Cheiro à vendeta na embaixada de Angola em Espanha

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Sob o título Manuel Augusto, a anatomia de uma queda, no dia 01 de Maio o Correio Angolense publicou um artigo que, entre outros, aludia a última visita oficial do então ministro das Relações Exteriores ao Reino de Espanha. Aparentemente, esse artigo teve repercussões que culminaram em “vítimas” na nossa embaixada naquele país ibérico. Dois funcionários  foram despedidos por supostamente haverem municiado o Correio Angolense com as informações que davam conta que o antigo chefe da diplomacia angolana ter-se-ia posto a jeito para accionar a “caneta vermelha” de João Lourenço    

Escudando-se na necessidade de reajustar a força de trabalho em virtude dos apertos financeiros que decorrem da crise do Covid-19, a embaixada de Angola no Reino de Espanha acaba de despedir dois dos seus servidores. Um dos funcionários despedidos é Elizabeth Ferreira, cidadã angolana recrutada em Espanha. Ela serviu a embaixada por ininterruptos 25 anos. A sua última colocação foi no sector consular.

No quarto de século que serviu a embaixada, Elizabeth Ferreira trabalhou com embaixadores como Assunção dos Anjos, Pedro Sebastião, Armando da Cruz, Victor Lima. Nos últimos tempos trabalhou sob as ordens de José Luís de Matos. Economista de formação, ela era a funcionária com maior qualificação académica na nossa missão diplomática.

O despedimento de alguém com as credenciais académicas de Elizabeth Ferreira é qualificado, entre os próprios funcionários da embaixada, como, no mínimo, pouco ortodoxo. “Não se deita fora ou dispensa a melhor loiça de casa”, comentou ao Correio Angolense uma diplomata de carreira.

No artigo do dia 01 de Maio, Correio Angolense escreveu: “Em Espanha, onde se deslocou em visita oficial, Manuel Augusto quase cometeu um penalty diplomático. O motorista que o servia, um cidadão português residente naquele país há muitos anos, ficou a noite toda à porta de um prédio de apartamentos, onde o ministro tinha passado à noite”.  

O motorista que passou a noite em claro é José Manuel, de nacionalidade portuguesa, o segundo trabalhador despedido.

Na embaixada de Angola ninguém o assume, mas a verdade é que o artigo do Correio Angolense e, nomeadamente, a alusão à escapadela noturna de Manuel Augusto causou abalos sísmicos que se estenderam até ao Ministério das Relações  Exteriores, em Luanda. 

De acordo com fonte fidedigna, logo após a publicação do artigo começou uma verdadeira “caça às bruxas” dirigida pela adida financeira, Maria Helena Covilhã.

Descrita na embaixada e até mesmo no próprio MIREX como uma protegida do então ministro, M. Helena Covilhã prometeu a si mesma e a outros colegas que chegaria aos “gargantas fundas” que teriam relatado a escapadela de Manuel Augusto ao Correio Angolense

Nos últimos três meses  andou furibunda pelos corredores da embaixada. Sempre em inaudíveis monólogos, andava de um lado para o outro como se procurasse algum objecto perdido”, foi nestes termos que a fonte doCorreio Angolense o comportamento da adida financeira nos últimos tempos.

Para esse fonte, o súbito e surpreendente anúncio do despedimento de Elizabeth Ferreira e de José Manuel é indissociável da “frenética e desesperada actividade” de Maria Helena Covilhã. 

 “Ambos foram informados que estavam a ser despedidos porque havia necessidade de redução de pessoal”. No entanto, a justificação para o despedimento dos dois funcionários esboroou-se com a informação de que a embaixada já teria recrutado duas pessoas para ocupar os lugares da Elizabeth e de José Manuel. Segundo se soube, o motorista será substituído pelo filho de uma funcionária espanhola da Embaixada. 

Portanto, diz a mesma fonte, o afastamento dos dois colegas não tem nada a ver com a diminuição de custos com pessoal.”

Descrevendo o despedimento de Elizabeth e de José Manuel como uma “imensa maldade”, a fonte do Correio Angolense acredita piamente que o que se passou na embaixada foi uma verdadeira vendeta. 

 “O que aconteceu é pura vendeta, pura retaliação. Algumas pessoas e, principalmente, a senhora Helena acha que o motorista contou à Elizabeth e esta passou a informação aos jornalistas. É uma maldade despedir pessoas com base na simples suspeita ou dedução.”

Madrid: Cidade onde foi urdida a cabala contra dois funcionários 

Indisfarçavelmente  revoltada, a fonte do Correio Angolense remete para a estupidez a suposição de que a escapulida de Manuel Augusto passaria despercebida. 

Todos sabemos que os Serviços de Inteligência, tanto espanhóis como angolanos, funcionam e enviam as informações para onde devem chegar”.

Já agora – pergunta a fonte – foram também a Elizabeth e o José Manuel que contaram aos jornalistas o que se passou no Brasil?”.

Enviado ao Brasil, em Março passado, para fazer entregar ao presidente Jair Bolsonaro de uma carta do seu homólogo angolano, o então ministro chegou ao Palácio do Planalto, residência oficial do Presidente do Brasil, sem a missiva. O Serviço de Inteligência Externa reportou imediatamente e fífia a Luanda. Num informe enviado às autoridades competentes, a bófia fez constar que Manuel Augusto deixou a carta no hotel onde tinha passado a noite – que não era o hotel onde oficialmente estava alojado. 

Foram os nossos colegas que fizeram a queixa a Luanda?”, repetiu a pergunta. 

A fonte do Correio Angolense termina este raciocínio com uma convicção: “por ser muito chegada ao ex-ministro, Maria Helena Covilhã por certo que sabe que não foi Elizabeth Ferreira e muito menos o motorista português que contaram ao presidente João Lourenço que os fundos que Manuel Augusto deveria fazer chegar ao PAIGC, para apoiar a sua campanha presidencial, foram parcialmente desviados a meio do caminho”.

Em vários círculos da embaixada angolana não  há a menor dúvida de que “a senhora Elizabeth, a mais qualificada funcionária da embaixada, era um incómodo para as trapaças que a financeira vem fazendo. Por isso, encheu a cabeça do embaixador para que despedisse aquela trabalhadora de recrutamento local. Tal como o motorista, ela sabe de muita coisa. Muita coisa mesmo. Factos graves que podem levar algumas pessoas à cadeia. Por isso, foram demitidos. Antes, foram demitidos outros oito angolanos, totalizando nove. São os tais patriotas que preferem dar emprego a estrangeiros que aos seus próprios compatriotas. Preferem os espanhóis porque estes não querem saber se o Estado está a ser roubado ou não”.

A fonte alertou que além de irregulares à luz da legislação de Espanha, os actos praticados pela embaixada sujeitam-na a acções trabalhistas que lhe vão custar dinheiro. “A embaixada não está a indemnizar os despedidos de acordo com o que estabelece a lei. Em vez de pagar 45 dias por ano, pagou 20 dias. Com isso, arrisca-se a perder duas acções trabalhistas que podem ficar muito mais caras que o valor real das indeminizações. É que, o processo foi mal conduzido. Fizeram-no como se fosse uma empresa, quando as representações diplomáticas se regem por normas diferentes nestes casos”

Contactada pelo Correio Angolense, Elizabeth Ferreira, que se encontra em período de adaptação a um transplante de medula, confirmou que na última semana foi efectivamente notificada pelo gestor laboral da embaixada sobre o despedimento, mas negou-se a comentar a questão. “Fui despedida sim. O caso já está nas mãos do meu advogado e mais não digo”. 

Da embaixada de Angola o  Correio Angolense não conseguiu qualquer pronunciamento uma vez que ela está encerrada devido à pandemia da Covid’19.