INTERTEXTO
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro


Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário


Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável


Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei


Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertolt Brecht

Ele não se chamava George Floyd. Também nunca vivei na América. Aliás, nunca saiu de Luanda, provavelmente nem conhece a Kisama ou Catete. É tão pobre, tão pobre, que vivia num cubículo de chapas, com outros rapazes a quem a oportunidade de ter um lugar ao sol lhes esquivou. João de Assunção Eliseu era o seu nome. Tinha 20 anos. Morava no bairro 11 de Novembro, no Palanca, ali perto do Centro Arnaldo Janssen. Morreu no dia 17 de Junho, às 6:30 h da manhã, perto de casa. Morreu sem necessidade, por simples prepotência de um agente da Polícia Nacional, tal como morreu George Floyd na América.

Eram 11 horas do dia 19 de Junho, sexta-feira, quando fomos ao bairro 11 de Novembro, um nome tão simbólico que em nada condiz com a miséria daquele bairro da lata. Deixemos falar Filipe Tomé, vizinho do malogrado.

Segundo Filipe e os cerca de uma dezena de vizinhos que reconstruíram o drama de João de Assunção Eliseu, o decujus acordou às 6 horas para ir à latrina colectiva, visto que o aglomerado onde vivem não tem casas de banho privativas. Estava João Eliseu embalado, quando dá de caras com o agente da polícia.

– Onde é que você vai sem máscara? – perguntou o agente da autoridade.

– Desculpa, sô agente, estou muito apertado, deixa-me só ir fazer necessidades, já volto para buscar a máscara!

O agente da ordem pública não anuiu. Ordena que João faça uma série de cambalhotas, num percurso de 40 metros. Cumprido o castigo, o jovem pára, cansado:

– Sô agente, já não aguento, sofro do coração.

A resposta foi um disparo de arma de fogo junto à orelha do jovem. João caiu. O coração batia com muita força e rapidez no seu peito. Já não se levantou.

“O João ficou aqui no chão mais de três horas, até a ambulância chegar. Quando foi ao hospital, já ia morto”, concluiu Filipe, com o rosto triste. Filipe acrescentou que até sexta-feira, dia 19, não tinham tido notícias sobre o destino do falecido. Foram à esquadra do Capolo, à qual pertence o elemento da polícia implicado no drama de João Eliseu, para obter uma resposta. O comandante da esquadra “até deu berro”, explica Filipe, dizendo que o chefe da esquadra afirmou que João foi bandido, gatuno.

“Queremos uma resposta”, pede Filipe, que trabalha a fazer biscates como mestre-pedreiro. Uma resposta não só para a comunidade de jovens do gueto de chapas do 11 de Novembro, mas para toda a sociedade sobre o paradeiro do corpo do malogrado João de Assunção Eliseu.

João Eliseu, o nosso George Floyd

João Eliseu viveu 17 anos no Centro Arnaldo Janssen, explicou-nos a directora do centro, uma madre oriental, com o seu jeito de boa samaritana.  Não se sabe da sua origem, nem se lhe conhecem familiares, como quase todos os rapazes do centro onde já esteve o Padre Horácio, com a sua bondade extrema e perícia eclesiástica em resolver os casos das crianças acusadas de feitiçaria. Depois, teve um dissídio com um responsável do centro e teve de ir à vida. Reuniu-se ao grupo de adolescentes e jovens da comunidade do bairro 11 de Novembro, esse grupo sem futuro que o pelouro da Acção Social do Governo devia olhar há muito.

Mas quem olha para essa comunidade, conotada com a delinquência, é a Polícia. Daí a presença matinal do agente cuja acção violenta redundou na extinção de uma vida jovem. Tinha 20 anos. Era mais conhecido por Mano 5. A sua foto está nas paredes dos cubículos do bairro 11 de Novembro e faz lembrar a morte do negro americano George Floyd.

Hoje em dia, as redes sociais ultrapassaram o quarto poder em velocidade. Do Facebook chegou, naquela sexta-feira, uma luzinha. Vinha de uma internauta que dá pelo nome de Milú Valdez e dizia o seguinte: “O Arquivo de Identidade Angolano em colaboração com a Inspecção do Comando Provincial de Luanda, vem por meio deste comunicar que está em curso o Projecto de apoio às vítimas de violência e agressão policial contra pessoas LGBTIQ, trabalhadores de sexo ou qualquer grupo marginalizado. Se és vítima, contacta-nos: 923099793/998394132”.

Uma chamada para o referido projecto e o assunto teve um desfecho primário. Esta segunda-feira, dia 22 de Junho, às 16 horas, demos encontro com Filipe Tomé, ocupado a cuidar da sua horta de batata-doce. Foi ele quem nos informou que o comandante da esquadra do Capolo esteve de visita à comunidade com alguns bens alimentares: arroz, fuba, uma caixa de óleo, uma caixa de coxas, sardinha em lata. O agente da polícia implicado na morte de João Assunção foi submetido a inquérito e detido. O cadáver do malogrado João foi autopsiado, e confirmada a morte por causa da agressividade do agente, tendo ficado o funeral marcado para quarta-feira, dia 24, com apoio das autoridades policiais.

Filipe Tomé lamentou o facto de o cadáver de João de Assunção Eliseu ter sido deposto na câmara 5 da morgue e encontrar-se em estado lastimável, sem as orelhas. Filipe também tem uma pulga atrás da orelha: “Será verdade que o agente da polícia está mesmo detido e vai ser julgado?” Pergunta esta que apenas compete à PGR responder.


Jornalista, escritor e professor de língua portuguesa. Actualmente é consultor da Edições Novembro, na qual foi, durante sete anos, director do quinzenário Cultura. Em 2019, refundou o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, criado em Luanda, em 1948, e desenvolve projectos de fomento da leitura e da aprendizagem da língua veicular nas escolas e junto de organizações juvenis.