Explicação do Google: “As carraças são parasitas externos, artrópodes pertencentes à Ordem Acarina, que se alimentam do sangue do hospedeiro. (…) Existem muitas espécies de carraças.”
Em Angola, as carraças mais visíveis e abundantes, nas ruas de Luanda, são de duas espécies: a carraça Fiscalis e a carraça Polícia. A primeira tem um uniforme preto com colete azul, a segunda carraça veste de azul.

Estas espécies são diferentes de todas as outras já catalogadas pelos entomólogos, ou seja, os cientistas encarregues de estudar os insectos. A grande diferença é que as duas espécies parasitárias angolanas se alimentam de gasosa, enquanto que as minúsculas espécies dos outros países se nutrem de sangue. As carraças de uniforme em Angola têm a boca muito doce, de tanta gasosa beberem. Há até carraças da estirpe Polícia que oscilam sob a camisa azul um divumo saliente, devido ao apetite insaciável pela gasosa. Essa gasosa que chupam às classes trabalhadores representa, para o magro pé de meia do sugado, um imposto adicional ao que a AGT já cobra no salário. No tempo colonial, pagávamos imposto, ou íamos para o contrato. Hoje, pagamos um imposto oficial, deduzido directamente do solário pelo IRT, e outro oficioso, deduzido na rua, em plena via pública (toda a gente a ver, menos os membros do Governo que nunca andam na rua).

Tudo quanto é carrinha ou camião de transporte, kupapata de três rodas ou candongueiro destinados a prestar contributo para a reconstrução do país, é parado pela polícia. Por vezes, autuam choferes por dá cá aquela palha. Ia uma senhora ao volante de um Land Rover pela via da ponte molhada em direcção ao Belas Shopping. Na sua frente estava um camião parado com os intermitentes acesos. Depois de dez minutos a senhora resolve sair de trás do camião pela esquerda e avançar para a sua vida. Dois agentes de trânsito interpelam logo o Land Rover e retiveram a cidadã, alegando que violara a linha contínua! No fim, deram o IBAN à referida senhora para esta (que não trazia dinheiro vivo consigo) lhes transferir “um almoço para os teus filhos”.

A segunda “carraça” mais incómoda de Luanda veste de azul

Ora, se as verbas atribuídas ao Ministério do Interior para este ano foram orçamentadas em 500 mil milhões de kwanzas, porque é que os efectivos da Polícia Nacional mandam parar viaturas na via pública apenas com o intuito de pedir “um almoço para os teus filhos”, gíria comumente utilizada pelos membros da corporação?

Corria o ano de 2015. Já não me lembro do dia certo, mas sei que foi pelo fim da manhã, quase 11 horas. Estava eu a engraxar os sapatos defronte ao restaurante São João, no Maculusso. À minha esquerda, de costas para a rua, estava parado um zungueiro de óculos de sol, com o seu cartão cheio de óculos, aproveitando ver se os vendia a algum dos inúmeros clientes expatriados que todos os dias entram no restaurante.

De repente, na estrada que vem do colégio Elizângela e dá para a Rua da Liga Africana, ali mesmo em frente ao restaurante e às bombas de combustível, pára uma carrinha Land-Cruiser da Fiscalização. Muito lenta e sorrateiramente, salta um fiscal à paisana, vem andando na direcção do zungueiro de óculos de sol, que estava de costas para a rua e olhava para a entrada do restaurante. O fiscal chegou muito devagar, espeta a mão direita entre as pernas do zungueiro e segura-lhe nos órgãos genitais com força. O zungueiro, um homem dos seus 30 anos, ficou paralisado. Nem soube o que lhe estava a acontecer. Saltou da carrinha outro fiscal e agarrou no cartão dos óculos. Eu fiquei igualmente paralisado. Pensei que o zungueiro iria apanhar um ataque cardíaco, porque olhava para a frente e não disse palavra quando lhe levaram os óculos. Nunca tinha visto uma tortura daquele género, em pleno céu aberto. 

Infelizmente, estando nós no século XXI, e retirado o colonialismo português há 45 anos, ainda nos são dadas ver cenas que nunca vimos no outro tempo, protagonizadas por instituições do Estado chamadas de Fiscalização e Polícia Nacional. E após denúncia, ninguém vai preso, ninguém é julgado, a televisão e os jornais nunca mostram nada do que os altos dirigentes do Interior e da Polícia prometem. Quando, em Junho de 2019, houve aquela agitação no Sambizanga, depois da morte de Manuel José Marcos Ginga, mais conhecido por Daceta, de 22 anos, vítima de espancamento durante dois dias, enquanto esteve detido na 9ª Esquadra da Polícia Nacional, o antigo ministro do Interior prometeu um inquérito de que até hoje ninguém mais ouviu falar.

Cm os dentes afiados e sedentos de gasosa, os fiscais fazem batidas por toda a cidade, rebocando viaturas e multando quem estiver a fazer obras “não licenciadas”. Muitas vezes, as licenças demoram bué. Em Luanda, o pobre tem de pagar gasosa para obter licença, para obter documentos, enfim, para viver. O dinheiro que deve entrar para os cofres do Estado é comido pelas carraças de uniforme.

De novo, explicação do Google: “As carraças passam a maior parte da sua vida no ambiente externo (e não no hospedeiro), pelo que se justifica actuar sobre o ambiente para prevenir a infestação …”

O nosso Executivo, tal como Pilatos, vai continuar a lavar as mãos?

Escritor, jornalista e docente de língua portuguesa, reparte as suas múltiplas competências académicas e intelectuais pelas áreas de formação contínua, o ensino e o activismo cultural pelo fomento do livro e da leitura