(Uma pincelada aos vencedores e vencidos)

Não há dúvida que vivemos tempos diferentes. Tempos marcados por grave crise económica e social; tempos de dúvidas e de incertezas. Mas também tempos de menor fulgor e agressividade jornalísticos.

Situação impensável há pouco mais de 12 anos, nenhum órgão de comunicação social foi capaz de noticiar antecipadamente a reforma ministerial feita pelo Presidente João Lourenço na tarde de segunda-feira.

Há pouco mais de 12 anos, quando publicações como Semanário Angolense, Agora ou A Capital disputavam ao milímetro as preferências do público, mexidas da envergadura daquela efectuada pelo PR na segunda-feira teriam sido “estampadas” com largos dias de antecedência. Com muitos detalhes, antes de irem à mesa do Presidente José Eduardo dos Santos para a competente assinatura e validação, as remodelações ministeriais eram abundantemente dissecadas nas páginas de jornais. 

Não por acaso, os jornais privados funcionaram como barómetro dos ministros que tinham chão ou já o tinham perdido no Governo.

O “novo paradigma”, como agora se usa dizer, alterou tudo. Os jornais perderam capacidade de penetração no “bunker” presidencial.  Por incapacidade própria ou porque o novo inquilino do palácio da colina de São José bloqueou todos os buracos a partir dos quais informações confidenciais chegavam a algumas redacções. Nos dias que correm, os jornais não só se mostram incapazes de se antecipar às jogadas do Presidente da República como também não lhes alcançam os propósitos. 

Mas, pelos vistos, neste “novo paradigma” não são apenas os jornalistas que estão a ver “lulas”.  Até mesmo colaboradores muito chegados ao Presidente da República têm sido apanhados com as calças nas mãos.

Correio Angolense sabe, por exemplo, que na sexta-feira passada, quando se deslocou a Benguela, a Frederico Cardoso não ocorreu, nem de longe, que aquela seria a sua última visita nas vestes de Chefe da Casa Civil. 

Outro que não se apercebeu de qualquer “movimentação estranha” foi o ex-ministro das Relações Exteriores. Segunda-feira, 6, Manuel Augusto estava a meio de uma reunião quando recebeu a informação de que a ministra de Estado para a Esfera Social queria vê-lo urgentemente. No gabinete de Carolina Cerqueira, Manuel Augusto por muito pouco não foi desta para pior quando a anfitriã, no cumprimento de instruções superiores, lhe exibiu a “certidão de óbito”, isto é, o decreto em que o Presidente da República prescindia dos seus serviços como chefe da diplomacia angolana. 

Com todos os seus indefinidos contornos, da reforma ministerial emergiram vencedores e vencidos 

Entre os vencedores situa-se claramente o próprio reformador. Com as decisões tomadas segunda-feira, João Lourenço ganhou tempo e, mais do que isso, avisou a todos que não é refém de ninguém. Neste momento só duas coisas o apoquentam: o Covid-19 e o petróleo. 

Outro vencedor é Edeltrudes Costa. Há três semanas, o anúncio de uma reportagem da portuguesa TVI quase o colocou nos perdidos. Mas, sorte dele, o corona vírus acabaria por golpear a própria estação televisiva, o que deu ao director do gabinete do Presidente da República um novo fôlego. Na reforma ministerial de segunda-feira ficou entre os confirmados. 

Quem também canta de galo é Adão de Almeida.  A sua promoção a ministro de Estado e chefe da Casa Civil vai dar pernas às conjecturas que se fazem a respeito. Parece predestinado!

Manuel Nunes Jr, outro vencedor, ninguém cobrou a promessa que fez em Dezembro de 2019 segundo a qual a economia iria crescer 3% em 2020. Nesse entretanto “entregou” dois ministros do Planeamento; sobreviveu à crise que ele próprio desenhou com as suas teorias; sobreviveu à crise inicial do petróleo; apanhou boleia da guerra entre a Rússia e a Arábia Saudita para se agarrar ao prolongamento da queda do preço do petróleo. Que mais pode querer? A vida corre-lhe bem!

Tete António, o novo ministro das Relações Exteriores, será provavelmente o mais qualificado de todos os que alguma vez chegaram à chefia da nossa diplomacia. Escolha acertadíssima. Outro vencedor.

O ministro da Energia e Águas deve agradecer à TVI a decisão de congelar a reportagem em que seria um dos principais sujeitos. A condição de membro do Bureau Político do MPLA por certo que ajudou João Batista Borges a manter o cargo. 

Vitor Lima, secretário do Presidente da República para os Assuntos Diplomáticos e de Cooperação Internacional, andava envolvido num braço-de-ferro com Manuel Augusto. Treinado e forjado na escola do futunguismo, deixou o “Manel” estatelar-se sozinho. O último grande futunguista tem, agora, uma oportunidade de recuperar o espaço que o ex-MIREX lhe tinha tirado. 

João Ernesto dos Santos “Liberdade” é o último grande histórico do MPLA. Sobreviveu a tudo. Tem mais dois anos para fechar a carreira em glória. Quanto valem os equilíbrios étnicos! 

Derrotados

Manuel Augusto. Amigo de João Lourenço, pelo menos gostava de passar como tal  (e a quem disse que tinha sido seminarista), recebeu o aviso de despedimento através de Carolina Cerqueira.  Antigo jornalista, com passagem pela TPA, MA  tinha muito para dar certo. Bem-falante, poliglota, ágil em matéria de jogo de cintura, afável, convincente a falar e bom a gerar empatias.

Mas Manuel Augusto também tinha muito para dar errado. Desorganizado, indisciplinado, preso por muitos dependentes nas embaixadas; malvisto entre a “corte” do MIREX, ou seja, os veteranos. Chicoty, a quem fez guerra, está rir-se e a prosperar. Agora é secretário-geral da ACP. Está a fazer o seu caminho. O seu próximo passo será a UA ou a ONU. João Miranda, que nunca foi capaz de conter o seu apetite para viagens, também deve-se estar a rir.  Manuel Augusto nem fez sequer metade do mandato. Perdeu o braço de ferro com Vitor Lima e com Lima Viegas, um antigo secretário-geral da instituição com quem entrou em rota de colisão.

Frederico Cardoso. A sua passagem pelo gabinete de Pitra Neto, quando este era vice-presidente do MPLA, fez dele um mito. Enquanto chefe da Casa Civil de João Lourenço não mostrou nada. Preocupado com o seu próprio ócio, disse ao chefe dele que outro ministro de Estado (por sinal “ausente” ) estava a impor-se aos secretários do Presidente da República. Com a sua habitual frontalidade, João Lourenço disse-lhe: “não espere que seja eu a dizer qual é o seu trabalho”. Edeltrudes Costa era outro que Frederico Cardoso não “chupava”. Porém, mostrou tanta incompetência que o seu trabalho era abrir e fechar seminários. Por isso ficou conhecido como o “abre e fecha”. Sai pela porta dos fundos.

Ângela Bragança. Para quem já foi tida como relevante, o sumiço que sofreu não abona. 

Foi vice-presidente da Comissão da Família, Infância e Juventude da antiga Assembleia do Povo; foi presidente da Comissão de Relações Exteriores, Cooperação Internacional e Comunidade Angolana no Estrangeiro da Assembleia Nacional: foi 3ª vice-presidente do Grupo Parlamentar do MPLA; foi secretária de Estado da Cooperação. Enfim, tudo missões de faz de conta. Quando chegou ao primeiro plano no Governo coube-lhe o ministério da Hotelaria e Turismo, ele próprio também um ministério do faz de conta. A pergunta do momento é: “was jetzt Merkel?”, isto é, e agora Ângela “Merkel”?  

Nem peixe nem carne

Bornito de Sousa. Se juntarmos cargo e visibilidade poderemos dizer que Bornito de Sousa é o mais ausente de todos dignitários angolanos. (Nunes Jr anda muito perto). O tempo vai dizer se com a ascensão de Adão de Almeida, um discípulo seu, ganhou alguma coisa. 

Marcy Lopes. Tinha a assessoria do Presidente da República na mão, logo podia evoluir para um Carlos Feijó. Vai para o Ministério da Administração do Território e Reforma do Estado. Já está no Bureau Político do MPLA e tem na mão a preparação das próximas eleições. Pode crescer tanto como Adão de Almeida. Nada mau.

Adjani Costa. Vamos ver se este país não perdeu uma ambientalista. Devia ter continuado em Oxford a fazer o Doutoramento.

Norberto Garcia. Renasceu das cinzas tal qual fênix, porém a ele impõe-se uma pergunta: como fica a sugestão, que ele próprio fez, segundo a qual este país deveria ter várias réplicas de José Eduardo dos Santos?  

Aldemiro Vaz da Conceição

Era um histórico na entourage eduardista. Era compadre – foi padrinho (de casamento) de Isabel dos Santos. Ele e o General José Maria foram os únicos que começaram quando José Eduardo dos Santos começou.  Quando JES partiu, ele foi o único que ficou e se entregou de corpo e alma ao novo rei. Este gesto valeu-lhe o epíteto de “traidor”. Pela idade que tem (72 anos) deveria ter saído pelo próprio pé quando JES saiu. Acabou despedido sem aviso prévio. Homem experiente, prisioneiro político no Tarrafal, estava obrigado a perceber que na política há coisas inaceitáveis. Quem serve um santo não pode servir outro. Tufas, levou. Caiu um gigante do futunguismo. O pontapé no traseiro de Aldemiro é também um  aviso àquele outro que continua à espreita.

Jornalista há 40 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação social públicos e privados. Na mídia pública regista passagens pela ANGOP, Jornal de Angola e Televisão Pública de Angola. Na imprensa privada tem profundas impressões digitais no Correio da Semana, Folha 8 (de que foi co-fundador e editor chefe), Angolense (co-fundador e editor chefe), Semanário Angolense (co-fundador e Director Geral) e, actualmente, no Correio Angolense. Como militar das antigas FAPLA registou passagens pelos jornais Njango Ya Sualaly (órgão da então Direcção Política Nacional) e Jornal Desportivo Militar (JDM).