Milucha e as aparências

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Quando está diante de microfones, sejam eles de rádio ou de televisão, ou quando tem oportunidade de debitar opinião em publicações imprensas, a jurista Maria Luísa Abrantes (Milucha) comporta-se como um poço de virtudes, o modelo de cidadã que cumpre à risca os seus deveres e não abdica de nenhum dos seus direitos.
No uso do seu direito de expressa, por exemplo, Milucha não tem parcimónia: diz o que deve – e não deveria. Quando se refere ao longevo consulado de José Eduardo dos Santos, de que foi concubina, Milucha quase reduz o antigo Presidente da República a um pobre desgraçado cujo mandato foi conspurcado por “abutres”, irmanados numa gangue a que chama de “Donos de Tudo Isso”, uma expressão que toma de empréstimo do jornalismo luso. Nessa confraria ela costuma destacar nomes como os de Manuel Vicente, Kopelipa, Dino Fragoso, Edeltrudes Costa e Fernando Garcia Miala.
Quando olha para João Lourenço, Milucha enxerga um Presidente incapaz de levar a bom porto a cruzada contra a corrupção por ter por perto má companhia. Ela olha para Edeltrudes Costa, director do gabinete do Presidente da República, como a prova de que a luta contra a contra a corrupção está fadada ao fiasco.
No mais recente debate promovido pela TV Zimbo viu-se a mesma Milucha de sempre: uma mulher sem tento na língua, que atira indiscriminadamente para a direita e para a esquerda.
O telespectador que seguiu o debate viu uma mulher que interrompe a palavra e o raciocínio alheios sem cerimónia, uma mulher que olha para o seu nariz e gosta do que os olhos lhe dizem, enfim, terá pensado o aturdido telespectador, uma mulher de conduta cívica irrepreensível.
Mas, por detrás daquela pessoa que dispara inclementemente contra tudo e todos está uma empresária pouco dada a pagar as suas contas.
Alertados por vizinhos, há poucos dias técnicos da ENDE deslocaram-se ao Colégio Inglês, ao Nova Vida, para verificar se procediam as denúncias segundo as quais aquele estabelecimento de ensino estaria a usufruir de energia pública sem qualquer custo No local, os técnicos seguiram as “pegadas” dos cabos e descobriram que havia, de facto, um “by pass” entre a escola e um PT (Posto de Transformação) da ENDE. Por causa do “gato”, a Escola Inglesa, propriedade de Maria Luísa Abrantes, consumia energia pública gratuitamente.
Confrontada com a irregularidade, Milucha não reagiu com a humildade própria de pessoas que admitem falhas e erros. Pelo contrário, saiu do seu gabinete aos gritos, vilipendiando quem só estava a cumprir o seu dever.
“Vocês vão ver; este assunto vai chegar ao Camarada Presidente”, vociferou várias vezes.
Na azáfama que então se gerou, com o afluxo de vizinhos e até de transeuntes, os técnicos da ENDE não foram a tempo de perceber se o “Camarada Presidente”, farta e despropositadamente invocado pela embaraçada Milucha, era aplicável ao seu ex, José Eduardo dos Santos, ou se ao Presidente João Lourenço, a respeito de quem ela não tem opinião muito lisonjeira em matéria de combate à corrupção.
Facto, facto, é que quer aos servidores da ENDE quanto aos vizinhos e transeuntes circunstanciais ocorreu instantânea e simultaneamente a máxima segundo a qual as aparências iludem.
Afinal, a “impoluta” Milucha não é melhor que ninguém. Como muitos cidadãos, ela também não dispensa oportunidade de se furtar ao pagamento de algumas contas.

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