Quando foi entrevistado pela TPA, há pouco mais de uma semana, o governador do Banco Nacional de Angola (BNA) pareceu um senhor dono de si, que foi ao estúdio televisivo com a lição muito bem estudada.

José de Lima Massano estava tão à vontade que, a espaços, fez parecer que Sílvia Samara, a entrevistadora, não tinha feito bem o seu trabalho de casa.

A algumas perguntas, o governador do BNA permitiu-se mesmo responder com alguma ironia e noutras respostas foi desafiador.

Honestamente, não acredito que algum banco lhe tenha dito isto. Não acredito. Eu disputo isto. Eu não acredito”, reagiu à observação de que alguns bancos o acusam de favorecer o BAI na venda de divisas e no contacto com as petrolíferas.

Mas isto é dito publicamente”, retruca a entrevistadora.

Não acredito. Se é publico pode revelar o nome do banco que disse isso”, replicou

 Em resposta a uma outra pergunta, o governador do Banco Nacional de Angola desdenhou dos angolanos ao qualificar como “mitos urbanos” as referências à circulação de enormes quantidades de divisas no mercado informal.

 “Quais são as quantidades? Eu não sei. Nós no Banco Nacional chamamos a isso mitos urbanos. Não sabemos qual é origem do dinheiro que alimenta o mercado paralelo”. Neste momento qual é o volume de transações que temos no informal? A pandemia veio mostrar-nos o volume. Fizemos um trabalho recente sobre o mercado cambial e constatamos que as  operações que ocorrem na rua são de muitos pequenos montantes. O ponto de entrada de notas neste momento está fechado porque a Sra. pandemia ajudou a fechar ou a detectar o problema”. 

Alternando a altivez com a zombaria, José de Lima Massano “baixou um pouco a bolinha” quando a entrevistadora lhe questionou sobre as suas acções no Banco Africano de Investimento.

Na minha primeira passagem pelo BAI parte daquilo que se chamava pacote a que tinha direito como presidente da Comissão Executiva era o direito a acções no próprio banco e estava relacionado com desempenho. Mas durante o tempo que lá estive acabamos por ter este processo nunca formalizado. O que tive, sim, foram prémios que eram atribuídos no final de cada exercício”, justificou. A resposta deixou a entrevistadora da TPA e os telespectadores do programa Grande Entrevista sem saber se o governador do BNA mantem ou não as suas acções no BAI.

Se estivesse disposto a esclarecer tudo, o governador poderia ter aproveitado a mesma pergunta de Sílvia Samara para fazer, também, uma digressão pelas instituições financeiras onde tem interesses. Tais são os casos da Fénix- Gestão de Activos e BPC Imobiliária, ambas subsidiárias do Banco de Poupança e Crédito. Mas Massano nada disse a respeito.

Em Outubro de 2019, acossado pelo Maka Angola sobre as suas participações financeiras nas já referidas entidades, José de Lima Massano chamou a imprensa, mas tergiversou.  Disse que apesar do seu nome constar da lista dos accionistas das duas instituições, ele já teria transferido as suas acções ao Banco de Poupança e Crédito.

Interrogado sobre quando e quais os procedimentos usados para a transferência das acções, o já então governador do BNA nada disse.  

Transcorrido um ano, José de Lima Massano continua, de facto e de jure, a ser acionista quer da BPC-Imobiliária, quanto da Fénix-Gestão de Activos.

Até hoje ele não formalizou qualquer acto que o desvincule daquelas entidades”, garantiu ao Correio Angolense fonte conhecedora do assunto. 

Nos termos da lei, após a sua nomeação, o governador do Banco Nacional de Angola obriga-se a renunciar a todas as participações que tenha em sociedades comerciais.

No próximo mês de Outubro, completar-se-ão três anos desde que o Presidente João Lourenço reconduziu Massano no governo do Banco Nacional de Angola.

Não obstante todo este tempo no exercício do cargo, não há prova material de que Massano tenha aberto mão das suas acções nas já referidas sociedades comerciais.

Não existe qualquer registo conhecido de que ele se tenha retirado das sociedades de que é sócio”, reiterou a mesma fonte do Correio Angolense, para quem não há voltas a dar: ‘Massano está a violar a lei”, reforçou a mesma fonte.

Ou seja, o governador do Banco Nacional de Angola continua a ter interesses em sociedades comerciais detidas pelo BPC, o banco cuja actividade supervisiona. 

“Ou seja, quando o Sr. Massano está nas cercanias do BPC não se sabe se o faz na qualidade de acionista de empresas do BPC ou se na qualidade de supervisor do sistema financeiro angolano”.

Em linguagem terra-a-terra, dir-se-ia que Massano é árbitro e jogador.