Não é preciso militar num qualquer partido político, nem ser-se expert em politologia ou doutorado em Ciência Política para ter uma noção clara de que inimigo a abater em Angola é o inimigo ou inimigos públicos do Povo angolano.

E, 45 anos decorridos sobre a Independência nacional, uma pergunta se impõe:

– Quem é o inimigo do Povo Angolano?

Para uma melhor arrumação desta questão, que reputamos de extremamente sensível e actual, vamos elencar algumas hipóteses. 

Serão inimigos do Povo angolano e de Angola:

1. Adalberto Costa Júnior?

2. A UNITA?

3. A CASA-CE?

4. Abel Chivukuvuku e o PRA JÁ SERVIR ANGOLA?

5. A FNLA?

6. Os jornalistas independentes?

7. Os intelectuais não-alinhados?

Ou serão estes os inimigos do Povo angolano:

1. A miséria nos bairros periféricos?

2. O subdesenvolvimento crónico (falta de água, luz, saneamento básico, educação de qualidade, saúde precária)?

3. Os que levaram a riqueza de Angola para os paraísos fiscais?

4. As escandalosas assimetrias regionais?

5. A má gestão da res publica?

6. O cabritismo, o nepotismo e a gasosa?

7. O desemprego?

8. A morte de angolanos por tiros disparados pela polícia?

9. O assédio contundente dos fiscais na via pública? 

No primeiro bloco istamos um conjunto de presumíveis ou supostos inimigos a abater e no segundo outro conjunto de reais inimigos, estes assim declarados pelo próprio Chefe do Executivo e pelo partido no poder, o MPLA, bem como pela nossa própria vivência nas ruas de Luanda e um pouco pelo país fora, enquanto cidadãos observadores da História angolana.

E porque trazemos à liça esta problemática? Porque é que a consideramos pertinente? Ora, muito simplesmente porque:

Primeiro: nalguns debates televisivos, e podemos mencionar a Revista da Semana da TV Zimbo, está a acentuar-se um discurso de levantamento de contradições que raiam o absurdo, caindo muito para o lado da afronta pessoal e também na ambiguidade, no vale-tudo, na demagogia dos tempos da guerra pré-independência e dos anos que se lhe seguiram.

Segundo: o programa de Governo, e o OGE que o reflecte, mostra claramente uma indefinição de quem é o inimigo do Povo angolano, com a maior parte dos recursos humanos e materiais direccionados para a Defesa e Segurança. Exemplo disso é a criação do Gabinete de Acção Psicológica, junto da Presidência da República. Afinal, o PR não recebeu já no Palácio Rafael Marques, os revus, não visitou numa clínica Abel Chivukuvuku quando esteve doente, numa clara (ou pretensa) demonstração de que os inimigos do outro tempo nunca foram inimigos?

Há todo um cenário político-administrativo que preocupa o cidadão mais atento ao desenrolar deste filme pós-eduardismo. Há uma série de contradições, indefinições, confusões e, sobretudo – e isto é o mais preocupante – um retomar de uma acção estadual-partidária que ainda e sempre confunde e mistura Estado e MPLA. O exemplo mais caricato foi quando o chefe do Estado-Maior General das FAA, general António Egídio de Sousa Santos exarou um Despacho a impor a prontidão combativa do exército por ocasião da realização do VII congresso extraordinário do MPLA, com efeitos de 14 a 16 de Junho de 2019. 

A ponte sobre o fosso mono-paridário do ancient régime, capaz de desanuviar as tensões sociais e políticas que o país conhece desde 1975, só é possível com uma certa abertura do paredão político executivo-partidário angolano, de forma a que a oposição deixe de ser conotada com o inimigo e passe a ser conotada como mero adversário do jogo de xadrez partidário. Isso exige do Mais Ato Mandatário uma postura de Chefe de Estado, inconvertível à missão de chefe do partido, o que representa a verdadeira bicefalia estadual.

Com a idade e a experiência que acumulamos, temos a plena convicção de que os inimigos de Angola são outros alvos a abater urgentemente: nunca a oposição. Nunca o próprio Povo.

Escritor, jornalista e docente de língua portuguesa, reparte as suas múltiplas competências académicas e intelectuais pelas áreas de formação contínua, o ensino e o activismo cultural pelo fomento do livro e da leitura