Sadhguru, iogue, místico e espiritualista indiano, num dos seus vídeos no Youtube, intitulado “Como Nunca Ficar com Raiva ou Incomodado” ensina o seguinte: “A diferença estre o céu e o inferno é apenas esta: quando você está fazendo alguma coisa por vontade própria, esse é o seu céu. Quando você está fazendo alguma coisa contra a sua vontade, esse é o seu inferno.” 

Todos os dias, dezenas de crianças, jovens e adultos (mulheres e alguns homens) atravessam, várias vezes ao dia, a Avenida 21 de Janeiro, na zona do bairro Rocha Pinto, com bidões grandes amarelos para irem cartar água do outro lado da avenida, na outra parte do bairro. Esses sedentos de água em tempo de coronavírus, em que a salvação consiste em lavar as mãos com sabão, usar máscara e manter o distanciamento social de 1 metro e meio, atravessam uma avenida perigosa, com muito trânsito, sem usar a ponte pedonal devido ao peso do bidão. Correm o risco de serem atropelados. Correm o risco de contágio pela Covid-19, pois andam aos magotes, lá onde vão buscar a água devem se aglomerar e não usam máscara, porque ninguém que carregue um bidão de 25 litros de água tem suficiente oxigénio dentro de uma máscara. É incómodo. Creio também que não têm possibilidades de adquirir máscaras. Pode ser que até tenham. É preciso fazer-se um estudo sobre essa (im)possibilidade.

Porque é que esses cidadãos têm de se arriscar tanto para terem água, violando as regras básicas do estado de emergência, agora estado de calamidade?

Em primeiro lugar, porque a água é o mais simples e poderoso líquido auxiliar dos dissolventes. Tanto assim é que a primeira regra básica da higienização é lavar as mãos. É tomar banho. Quantas pessoas tomarão banho nas suas casas, com esse único recurso de cartar água em bidões?

Em segundo lugar, o homem precisa da água para quase todos as necessidades elementares de sobrevivência na Terra: cozinhar, manter as roupas e objectos asseados, limpar a casa, etc. 

Em terceiro lugar, porque água é vida. Setenta por cento do nosso corpo é constituído por água. Devemos beber muita água durante o dia. Outro problema para os moradores dessa zona do Rocha Pinto sem água nas proximidades. Será que a água dos bidões chega para todos beberem o que necessitam?

Por essas razões, os moradores do Rocha Pinto que, todos os dias, atravessam várias vezes a 21 de Janeiro, no meio do trânsito, aos magotes, não têm outra solução, senão fazerem o que fazem. 

Só que não o fazem de livre vontade. Qual de nós, que temos o privilégio de ler artigos na internet, se exporia a essa tarefa diária? Portanto, se não o fazem de livre vontade, vivem, como diz Sadhguru, no inferno. O Rocha Pinto representa, para eles, o inferno aqui na Terra. 

Como é que o governo provincial de Luanda lhes pode deslocar do inferno, não digo já para o céu, que este parece ser apenas para os ricos e milionários, mas, pelo menos, para o purgatório, em termos de água?

Os moradores do Rocha Pinto que, todos os dias, atravessam várias vezes a 21 de Janeiro não têm outra solução, senão fazerem o que fazem

O próprio governo, sob as orientações da Comissão interministerial encarregue de combater o surto da Covid-19, garantiu, em anúncios públicos televisionados, a distribuição de água potável a todos os moradores de Luanda. Há até camiões-cisternas com um logotipo nas portas a evidenciar o acto generoso do governo. Por que carga de água é que a água não chega a esses desgraçados do Rocha Pinto?

E não é apenas o Rocha Pinto. Amigos meus que moram no condomínio Caju (lá na entrada do condomínio está “cajú” com acento, o que é um erro de palmatória da Sonangol), esses meus amigos alertam-me constantemente sobre este paradoxo improvável: num condomínio de luxo, destinado aos trabalhadores da Sonangol, mas onde até outros cidadãos são proprietários, supostamente com as casas entregues sem pagarem, lá no Caju, muitas vezes falta água, mas há água ali ao lado, nas girafas, para os camiões-cisternas que entram no condomínio a vender água. 

Na nossa modesta opinião, esta problemática da água só terá solução quando quem de direito, a começar pelo titular da pasta da energia e águas, mudar de atitude em relação à distribuição do precioso líquido. A água é para todos. Não é apenas para quem vive no Miramar, no Alvalade, no Maculusso, na Vila Alice ou na Cidade Alta. Tomar esta atitude significa sair da estrita esfera do agir pelo desejo de: 1. Sair na imprensa como benfeitor do Povo; 2. Agradar ao partido no poder ou ao mais alto mandatário, elogiando-o sempre que se faz obra. Este tipo de acção é movido pelo simples desejo pessoal de ser glorificado e, por tabela, ganhar pontos para ascender a outros postos na governação, ou angariar votos para as próximas eleições.

Isto está errado. É preciso, em vez desse desejo pessoal, subir ao patamar mais alto da visão mais ampla. Ver Angola, pelos olhos dos milhões de angolanos. Uns precisam de água, outros de pão, outros de luz, a maioria precisa de emprego que deve ser facultado pelos milionários deste país.  

Ter visão, significa criar uma atmosfera agradável que faz a felicidade de muita gente, segundo nos ensina Sadhguru. “Visão é um desejo maior que inclui a todos, enquanto desejo se refere a si próprio. É pessoal. Visão pode transformar toda uma situação.” E pode transformar toda Angola. Como, por exemplo, acabar com esse inferno de sede dos moradores do Rocha Pinto.

Escritor, jornalista e docente de língua portuguesa, reparte as suas múltiplas competências académicas e intelectuais pelas áreas de formação contínua, o ensino e o activismo cultural pelo fomento do livro e da leitura