Muito antes de José Eduardo dos Santos (JES) se retirar da vida política, em 2017, já Angola estava a viver uma situação comparável aos antigos estados feudais europeus, feitas as devidas ressalvas geo-históricas. 

No quadro da Constituição formal, Angola era uma república, porém, era uma monarquia anti-constitucional no seu modus faciendi político, visto que o Estado era o próprio José Eduardo dos Santos, tal como o disse, no século XVII, o rei francês Luís XIV, mais conhecido por Rei Sol: “L’ Etat c’est moi!”

Quando JES saiu da cena política executivo-partidária, deixava para trás um colosso africano com pés de petróleo bruto, a escorregar nesse óleo para o abismo da pobreza extrema e da ineficácia administrativa, mas com a componente feudal da vassalagem assente no clientelismo, no nepotismo, e outros factores inerentes ao feudalismo moderno africano que, entre nós tem um nome tradicional: CABRITISMO. Este regime cabritístico é altamente endémico de diabetes, porque se alimenta, não de capim, mas de GASOSA, visto que o pau onde está amarrado é o próprio património do Estado. Ora, todo o mundo sabe como vive uma pessoa diabética, sob constantes cuidados de saúde e como, sendo dirigente da alta roda, dependente exaustivamente do erário para o tratamento.

Apeado JES e entronizado João Lourenço (JLO) – entronizado visto não ter havido eleições partidárias para o cabeça de lista às eleições de 2017 – assiste-se à permanência residual do regime feudal cabritístico, resultante da já velha e cansada teoria da “renovação na continuidade”, com a imposição da voz suprema e omnipotente do Chefe de Estado, que nomeia quem ele bem quer, mesmo que o nomeado seja o maior corrupto à face da Terra ou não tenha nunca demonstrado competência gestionária nos cargos que ocupou, e exonerando quem bem lhe apetece, depois de o exonerado ter servido para a sua estratégia de contrapor o desígnio eduardista em determinada área da economia.

Trudo isto para constatar que o país está parado. A pandemia da Covid-19 nada veio acrescentar ou diminuir ao que já nos tínhamos habituado a sentir na carne, na pele, nos ossos e na alma: um povo em cíclico definhamento. 

E porquê? 

Porque a causa principal, o cerne da questão, reside no regime feudal construído ao longo de 45 anos, que produziu um Estado totalitário, governado a uma só voz, com outras vozes subsidiárias a defender, a exemplo do Ruanda e da China comunista, a relevância e necessidade histórica da ditadura, para alavancar o desenvolvimento. 

Com João Lourenço assiste-se à permanência residual do regime feudal cabritístico, resultante da já velha e cansada teoria da “renovação na continuidade”, com a imposição da voz suprema e omnipotente do Chefe de Estado, que nomeia quem ele bem quer, mesmo que o nomeado seja o maior corrupto à face da Terra ou não tenha nunca demonstrado competência gestionária nos cargos que ocupou, e exonerando quem bem lhe apetece 

Ora, cada país é um caso e cada povo tem a sua história, a sua idiossincrasia, a sua composição etno-cultural, enfim, a História já demonstrou que se a África quer dar a volta por cima do subdesenvolvimento tem de ser ela própria, olhar para os seus Povos (filhos) em primeiro lugar, ouvir a voz deles e trabalhar na base das comunidades, levar o governo do centro para a periferia. Angola insiste no modelo historicamente derrubado do centralismo “democrático”. Insiste na plutocracia nascida do peculato, mas inoperante na questão do emprego. O modelo reformista de Deng Xiao Ping é altamente contraproducente para Angola e os angolanos, país de maioria cristã, aversa, portanto, à ditadura comunista. Angola já tem um record de violência, de longe superior ao de Tiananmen (paradoxalmente, a Praça Celestial da Paz). Acima de tudo, quando Deng Xiao Ping iniciou as reformas, a China já tinha uma sólida base de efeitos económicos socialistas sobre o bem-estar da população e um desenvolvimento industrial que já vinha de eras anteriores. Ora, nós, nunca construímos castelos, templos, nem as vigorosas embarcações que circulavam pela Ásia. Por outro lado, na China, os corruptos no tempo de Deng Xiao Ping eram todos sumariamente fuzilados. Aqui são alcandorados a novos postos no Governo!

Angola é Angola. Por não quererem ver esta realidade, é que todos os ministros de Estado, assessores e secretários da Presidência para a esfera económica caem no círculo vicioso da Economia de Plantão: dar alertas em conformidade com a oscilação do preço do barril de petróleo. Essa é uma Economia Política livresca, das academias, a que usa termos como “macroeconomia”, “taxa de juro”, “depreciação da moeda”, “taxa de câmbio”, “bonds”, “mercado de capitais angolano -BODIVA”, “reserva líquida internacional”, nomes surrealistas e indecifráveis para a maioria do nosso povo, mas NUNCA conseguiu colocar o dinheiro da venda petróleo dentro de Angola, como se Angola fosse apenas a vaca leiteira e a América e a Europa a boca consumidora da nossa teta petrolífera. Essa é a tal Economia que NUNCA conseguiu pôr a fuba a um preço acessível à bolsa irrisória do trabalhador. É curioso que os economistas de plantão nunca falam, nos seus discursos, palavras como FUBA, MANDIOCA, BATATA-DOCE, JINGUBA, PEIXE RONCADOR, MATONA, CALAFATE, LAMBULA, ÓLEO PALMA, nomes concretos de uma Economia que comece pela SEGURANÇA ALIMENTAR do Povo. É sintomático como os nossos economistas de plantão, entrincheirados na guarita do preço do petróleo, NUNCA digam, nos seus discursos, nomes como ZUNGUEIRA, KUPAPATA, ROBOTEIRO, CANDONGUEIRO, QUITANDEIRA, MECÃNICO, ALFAIATE, KINGUILA, OPERATIVO, PEDREIRO, nada. É só empresariado nacional, pequenas e médias empresas, ramos disto e daquilo e depois a televisão estatal mostra imagens de grandes plantações que produzem milhões de toneladas de produtos que NUNCA chegam à mesa do trabalhador porque o salário é o mínimo múltiplo comum da pobreza.  

Todos os ministros de Estado, assessores e secretários da Presidência para a esfera económica caem no círculo vicioso da Economia de Plantão: dar alertas em conformidade com a oscilação do preço do barril de petróleo. Essa é uma Economia Política livresca, das academias, a que usa termos como “macroeconomia”, “taxa de juro”, “depreciação da moeda”, “taxa de câmbio”, “bonds”, “mercado de capitais angolano -BODIVA”, “reserva líquida internacional”, nomes surrealistas e indecifráveis para a maioria do nosso povo, mas NUNCA conseguiu colocar o dinheiro da venda petróleo dentro de Angola, como se Angola fosse apenas a vaca leiteira e a América e a Europa a boca consumidora da nossa teta petrolífera. Essa é a tal Economia que NUNCA conseguiu pôr a fuba a um preço acessível à bolsa irrisória do trabalhador

Angola é Angola e o povo angolano não come, não trabalha, não dorme no Palácio de S. José. O povo angolano dorme no luando das periferias luandenses e nas periferias provinciais, onde nem o Jornal de Angola chega. É ali que o Executivo deve conceber e executar políticas. Não com o tão propalado PIIM, não. Como política normal de Estado.

E porque é que os que pensam a nossa economia não querem ver esta realidade? Simplesmente, porque usam óculos de sol partidários. A permanente regência do partido dirigente é a matriz reguladora das políticas públicas. De modo que os diversos órgãos da governação tendem a ser enormíssimas células do partido, para cujos cargos só ascendem os que se reúnem nos CAP do partido, e voltados para um desígnio central: a conservação do poder. A sina dos partidos é a tomada e conservação do poder. Mas essa sina não pode ser construída com recurso à res publica, porque os partidos são res privata. O contrário é que é válido. O partido conserva o poder servindo, e bem, a causa pública, não se servindo dela. 

Com estes óculos de sol partidários, nem o Chefe de Estado consegue ver a noite económico-cultural herdada da anterior governação e que faz com que a população ande às apalpadelas, em busca de um meio qualquer de sobrevivência, desde a zunga à delinquência.

O país está parado, e colocar o comboio angolano nos carris exige ver claro na escuridão, despir os óculos de sol partidários, para poder dar a mão às comunidades, puxá-las para as carruagens e, com elas, recomeçar do zero este belo país.

Escritor, jornalista e docente de língua portuguesa, reparte as suas múltiplas competências académicas e intelectuais pelas áreas de formação contínua, o ensino e o activismo cultural pelo fomento do livro e da leitura