Candeias às avessas na Hemodiálise de Benguela

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Era para ser um encontro em que o Ministério da Saúde e os dirigentes do Instituto Angolano do Rim (IAR) iriam procurar pontos de contacto para enfrentar e ultrapassar a enorme barreira entre as duas partes, constituída por uma montanhosa dívida contraída pelo Estado.

Mas a reunião da ministra Sílvia Lutucuta com o IAR, que era suposto decorrer num ambiente de urbanidade, foi dominada pela gritaria. 

Ignorando o dever cívico de dar explicações aos presentes para o significativo atraso com que chegou à reunião, Sílvia Lutucuta partiu de pronto para o ataque, acusando os provedores de hemodiálise em Benguela e Lobito de exercerem chantagem psicológica sobre os pacientes e duvidando do valor da dívida que as duas clínicas reclamam do Estado.

Não saímos satisfeitos da reunião porque ministra não veio para auscultar o que temos para dizer e muito menos trouxe soluções. O que ouvimos foi um discurso cheio de críticas aos operadores de hemodiálise e, mais que isso, dúvidas sobre os valores que reclamamos do Estado. Fomos acusados de torturar os nossos pacientes e ainda de influencia-los para intercederem a nosso favor junto da comunicação social. Em resumo, a reunião esteve muito longe das nossas piores expectativas. Sim, podemos dizer que houve momentos de tensão” – é nestes termos que um participante ao encontro resumiu ao Correio Angolense o que se passou na reunião dia 17 de Junho, que juntou, de um lado, a ministra da Saúde, representantes do Ministério das Finanças e do Governo de Benguela, e do outro, representantes do Instituto Angolano do Rim, que opera as duas clínicas de hemodiálise de Benguela e Lobito.

Em 2012, o Ministério da Saúde e o IAR assinaram um contrato com a duração de 12 anos ao abrigo do qual o segundo providencia os serviços de hemodiálise nos hospitais públicos de Benguela e Lobito.

Nos últimos tempos, a comunicação social vem fazendo eco das dificuldades de tesouraria por que passa o IAR em virtude da imensa dívida que o Estado não lhe paga. Pressionado pelos seus fornecedores, que ameaçam cortar todos os serviços, o IAR tem batido insistentemente as portas do Ministério da Saúde, mas com pífios resultados. 

Entre o Instituto Angolano do Rim e o Ministério da Saúde há uma dívida de 9, 5 mil milhões de kwanzas. E a dívida do IAR para com os seus fornecedores, servidores, bancos e obrigações tributárias ascende os 7 mil milhões de kwanzas.

Temos dívidas com o fornecedor de material de hemodiálise; dívidas com trabalhadores; temos impostos por pagar; devemos à banca. Enfim, estamos completamente endividados”, conta a mesma fonte. 

De acordo com essa fonte, o funcionamento da clínica do Lobito está preso por um fio. “Não temos, sequer, dinheiro para pagar a reparação do gerador e do Posto de Transformação. Além disso, temos um contentor de consumíveis retido no porto porque não temos dinheiro para o seu desalfandegamento”.

Quando perguntado sobre o que pode acontecer se o MINSA não liquidar a dívida num prazo razoável, a fonte do Correio Angolense não tem dúvidas: “o que poderá acontecer seguramente é a paralisação de todos os serviços por falta de consumíveis. A paralisação também pode dar-se em virtude do baixo moral dos trabalhadores, que não recebem salários há mais de 5 meses. Aliás, há já quatro anos que os salários não são pagos com regularidade”.

Conhecedores da situação por que passam as clínicas onde são assistidos, muitos pacientes têm juntado as suas vozes àquelas que reclamam do Ministério da Saúde a rápida regularização da dívida.

Se não houver uma solução que reponha urgentemente a frequência das sessões de diálise isso agravará o quadro clínico dos pacientes e a consequência mais rápida disso é a sua morte

Pacientes na Clínica de Hemodiálise do Lobito:

Há pouco mais de uma semana, a TV Zimbo difundiu comoventes imagens e declarações de duas pacientes da Clínica de Hemodiálise do Lobito, as quais disseram temer pelas suas vidas em virtude de terem sido reduzidas, de três para duas, as sessões semanais de diálise.

Tivemos que fazer isso para esticar ao máximo a assistência aos pacientes. Mas essa é uma solução paliativa. Se não houver uma solução que reponha urgentemente a frequência das sessões de diálise isso agravará o quadro clínico dos pacientes e a consequência mais rápida disso é a sua morte”, explicou a fonte do Correio Angolense, que não pode ser identificada por temer represálias. 

Uma das pacientes entrevista pela Zimbo queixou-se de crescente falta de ar, situação que atribui à redução das sessões de diálise. ‘Eu sinto falta de ar”, queixou-se.

Na reunião havida em Benguela, Sílvia Lutucuta acusou os gestores das clínicas de Benguela e Lobito de intimidarem os pacientes.

Uma nota do Gabinete de Comunicação Institucional do Governo de Benguela atribui à ministra da Saúde a afirmação segundo a qual “não se deve fazer chantagem com os pacientes, pois, eles precisam apenas de conforto e saber que têm tratamento e que o mesmo está a ser feito de forma adequada. Em nenhum momento devemos dizer aos pacientes que podem morrer por falta de assistência decorrente de uma dívida do estado, ameaçá-los, como aconteceu. É errado, em medicina, não se trata as pessoas dessa forma, a humanização dos serviços de saúde deve estar na agenda”. 

A ministra da Saúde encerrou a reunião tal como a começou: aos gritos. Foi a gritar que anunciou a abertura, ainda este ano em Benguela, de um centro de hemodiálise público.

Dois dias depois da improdutiva reunião com a titular da Saúde, os responsáveis do Instituto Angolano do Rim reuniram com técnicos dos Ministérios da Saúde e das Finanças, um encontro, segundo fonte do Correio Angolense, que “correu muito bem, com excelente entendimento entre todas as partes. Os representantes do Governo prometeram solução para o problema e é importante que isso aconteça o mais rapidamente possível porque os nossos fornecedores já não aceitam promessas”. 

Naquela quarta-feira, 17, Sílvia Lutucuta disse que parte da dívida ao Instituto Angolano do Rim já teria sido paga.

Há duas semanas disseram-nos que o Ministério pagou 80 milhões de kwanzas. Quem tem pela frente uma dívida de mais de 7 mil milhões de kwanzas o que vai fazer com 80 milhões? E om pior é que, passadas duas semanas, ainda não recebemos um centavo desses 80 milhões”.

Doses excessivas de arrogância

Endeusada nas redes sociais, que, precocemente, lhe colaram enfeites como “misse simpatia” e outros, Sílvia Lutucuta tem revelado incapacidade de lidar com esses “15 minutos de fama”. 

A exposição mediática, decorrente da sua qualidade de porta-voz da Comissão Interssectorial de Combate à Pandemia da Corona Vírus, aos poucos vai destapando a arrogância, a boçalidade, a malcriadez, que já “moravam” no indivíduo. A essas “virtudes” Sílvia Lutucuta acrescenta, agora, aquela birra, própria de crianças mimadas que não aceitam qualquer contrariedade. O recente episódio que envolveu uma jornalista do jornal O País desnudou a face desconhecida da ministra. Por causa desse arranca-rabo com Maria Teixeira, o país ficou a conhecer uma ministra que não sabe estar nos píncaros.

Nestes tempos de muita conflituosidade, o Presidente da República já deveria ir amadurecendo uma alternativa a Sílvia Lutucuta. Esta ministra da Saúde ofende, magoa, desmoraliza e desmobiliza. A reunião com os provedores de serviços de hemodiálise de Benguela e o tratamento que dispensa aos seus colegas de ofício, nomeadamente aqueles que procuram espaço no sector público, o escandaloso favorecimento de médicos cubanos em detrimento dos nacionais são o retrato, perfeito, de muita arrogância acumulada numa só pessoa.