SOMOS UMA COMÉDIA

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Em Fevereiro de 2018, o Serviço de Investigação Criminal (SIC) e a Interpol anunciaram a apreensão de uma quantidade estimada entre 400 a 500 quilos do que era suposto ser cocaína. A apreensão foi feita no porto comercial de Luanda.

A presumível droga estaria a bordo de um navio proveniente do Brasil. Não foi noticiada a detenção de qualquer indivíduo com ligação à presumível droga.

Passados 2 anos, ninguém foi presente a tribunal para responder pela entrada da suposta droga em Angola. Quer o SIC quanto a Interpol nada dizem, agora, sobre o paradeiro da suposta droga. Quando foi anunciada a apreensão da suposta droga à opinião pública chamou atenção o facto de quer o SIC quanto a Interpol aparentemente não possuírem balanças para pesar as mercadorias que apreendem. No caso da presumível droga vinda do Brasil, as duas entidades estimaram o seu peso entre 400 a 500 quilogramas. Outra anomalia foi que ambos, SIC e Interpol também puderam ou não quiseram determinar se o destino da droa seria Luanda ou se seria outro porto que o navio escalaria. No dia 10 de Agosto deste mês, mais de dois anos corridos sobre a apreensão da droga que teria vindo do Brasil e da qual aparentemente se perdeu o rasto, o Tribunal Provincial de Luanda condenou o cidadão Waldir Carlos a quatro anos de pena de prisão pelo crime de tráfico de cocaína. À data da sua detenção, em Novembro de 2019, Waldir Carlos teria na sua posse 8 kg de cocaína. Na altura, o Comissário Waldemar José, director do Gabinete Institucional e de Imprensa do Ministério do Interior, classificou Waldir Carlos como coordenador de uma rede de distribuição de substâncias narcóticas, que actuaria em Luanda. Seria esse papel e actuação que valeram ao cidadão Waldir Carlos o pesado qualificativo de barão da droga com que foi apresentado ao tribunal. Com isso, o cidadão Waldir Carlos é exposto à obrigação do pagamento de “roialties” a Joaquín Archivaldo Guzmán Loera (El Chapo), Ismael Zambada García (El Mayo), Rafael Caro Quintero (El Mencho), José Adán Salazar Umaña (Chepe Diablo), alguns dos maiores traficantes de cocaína do mundo, pelo uso da sua marca. Além disso, com a sua inclusão na lista dos barões da droga, o angolano Waldir passa, também, a estar sob apertada vigilância do Departamento Anti-Drogas dos Estados Unidos, uma instituição que está para os traficantes como a sanguessuga  para os humanos.

“Barão” Waldir Carlos: além da pena de prisão, terá de pagar roialties aos traficantes mundiais pela partilha  do título nobiliárquico…

O Tribunal Provincial de Luanda condenou Waldir Carlos pelo crime de posse de 201 gramas de cocaína. Na sentença do tribunal não há qualquer “peugada” dos restantes 7.800 kg. Ninguém se interessou pelo seu paradeiro? Estranho! Aliás, o desaparecimento de droga, especialmente de cocaína, sob as suas barbas, já começa a ser uma marca registada do Serviço de Investigação Criminal.

Em Fevereiro deste ano de graça de 2020, a Procuradoria-Geral da República anunciou com fanfarrice a apreensão de mais de 1.000 imóveis inacabados na urbanização Vida Pacífica e no Kilamba.  Em comunicado, a PGR sustentou que os imóveis apreendidos teriam sido erigidos com recurso a fundos públicos e estariam na posse de individualidades preponderantes do ancien regime. Embora não tivessem sido referidos explicitamente, os nomes dos generais Kopelipa e Leopoldino Fragoso do Nascimento “Dino” foram associados aos empreendimentos apreendidos. Para “encorajar” a repulsa da população, a PGR foi exaustiva na caracterização do património imobiliário que seria detido pelas referidas individualidades: 24 edifícios, duas creches, dois clubes náuticos, três estaleiros, 1.108 imóveis inacabados, 31 bases para a construção de edifícios, 194 bases para a construção de vivendas, além de vastos terrenos.

Casas tomadas no Kilamba reduzidas a esqueletos. Bom trabalho da PGR, sem dúvida…

A “glutonice” foi exposta ao detalhe. Sete meses depois do apoteótico” anúncio e do assassínio moral dos glutões, os edifícios reclamados pela Procuradoria Geral da República tornaram-se pasto de vândalos e ladrões. As imagens feitas esta semana a alguns desses empreendimentos sugerem que crime não é apenas aquele que foi presumidamente cometido por Kopelipa e Dino. Crime é também o que está a ser praticado pela PGR ao entregar ao abandono casas e edifícios numa cidade em que milhares de cidadãos não hesitariam em rastejar,  se este fosse o preço a pagar por um mísero tecto. Se a PGR e o Governo não sabiam o que fazer àquele património, teria sido preferível deixá-lo sob a guarda ou controlo de quem o mandou erigir. Seguramente, abrigaria milhares de famílias angolanas. Vamos repeti-lo: o que as imagens mostram é crime no mais puro conceito da palavra.

 

Nos primeiros dias deste mês, o Club-K noticiou que a presidente do Conselho de Administração do Banco de Comércio e Indústria (BCI) atribuiu a si mesma um empréstimo de mais de 400 milhões de kwanzas para a compra de um imóvel. Segundo aquele portal,  no dia 28 de Janeiro, a cidadã Zenaida Gertrudes dos Santos Ramos Zumbi assinou com o BCI um Contrato de Abertura de Crédito Habitacional para a aquisição de uma casa no valor de 320 milhões de kwanzas. Quatro meses depois, a mesma cidadão assinou com o mesmo BCI um contrato adicional de crédito de 100 milhões de kwanzas para não só fazer face “às alterações constantes do sector financeiro de modos a permitir a execução das obras de expansão ao imóvel”. Os dois contratos foram assinados pela cidadã Zenaida Zumbi e por Zenaida Zumbi, presidente do Conselho de Administração do BCI. Ou seja, a mesma Zenaida simultaneamente nos dois lados da mesa. A meio da semana em curso, a presidente do Conselho de Administração do BCI criou uma comissão de inquérito para investigar a fuga de informação que permitiu que a opinião pública tomasse conhecimento do grande pasto de cabritos em que o BCI se transformou. Em concreto, Zenaida Zumbi quer que a comissão lhe diga que vazou para fora do banco o contrato de crédito que a PCA do BCI concedeu à cidadã coincidentemente chamada Zenaida Zumbi. À presidente do BCI não incomoda nem um pouco que tenha pontapeado uma disposição legal do próprio banco que veda aos membros do seu Conselho de Administração a concessão de créditos a si mesmos. De acordo com. Aquela disposição, as “as instituições financeiras não podem conceder crédito, sob qualquer forma ou modalidade, incluindo a prestação de garantias, quer directa ou indirectamente, aos membros dos órgãos de administração ou fiscalização equiparados, nem a sociedades ou outros entes colectivos por eles directa ou indirectamente dominados”. À PCA do BCI interessa, apenas, ter o nome ou nomes das “gargantas fundas” que denunciaram o seu acto de cabritismo. Zenaid Zumbi chegou à presidência do BCI pela mão da ministra das Finanças, de quem se sabe ser amiga. Antes do BCI, ela passou pelo BPC, instituição que também tem o hábito de ir atrás não da mensagem, mas do mensageiro. Há pouco mais de um ano, então sob a presidência de Ricardo D’Abreu, o BPC anunciou um inquérito para apurar os responsáveis pela divulgação de uma lista com os maiores devedores do banco. A Ricardo D’Abreu preocupou mais a fuga de informação do que a exposição pública dos nomes caloteiros responsáveis pela sua crónica situação deficitária. Zenaid Zumbi “captou a mensagem” e agora no BCI desvaloriza o seu acto de puro cabritismo e quer a cabeça ou cabeças dos que deram com a língua nos dentes sob o argumento de que a fuga de informação revela a ausência de sigilo profissional.

Milagre no BCI: a presidente do Conselho de Administração consegue sentar-se, simultaneamente, em lados opostos da mesma mesa

Aos amigos e à própria clone, Zinaida Zumbi tem dito que “o vazamento de documentos prejudica a credibilidade de um banco que se prepara para a sua privatização”.

O que, seguramente, afastaria qualquer interessado na compra do banco não é apenas a fuga de informação, mas também e sobretudo a falta de pudor, probidade e vergonha da actual liderança do BCI.

No domingo, 9, o secretário de Estado da Saúde, Franco Mufinda, deu uma boa notícia aos angolanos.  Segundo ele, na véspera daquele dia em todo o país tinham sido confirmados apenas 7 casos de infecção pelo corona vírus.  Os angolanos ainda não tinham acabado de digerir a boa nova quando o próprio Franco Mufunda se encarregou de lhes servir o purgante: a baixa estatística não reflectia qualquer recuo da pandemia em resultado da uma estrondosa resposta das autoridades sanitárias do país. Nada disso.

Franco Mufinda: ao secretário de Estado da Saúde aplica-se a velha máxima segundo a qual quem fala verdade não merece castigo…

Segundo explicou, o “número baixo de casos novos reportados deve-se a uma avaria técnica no aparelho de biologia molecular do laboratório de maior fluxo”.

Isto mesmo: a avaria do aparelho transmitiu a momentânea ilusão de que a pandemia estaria a recuar. Habituados a discursos que enaltecem os imensos recursos financeiros que o Estado despende na luta contra a pandemia, além da ladainha sobre os incalculáveis “esforços” a que os membros do Governo se entregam de corpo e alma, na sua ingenuidade muitos angolanos acreditaram que a “pipa” de 43 biliões de kwanzas já consumida teria contemplado a aquisição não de um mais de vários aparelhos  de biologia molecular. Muitos acreditaram que o Governo teria adquirido  vários desses equipamentos que lhe permitiriam seguir com dados fiáveis a evolução da pandemia do corona vírus. Afinal, é tudo papo furado.

Bastou a avaria do único aparelho de biologia molecular no laboratório de maior fluxo  para que ao país fosse transmitida a ilusão de que a pandemia está em regressão.

Os quatro exemplos, escolhidos aleatoriamente, dizem-nos que alguém precisa de despertar os angolanos. Por certo, temos sido dominados, apenas,  por um prolongado pesadelo.  É que há aqui coisas absolutamente inconcebíveis num país que é suposto ser governado por pessoas adultas, sérias e dotadas de um mínimo de sensatez.

O tribunal que fechou os olhos ao desaparecimento de 7.800 kg de cocaína e condena a pena de 4 anos um cidadão pela posse de 201 gramas merece  a nossa consideração?

Com o desfecho do julgamento de  Waldir Carlos pode-se ter perdido, irreversivelmente, a imagem de respeitabilidade e seriedade que a generalidade dos cidadãos tem dos tribunais.

O chocante abandono a que estão entregues os imóveis reclamados pela PGR como pertença pública diz-nos que há gente para quem brincadeira é para toda hora e momento.

Gente que decide assim não partilha o mesmo país onde milhões de cidadãos estão expostos ao sol, chuva e outas inclemências da Natureza por falta de tecto acolhedor. Como e diz na gíria, “esta gente não é como nós”. Vive em outra galáxia. O caso do BCI é a prova provada que a o amiguismo e o  compadrio continuam a ser determinantes na escolha dos gestores de importantes instituições públicas. Também prova que, sob o Governo do Presidente João Lourenço, a impunidade continua a prosperar. Num país sério, a PCA que concedeu crédito milionário à sua clone já estaria em casa, a aguardar a conclusão de um inquérito que, inevitavelmente, recomendaria a sua imediata exoneração. Já sobre a ilusão de que a taxa de infecção do corona vírus teria caído, o mínimo que se pode dizer é que a Comissão Intersectorial de Prevenção e Combate à Pandemia da Covid-19 merece ser…felicitada pela sua comprovada capacidade de iludir os angolanos.