Angola sem teste para o Covid-19 nos próximos dias

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Uma imperdoável falha da Direcção Nacional de Medicamentos e Produtos de Saúde, determinada possivelmente por negligência, levou à ruptura de aprovisionamento de testes no Serviço Nacional de Saúde. 

Angola deve ficar sem testes para o Coronavírus nos  próximos dias devido à ruptura do aprovisionamento.

 A informação foi avançada ao Correio Angolense por fonte do Ministério da Saúde, segundo a qual praticamente já não há, no Sistema Nacional de Saúde (SNS), testes para o diagnóstico de Covid’219. “Os testes vão acabar nos próximos dias. Estão a chegar ao fim, tanto os testes rápidos como os RT-PCR”, disse. 

“As reservas são residuais, razão por que, saímos dos 100 testes positivos para menos de metade. Locais de testagem como a Escola Técnica de Saúde e o Hospital Esperança estão a testar em quantidades irrisórias. Neste momento, provavelmente apenas a Luanda Medical Center (LMC) não tenha o seu aprovisionamento em risco de ruptura”, indicou a fonte.

De acordo com a fonte, a quebra de stock deve-se à deficiente planificação por parte da Direcção Nacional de Medicamentos e Produtos de Saúde do MINSA. Para ela, essa falha demonstra falta de profissionalismo. “Os manuais de Medicina e o Protocolo da OMS são claros: em casos como estes que estamos a viver deve-se testar pelo menos 25% da população. Isto quer dizer que deveríamos ter adquirido, pelo menos, 7,5 milhões de testes, tendo em conta que somos em torno de 30 milhões de habitantes. E o problema não é dinheiro, porque o Banco Mundial tem uma linha de crédito aberta para fazer frente à pandemia”, explicou.

Para o interlocutor do Correio Angolense é estranho que não tendo ainda chegado às 50 mil amostras processadas – em rigor foram contabilizadas 49.385 até domingo último, 16, segundo o secretário de Estado Franco Mufinda –, a provisão já esteja no fim. “E atente que uma parte significativa dos testes feitos é do sector privado e não do SNS”, detalhou antes de acrescentar que “houve claramente uma falha, visto que governar é também prever e no caso vertente bastava que se consultasse o protocolo da OMS e os manuais de Saúde Pública”.

A fonte do Correio Angolense assegurou que, à luz da grande demanda mundial de testes, é muito provável que, na melhor das hipóteses, o país venha a tê-los só daqui a dois meses e mesmo assim correndo o risco de não ter os melhores produtos do mercado. “Quando se está pressionado pelo tempo, o perigo de se comprar gato por lebre é alto. Se países sérios, onde a vigilância sanitária é apertada, foram enganados, o que dizer de Angola que está entre os 15 países mais corruptos do Mundo, segundo a Transparência Internacional?”,indagou.

O funcionário sénior do MINSA, que não quis ser identificado, afirmou serem várias e gravíssimas as consequências dessa ruptura, a começar pelo facto de que quem está infectado não terá o seu estado monitorado. “Até à eventual alta, são necessários dois testes. Os que estão internados ou em quarentena continuarão nos hospitais ou receberão alta mesmo sem se saber qual o seu estado serológico?”, questionou novamente para depois acrescentar que “os que estiverem em quarentena institucional e domiciliar não terão os testes de progressão em dia”. Além dessas, apontou outra consequência não menos grave: “Quem pretende viajar não o conseguirá fazer porque não terá como apresentar o resultado do teste exigido”.

Por outro lado, Correio Angolense soube de outra fonte que num fórum realizado recentemente numa plataforma electrónica  técnicos do Instituto Nacional de Investigação em Saúde (INIS) terão dito que em momento algum garantiram às altas hierarquias do MINSA ou publicamente que os testes rápidos serviam para diagnóstico da Covid’19, auxiliando apenas no rastreio epidemiológico. 

Em relação a esta declaração, a fonte coloca uma série de questionamentos como, por exemplo, a circulação de camionistas para lá e para cá da cerca sanitária de Luanda, com base em testes rápidos. Além de questionar a responsabilidade da autorização de circulação de camionistas com resultados negativos em testes rápidos, ela não descarta a possibilidade de muitos falsos negativos ditados pelos testes rápidos terem levado de Luanda a doença a outras províncias. “O cenário é preocupante, na medida em que pessoas sabidamente com a enfermidade são submetidas ao teste rápido”