No dicionário da língua portuguesa, o verbo ´deputar` significa encarregar de uma missão, delegar, incumbir, designar (do latim, deputare = enviar em missão). O mesmo dicionário diz que deputado é o membro de uma deputação ou assembleia legislativa; enviado para tratar de certos negócios alheios.

No bairro onde vivo, aqui em Luanda, nunca vi nenhum deputado nem para me preocupar com o seu partido, nem para tomar partido das minhas preocupações.

Ora, se nenhum deputado deputa em particular com o povo, como é eles tratam dos negócios alheios, o meu, o teu, o de todos?

A democracia que estamos a implantar em Angola é uma cópia do modelo ocidental. Dizem que esse não é o modelo mais perfeito, mas de todos já inventados pelo homem, é ele o menos imperfeito.

Eu, que sou um zero à esquerda em política e nem sequer tenho partido com sigla, ainda assim acho que se o dicionário diz que um deputado é aquele incumbido de uma missão pelo povo, ele tem de ouvir os que nele votaram e levar tudo o que o povo lhe diz à tal deputação ou assembleia legislativa e votar em consonância com essas preocupações e anseios do povo.

Neste sistema que estamos com ele o povo é representado no parlamento pelos partidos mais votados e estes é que nomeiam os deputados que vão lá na Assembleia Nacional mandar as bocas devidas e indevidas em nome do povo. Dizem os políticos que não pode ser de outro modo, que o modelo de democracia que vingou até hoje é assim mesmo, nem todos podem estar lá, senão seria uma anarquia.

Nesse caso, em que parlamento é que a maioria do povo, isto é, os sem-partido, se pode expressar? Na rua? No candongueiro? Na imprensa privada? Na praça? No Facebook? Ou no WhatsApp?  Serão estes os verdadeiros parlamentos? Quem são os deputados nestas assembleias? E o que é que eles deputam?

Eu não sei nada de nada, já disse que sou um zero à esquerda em política, nós, os sem-partido ficamos à margem do sistema, e portanto resta-nos como consolo falar nas assembleias familiares ou nas da rua, ali as nossas mamãs, os nossos putos, o povo humilde, conversam conosco e sabemos o que é que eles querem, mas não temos poder nenhum, portanto é só mesmo conversa aqui, conversa acolá, quem, como eu, é jornalista tem o privilégio de dizer o que o povo pensa nos jornais e corre o risco de ter de dizer a verdade para não mentir ao seu povo e ficar mal visto, até mesmo se falamos de coisas que nada têm a ver com a política, ficam sempre alguns democratas chateados e já não nos cumprimentam, nos olham mesmo de caxexe, como se fôssemos martrindindes[1] saídos de algum milharal, vamos fazer como então, é assim a democracia, ainda ninguém implantou outro modelo de gestão da sociedade humana, e este que estamos com ele na Europa, na América, na Ásia e na Oceania dizem que é o que faz bem à saúde do Estado, é pá, mwambule[2]!

Mas uma coisa é certa. Se os deputados em todo o mundo são gente fina, ganham bem só para mandar bocas e ir de fato completo sentar nos Parlamentos, eu acho que pelo menos deviam aparecer um pouco mais em público, isto aqui é a África, isto aqui é Angola, eles na Europa e na América já aprenderam a falar e mandar bocas bem medidas e lá os partidos mudam, ora mando eu, ora mandas tu, mas aqui no Continente pai da Humanidade, esta humanidade está cada vez menos desumana, o partido que manda fica muito tempo a mandar, então se fica muito tempo, deviam os seus deputados deputar de verdade para desse modo justificar esse muito tempo de estadia lá no alto e deputar de forma positiva, com resultados palpáveis.

Isto é, acho que os nossos deputados em Angola e no resto da África deviam ser deputados do povo, ir no Roque Santeiro, ir lá longe nas Lundas, ir no musseque ou no bairro mais pobre do Bié, ir lá nas fronteiras de Santa Clara ou do Moxico, ver como o povo anda, ir nas prisões, falar com os mais humildes, mesmo que não saibam o que se pode fazer por eles, mas pelo menos para o povo sentir que este deputado veio e ao vir mostrou que eu também sou gente neste país. Mas deviam ir sem a TPA, sem a Rádio Nacional a fazer banga de lhes ouvirmos fomos lá falar com o povo. Deviam masé ir tipo  povo em geral, comprar uma magoga[3] e lhe comer ali na rua para poderem ouvir bem os mambos do nosso povo, e se alguma diarreia dibingar[4] fora de controle devido à magoga onde as moscas pousaram, estudar estratégias de solução dos nossos problemas enquanto fazem força na retrete. Deviam deputar de verdade. Tudo nas calmas!

Bom, termino por aqui, já falei demais mesmo sem ser deputado, que me perdoem os partidos políticos com assento no parlamento, eu não sei se o que falei está certo ou errado de acordo com os ditames da política moderna, já disse que sou um zero à esquerda em política, nem sequer tenho partido, por isso o que digo, digo-o de coração, espero que não me olhem de caxexe nem deixem de me cumprimentar quando cruzarem comigo, porque sou um simples cidadão angolano com direito à palavra por força da Constituição, e se errei que me corrijam por favor, não é isso é que se diz que é a democracia, falar, falar, conversar sem armas na mão, mesmo com os que, como eu, são uns zeros à esquerda em política?


[1] Martrindinde – gafanhoto grande e esverdeado, sem asas, de patas excepcionalmente compridas, frequente no Kwanza-Sul e Benguela.

[2] Mwambule – (termo Kimbundo) – deixar estar como está; não dar importância.

[3] Magoga – Sandes de frango frito com repolho triturado, cebola frita e maionese..

[4] Dibingar – (do Kimbundo: dibinga – fezes); defecar.

Escritor, jornalista e docente de língua portuguesa, reparte as suas múltiplas competências académicas e intelectuais pelas áreas de formação contínua, o ensino e o activismo cultural pelo fomento do livro e da leitura