicação social, os dirigentes da FAF decidiram agir como sempre: ou seja, atrasar propositadamente o pagamento do ordenado durante meses para pôr em marcha o seu tenebroso plano.

Ao fazê-lo, a direção da FAF já sabia que, mais tarde ou mais cedo, o técnico sérvio iria meter a boca no trombone, como sói dizer-se. Só que, contrariamente ao que tem sido comum, dessa vez não o fez, o que por alguns momentos perigou o plano previamente delineado pela dupla que manda no futebol angolano. Não tendo o treinador mordido o isco, mesmo com meses de salários e prémios em atraso, escancarou-se, entretanto, outra oportunidade, de ouro, para que o plano fosse adiante.

Trata-se da reclamação dos prémios referente à qualificação para o CAN do Egipto feita por jogadores, largamente noticiada na comunicação social e absurdamente amplificada nas redes sociais. Escancarada que estava a porta, o plano seguiu e, vai daí, a “Sociedade Artur&Adão (A&A)” desferir o golpe de misericórdia. Mesmo Srdan Vasiljevic não tendo reclamado prémios ou ordenados, a direção da FAF entendeu reagir à onda de críticas de que estava a ser alvo não apenas dizendo que havia pago tudo o que devia, como também fez questão de exibir publicamente os comprovativos – há quem duvide da sua autenticidade –, que “viralizaram” nas redes sociais. Todo o Mundo ficou a saber quanto e em que conta bancária o treinador principal, os adjuntos e os jogadores teriam recebido os pagamentos, numa clara devassa à privacidade do homem que comandava as “Palancas Negras”, dos seus colegas da comissão técnica e de jogadores.

Sendo do domínio público que havia supostamente recebido largas dezenas de milhares de dólares, Srdan Vasiljevic estava exposto e vulnerável, pois podia ser vítima de um assalto ou um sequestro, com exigência de valor para resgate e tudo… Afinal, em Angola a delinquência campeia de forma assustadoramente gratuita. Para compor o cenário, o treinador recebeu uma vez por outra “relatos inocentes” de como havia morrido um outro técnico da antiga Jugoslávia em Angola, no caso o croata Gojko Zek, do Petro-Atlético de Luanda, que foi assassinado a 3 de Novembro de 1995 no seu apartamento numa das torres da Cidadela Desportiva por criminosos que “procuravam”… dinheiro.

Tudo isso conjugado, levou o técnico contratado em Dezembro de 2017 a “rescindir amigavelmente”, conforme refere o comunicado da FAF, de 16 de Agosto, que dá conta da saída do treinador. Tomado pelo temor de um assalto ou assassinato, foi fácil calçar os patins e partir em fuga precipitada. Ao que o Correio Angolense sabe, era desejo de Srdan Vasiljevic continuar à frente da Selecção Nacional de Angola até Dezembro e renovar o contrato, nesta que foi a sua primeira experiência em África.        


Srdan Vasiljevic apunhalado pelas costas

De acordo com fonte do Correio Angolense, a defenestração do técnico sérvio terá sido uma vingança de “Sociedade A&A” por alegado comportamento desrespeitoso do treinador em relação à dupla. O “desrespeito” foi a recusa em dirigir a Selecção Nacional na recente eliminatória do CHAN. Srdan Vasiljevic só se recusou a dirigir as “Palancas Negras” quando soube que não iria jogar com os atletas que ele próprio havia escolhido, mas com outros indicados pela direção da FAF. É que, apesar de a Lei estar a seu favor, a entidade máxima do futebol angolano não conseguiu que 1.º de Agosto e Petro-Atlético de Luanda cedessem os seus jogadores para a eliminatória em referência.

Essa recusa foi a gota que fez transbordar o copo. Foi a partir daí que se intensificaram as movimentações para que Srdan Vasiljevic fosse despedido. No seu lugar, como previu há quase três semanas o Correio Angolense, foi colocado o português Pedro Gonçalves, igualmente selecionador de Sub-17.

Vasiljevic contra-ataca

Srdan Vasiljevic saiu de Angola assustadíssimo e temendo pela vida, depois que a sua privacidade financeira foi despropositadamente exposta pela direção da FAF, na suposta tentativa de provar à sociedade desportiva e não só que as suas obrigações para com técnicos e jogadores estavam honradas.

De acordo com que disse ao Correio Angolense fonte da FAF, o técnico pondera processar judicialmente a federação por esta o haver exposto e colocado em risco a sua vida, num país como Angola, onde os índices de violência são assustadores e a Justiça funciona de forma deficiente.

Fazendo fé na nossa fonte, além de accionar um processo nos tribunais angolanos por “exposição perigosa”, Srdan Vasiljevic está a ponderar também a possibilidade de avançar com uma queixa na FIFA, devido a pressão de que foi alvo e aos constantes atrasos no pagamento de salários.

“Há serviços que se não forem pagos em tempo útil são alvo de multas. Falo por exemplo das propinas escolares. Se ficas três meses sem pagar, já sabes que quando o fizeres terás uma multa. Em razão dos sucessivos atrasos nos pagamentos de vários serviços, o treinador teve de pagar muitas multas e, por isso, pretende reaver o dinheiro perdido por culpa da FAF, que nunca pagou em tempo útil”, explicou a nossa fonte.

Contratado em Dezembro de 2017, Srdan Vasiljevic, de 46 anos de iodade, tinha vínculo com a FAF até Dezembro deste ano. Contudo, acabou afastado da Selecção AA a 15 de Agosto passado, na sequência de sérios desentendimentos com a dupla que dirige a FAF, designadamente o presidente Artur Almeida e Silva e o seu “vice” Adão Costa. Ao que tudo indica, a procissão só vai ainda no adro. Isto quer dizer que muita água ainda há de correr por debaixo dessa ponte.