Uma perversão, aparentemente inocente. 

O novo ministro da educação do Brasil é negro e  almirante na reserva.

Pela segunda vez,  o presidente do Brasil nomeia um negro para o primeiro escalão do seu governo evangélico-militar e não é por acaso. Adiante, mais sobre a matéria. 

No seu primeiro governo civil não figurava nenhum negro. O único negro de destaque da sua entourage é um guarda-costas. Usou-o durante a campanha eleitoral como escudo contra as abundantes críticas de racismo. Nos vídeos que publicava nas redes sociais era personagem sempre presente. Sempre atrás dele, como uma múmia, um figurante. 

A longa folha de insultos contra os negros, na boca de Bolsonaro, viraram memes.

Certa vez, numa visita a um kilombo urbano, no Rio de Janeiro, Bolsonaro não se coibiu de abrir a sua boca ariana à imprensa e afirmar com todos os seus dentes brancos como os dentes brancos que todos os negros possuem na cavidade bucal que estes procriavam (“como ratos”) e que era preciso aplicar-lhes a castração. Noutra ocasião, referiu-se jocosamente ao formato das cabeças dos “paraibas”. A Paraíba é um estado do nordeste brasileiro, região que não votou nele como desejava. Em São Paulo, sobretudo, “os paraibas” são alvo de todo tipo de tratamento discriminatório, tal como os negros. Alegadamente, o desenho habitual do crânio de brasileiros nascidos ali seria anormal ou descomunal.

Para uma primeira experiência governativa Bolsonaro nomeou um negro para a importante “Fundação Palmares”, alinhado com o que a imprensa chama de “núcleo ideológico ” do governo. Veio a revelar-se um excelente instrumento nas mãos de Bolsonaro para os ataques racistas aos negros. Nesse núcleo é estrela a ministra da família e dos direitos humanos, a Senhora Adamares, conhecida pelas suas posições políticas esdrúxulas. Como: “mulher não deve estudar muito“; “lugar de mulher é na cozinha e cuidar dos filhos”. A respeito da primeira “convicção sexista ” disputa a autoria primária com o auto-proclamado bispo (letra minúscula propositada) Edir Macedo. Depois deste modesto introito, os factos e a análise. Sérgio Camargo e Carlos Alberto Decotelli. O primeiro é o presidente da “Fundação Palmares ” e o segundo, o novo ministro da Educação nomeado. A sua posse no cargo está congelada e pode mesmo não vir a estufar o cadeirão. Depois de nomeado – e este é um detalhe no mínimo estranho – só depois da nomeação veio a revelar-se a sua trajectória acadêmica obscura. Na Alemanha e na Argentina. Cereja no topo do bolo: é acusado de plagiar avulsamente obras alheias com as quais enxertou o trabalho de defesa do seu mestrado em economia e gestão pela “Fundação Getúlio Cargas “(FGV). 

Sérgio Camargo e Carlos Alberto Decotelli: não tarda, descobrirão que ambos não passam de vítimas da perversão racista de Bolsonaro
 

Em sua defesa, arguiu que se trata, na sua visão atabalhoada, de “gralhas técnicas” que agora promete corrigir. Tão logo soube da nomeação de Decotelli, Sérgio Camargo rasgou-lhe infindáveis elogios,  “não por ser negro, como eu, mas pelo mérito.”

A esta hora, Sérgio Camargo deve estar à procura dum buraco para enfiar a cabeça. 

Não tarda, descobrirão que ambos não passam de vítimas da perversão racista de Bolsonaro.

PS: Terça-feira a noite Bolsonaro desistiu da nomeação de Decotelli.

Confrontado com as “piruetas” descobertas no seu curriculum, o ex-futuro ministro da Educação do Brasil deu uma explicação no mínimo patética.

Ao jornalista William Waack, da CNN, ele afirmou que os erros no seu currículo se tratavam de “inconsistências explicáveis”

Aceitei a proposta do presidente Jair Messias Bolsonaro e comecei a desenhar então um projeto para implementar no comando do MEC”. Esse projeto foi questionado pelo fato da minha inconstistência curricular, inconsistências essas que, no mundo acadêmico, são explicáveis. São citações, quantidade de citações, maneira de pesquisas, registros ou não registros. Mas a destruição da continuidade veio pelo fato da construção fake da Fundação Getúlio Vargas divulgar que eu nunca fui professor da FGV. Então essa informação divulgada pela FGV fez com que o presidente me chamasse e dissesse: ‘se até a Fundação Getúlio Vargas, onde o senhor trabalha há 40 anos, ministrando curso, vários de seus alunos têm seu nome impresso no certificado, está negando que o senhor não é professor da FGV, então aí é impossível o governo continuar sendo questionado sobre essas inconsistências no seu currículo’. O que, portanto, tornou inviável a minha continuidade, segundo a percepção do presidente hoje, foi o questionamento, carta formal da FGV”.

Sobre o autor. Jornalista, Escritor e Jurista. Sub-Chefe de Redação da RNA. Chefe do "Desk Desportivo " e do Departamento Central de Coordenação da ANGOP. Correspondente da Imprensa estrangeira no Brasil pela ANGOP. Director do Jornal "Angola Magazine", editado no Brasil. Editor na III Série de o "Angolense". Colaborador do "Folha 8." Colunista do "Semanário Angolense."Membro da União dos Escritores Angolanos (UEA ).