PR perante um grave dilema

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No dia 15 de Outubro, por ocasião da sua segunda mensagem  à Nação, o Presidente da República anunciou, triunfalmente, que o troço da estrada nacional 100, que liga Cabo-Ledo a Lobito, já estava completamente reabilitado. O mesmo se teria passado com o troço que liga Lucala, Malange e Saurimo. 

Nos dois casos verificou-se que o Presidente da República foi enganado.

Imagens que circularam nas redes sociais mostraram que o troço Malange/Saurimo continua a ser uma verdadeira dor de cabeça para os automobilistas. O mesmo se passando com o troço Sumbe/Lobito.

Há uma semana, a rádio MFM fez deslocar, por estrada, uma equipa de reportagem para aferir a triunfante afirmação de João Lourenço segundo a qual o troço Cabo-Ledo/Lobito estava plenamente reabilitado.

Três dias depois, a Rádio Nacional de Angola ouviu vários camionistas que fazem o trajecto Benguela/Luanda, transportando sobretudo horto-frutícolas, e todos foram  unânimes em que continua a ser um martírio para eles e seus camiões a circulação por essa via.  O que a rádio MFM foi reportando ao longo do percurso e o que a RNA ouviu dos camionistas  leva à inevitável conclusão de que ou o Presidente da República contornou a verdade para “engordar” os feitos do seu executivo ou ele foi aldrabado pelo seu amigo e afilhado de casamento Manuel Tavares de Almeida.

Aliás, o próprio mitómano – que é nisso é que se transformou o ministro da  Construção e Obras Públicas – acabou por admitir, no  dia 21 de Novembro, no Sumbe, que a EN 100 não está completamente asfaltada.

Falando a jornalistas um  dia antes da deslocação do PR a Sumbe, o ministro reconheceu que estão por concluir 18 quilómetros “e mais outros troços” naquela via. 

“Neste momento, devido à escassez de recursos, estamos a tentar concluir, o mais rápido possível, a asfaltagem daqueles troços que não estão asfaltados ainda”, mas sublinhou que “falta pouca coisa”.

Manuel Tavares de Almeida, o "nosso" mitómano
Manuel Tavares de Almeida, o “nosso” mitómano

Manuel Tavares de Almeida não estabeleceu um horizonte temporal para a plena reabilitação da EN 100, mas o engenheiro António Venâncio, que assessorou a MFM nessa sua deslocação a Benguela não acredita que a empreitada seja concluída  em menos de 12 meses.

A “reviravolta” feita pelo ministro da Construção e Obras Públicas coloca os cidadãos perante o grave dilema de decidir se acredita no Presidente da República, que anunciou plena reabilitação do troço Cabo-Ledo/Lobito, ou se em Manuel Tavares de Almeida, que afirma que estão por concluir 18 kilómetros “mais outros troços”.

O próprio Presidente da República está também perante um outro dilema: ou castiga o ministro/afilhado por lhe haver mentido – e nesse caso o castigo só pode traduzir-se na sua pura e imediata demissão – ou castiga as duas rádios, que reportaram uma realidade contrária àquela que ele anunciou ao país. Se é verdade que no caso da RNA isso seria “canja”, já no que diz respeito à MFM, João Lourenço teria que suar às estopinhas.

A verdade é que começa a ser preocupante a frequência com que o Presidente da República é “enrolado” pelos seus coadjuvantes. É que se João  Lourenço não reprimir severamente aqueles que lhe mentem ele próprio arrisca-se a ser tomado também como pessoa pouco séria.