Como um gesto de indisciplina táctica foi decisivo para a mãe de todas a vitórias!

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Numa altura em que não havia scouting e as equipas chegavam aos campeonatos sem se conhecerem, a Selecção de Angola alcançou a final mais ou menos de forma inesperada e, apesar das dificuldades e de todo o favoritismo da fortíssima RCA de Goporo, Lavodrama e Debat, ergueu merecidamente o primeiro título africano para o país que sequer havia completado cinco anos de independência e recomeçava do zero em quase tudo!

O calendário assinalava 13 de Setembro de 1980. Era o dia de todas as decisões e dos mais importantes da história de Angola, que sofria os horrores de uma agressão militar por parte o regime segregacionista da África do Sul. Depois de ter palmilhado todos os degraus de uma escada íngreme, a Selecção Nacional de juniores chegava à final da 3.ª edição do Campeonato Africano de juniores.

Iria defrontar a selecção da RCA, que até alvançar ao último degrau da escada havia “despachado” quase todos os adversários com “chapa 100”. No grupo A começou pelo então detentor do título, Egipto, a quem venceu por 101-59, seguindo-se Moçambique (96-49) e Guiné-Equatorial (145-50). Nas meias-finais, o adversário foi a Nigéria, num autêntico “duelo de gigantes”. Os centro-africanos também triunfaram com o impressionante registo de 107-87, deixando pelo caminho Hekeem Olajwon e companheiros.

Angola, por seu turno, chegou a final sem ter registado nenhuma “chapa 100”. Nas meias-finais era a única do quarteto que na fase de grupos não logrou a centena de pontos em qualquer desafio. Teoricamente e mesmo na prática estava uns furos abaixo da RCA, cujos jogadores há muito faziam dupla categoria (sénior/júnior), o que lhes dava grande endurance e larga experiência.

Nelson Ferreira, “capitão” da Selecção de Angola e soldado das FAPLA, no degrau mais alto do pódio do “Africano” de juniores.

Para chegarem a final, os rapazes de Mário Palma somaram por vitórias as quatro partidas disputadas. Primeiro as três do Grupo B, de que era cabeça de série, iniciando com vitória de 99-59 frente ao Togo. Depois, aos pés de Angola caíram sucessivamente Líbia (74-42) e Nigéria (87-77), naquele que foi o mais espectacular desafio da primeira fase. Foi um jogo bastante equilibrado, tendo iniciado com muitos nervos de parte a parte, de modo tal que só aos três minutos começou a funcionar o placard, inaugurado pelos nigerianos. Nas meias-finais, Moçambique soçobrou (89-75) face aos inquestionáveis argumentos técnico-tácticos do “cinco” angolano. Nas bancadas drapejavam faixas com incentivos à equipa nacional. Numa delas podia-se ler: “Somos juniores” e noutra: “Optimismo rapazes”.  

Depois disso, chegou o “Dia D”. Com a sua força extraordinariamente mobilizadora a Rádio Nacional de Angola e, de um modo geral, toda a comunicação social angolana convocaram os angolanos para a decisiva jornada de 13 de Setembro. Na mídia passava constantemente a mensagem de que a RCA tinha alguns jogadores com idade adulterada. Adeptos e jogadores mentalizaram-se que iriam defrontar uma equipa de seniores e por isso não estavam obrigados a ganhar a qualquer custo. Isto retirou pressão à equipa, que abordou o jogo pelo jogo. Na bancada havia um dístico com as inscrições “Angola juniores – RCA seniores Somos Campeões!”

Nas hostes da RCA havia muita confiança na vitória, mesmo após a substituição do técnico americano Cristopher Pond na véspera da final por desacatar uma “ordem superior”. Na condução técnica do jogo, o lugar do treinador foi ocupado pelo chefe de delegação Gaston Gambor, ele um antigo basquetebolista centro-africano. Passavam poucos minutos das 19h00 e as duas equipas adentraram a quadra. Angola desfilou com o seu habitual cinco inicial composto por Victor Almeida, José Carlos Guimarães, Rui Aguinaldo, Nelson Ferreira (capitão) e Artur Barros. Por seu turno a RCA entrou com Frèderic Goporo, Dominique Pounzi, Bruno Kongawoin, Mamadou Dèbat e Anicet Lavodrama. A diferença de estatura entre ambas as equipas era acentuada. O mais alto de Angola era Artur Barros com 1,94 m e o da RCA era Anicet Lavrodrama com 2,04 m, separados por… 10 centímetros! Este era também o reflexo da diferença morfológica entre os dois conjuntos! Os visitantes eram claramente favoritos ao triunfo final, numa “Cidadela” que conheceu naquele dia a maior enchente desde a sua inauguração em Junho de 1974.

Hakeem Olajwon, à esquerda de Nelson, recebe o prémio de melhor poste do torneio das mãos do ministro da Educação, Ambrósio Lukoki.

No dia do grande desafio o Jornal de Angola escrevia na sua previsão que “sobre esta partida é melhor ser realista, não fazer muitos comentários. É melhor esperar pelos 40 minutos. Mas uma coisa é certa: do segundo lugar, de certeza, já ninguém nos tira”. O título do comentário foi “Do segundo lugar ninguém nos tira”. Havia algum conformismo nas fileiras angolanas e o segundo lugar era como que um título continental. Afinal, os juniores de Angola defrontariam os “calmeirões” da RCA com as suas idades adulteradas, conforme postulava a comunicação social…

Quando o árbitro apitou para início da contenda, os angolanos assenhoraram-se momentaneamente da partida. Mas foi sol de pouca dura. Aos 10 minutos a equipa centro-africana havia chegado à igualdade no placard e passado para a frente com 17-16. Em toada de parada e resposta a partida se foi desenrolando, com a RCA sempre na liderança da contagem, mas sem nunca alcançar diferença substancial. O equilíbrio estava a ser a nota dominante, com os dois números 14, José Carlos Guimarães e Mamadou Debat, a se destacarem na marcação de pontos. Ao intervalo a vantagem era da turma forasteira por 32-28.

Esperava pelos jogadores angolanos momentos tormentosos na segunda parte. Mas nos primeiros minutos reagiram bem e deram a volta ao resultado, colocando-se em vantagem por 40-38. O adversário não se impressionou e recorrendo inúmeras vezes a passes longos surpreendia muitas vezes a equipa de Angola, que quase de imediato perdeu a vantagem no marcador. Ponto a ponto Lavodrama e companheiros iam construindo o placard a seu favor. Para desespero dos adeptos e do “banco” os contra-ataques da turma da casa não saíam na perfeição e para mal dos pecados ainda se permitia ao luxo de falhar lances-livre que melhoraria a robustez dos seus números.

Os bravos rapazes que pela primeira vez elevaram o nome de Angola aos patamares do reconhecimento continental

O equilíbrio, entretanto, continuava a prevalecer e aos 10 minutos da segunda parte o jogo registou nova igualdade (52-52). Só que, depois disso os centro-africanos deram um esticão e foram abrindo paulatinamente uma diferença pontual cada vez mais confortável até chegar a nove pontos (63-72) quando faltavam exactos 2,12 minutos. À época os tempos de ataque eram de 30 segundos e não havia linha dos 6,75 metros. O tempo para se consumar a reviravolta era escasso. Parecia que a sorte dos angolanos estava traçada, tudo indicava que iriam soçobrar. Por isso, alguns adeptos, descrentes, começavam a abandonar o pavilhão da Cidadela…

Mário Palma pediu um minuto de desconto de tempo. No regresso à quadra, a equipa angolana optou pela defesa homem-a-homem a toda a dimensão do terreno. Nessa altura, algumas das principais unidades da formação adversária, entre as quais Anicet Lavrodrama, já estavam fora do jogo por ultrapassarem o número de faltas permitidas. Surpreendidos, os centro-africanos não encontraram solução para superar a sólida defesa empreendida pelos angolanos. Aos poucos, a diferença pontual no placard foi diminuindo e em alguns momentos a equipa de arbitragem tomou decisões menos acertadas que ajudaram a encurtar ainda mais os números do marcador. Quando faltavam escassos segundos, desesperado Victor Almeida rompeu com o “protocolo táctico”, empreendendo um gesto que não constava do “manual de procedimentos”. Foi atrás de Frèderic Goporó, roubou-lhe a bola e abalançou-se para o garrafão contrário à entrada do qual arremessou com sucesso quando faltavam dois segundos. A mecânica do lançamento não alvitrava sucesso, mas, miraculosamente, a bola entrou: 73-73! Empate. As bancadas quase vieram a baixo, o público delirou e a equipa centro-africana acusou o golpe.

Hakeem Olajwon, com os seus 2,06 metros de altura, foi das principais atrações do “Africano” de juniores de 1980

No prolongamento, emergiu um inspirado Rui Aguinaldo que marcou quase todos os pontos da equipa, escoltando assim José Carlos Guimarães, consagrado MVP do torneio e baptizado de “menino de ouro” pela voz tonitruante do grande Rui Óscar de Carvalho, que foi traído pela emoção e não conseguiu prosseguir com o relato, passando o microfone para Ladislau Silva relatar os derradeiros cinco minutos. Quando tudo acabou, eram 21h10 minutos e o placard da Cidadela marcava Angola, 90 – RCA, 81. Naqueles tempos de carência extrema não havia champanhe. A água fez de champanhe. No “banco”, abraços e lágrimas. A emoção soltou-se, contagiando todo um país.

Era o primeiro título continental do desporto angolano. O país celebrou de forma arrebatadora, de Cabinda ao Cunene. Foi a primeira noite em que o país não “dormiu” depois do dia 11 de Novembro de 1975, data da independência nacional. Depois disso, pelas cidades espalharam-se várias tabelas improvisadas. Um pedaço de madeira pregado a uma árvore qualquer, com uma jante de bicicleta a fazer de aro era o suficiente para atrair meninos que sonhavam seguir as peugadas dos rapazes que haviam acabado de se sagrar campeões de África. 

Na sequência, as autoridades desportivas aproveitaram a espontaneidade desse movimento e decidiram apostar fortemente na massificação da modalidade. Essa aposta, que incluiu um modelo de jogo adaptado à morfologia do jogador angolano, resultou numa hegemonia de três décadas! Por isso, o triunfo da Selecção Nacional de juniores foi a “Mãe de Todas as Vitórias do Basquetebol Angolano”.

O público teve papel fundamental ao “empurrar” a Selecção Nacional para o título africano…

Como era da praxe, à época o desempenho da rapaziada foi politicamente creditado pelo Jornal de Angola à justeza da opção política do governo de Angola. O sucesso foi catalogado como “uma jornada de emulação socialista em sábado vermelho”. Na ressaca, o único diário do país titulava assim: “Angola, nova trincheira do basquetebol em África”, num trocadilho com o slogan político que rezava ser “Angola a trincheira firme da revolução em África”. Depois o diário acrescentou: “a história se encarregará de lembrar para a eternidade com letras de ouro” o apetecido triunfo. É exatamente isso o que estamos a fazer nesta jornada comemorativa que teve domingo, 13, um webinar a propósito promovido pelo Correio Angolense.

Curiosamente, em 11 de Março de 1980, seis meses antes da conquista do título, Mário Palma prometeu em declarações publicada no suplemento desportivo do Jornal de Angola, que a Selecção Nacional de juniores iria fazer um “brilharete”. Disse, em entrevista concedida a Gustavo Costa, que “(…) há grandes possibilidades de a SN de juniores ter um comportamento brilhante”, previu para depois acrescentar que “a Selecção Nacional de juniores vai ficar nos lugares cimeiros. Nós podemos realmente fazer um excelente campeonato de África de juniores. Penso que o campeonato africano de juniores poderá ser uma grande surpresa e poderá dar uma grande alegria aos angolanos”. O sabia do que falava!

No final de contas, apesar do enorme significado do triunfo, os bravos rapazes tiveram como prémio um relógio. Tempos que não voltam, nunca mais…

Resultados gerais

1.ª Jornada (7 e 8 de Setembro de 1980)

Angola, 99 -Togo, 59 (43-35).

Nigéria, 82 – Líbia, 46

Guiné Equatorial, 62 – Moçambique, 111

RCA, 101 – Egipto, 59

2.ª Jornada (9 de Setembro de 1980)

Togo, 64 – Nigéria, 119

Moçambique, 49 – RCA, 96

Egipto, 103 – Guiné-Equatorial, 51

Angola, 74 – Líbia, 42 (42-22)

3.ª Jornada (10 de Setembro de 1980)

RCA, 145 – Guiné Equatorial, 50  

Líbia, 59 – Togo, 57

Moçambique, 74 – Egipto, 70

Angola, 87 – Nigéria, 77 (42-40)

7.º Lugar (12 de Setembro de 1980)

Togo, 76 – Guiné-Equatorial, 74

Meias-finais (12 de Setembro de 1980)

RCA, 107 – Nigéria, 87

Angola, 89 – Moçambique, 75

5.º Lugar (13 de Setembro de 1980)

Egipto, 2 – Líbia, 0 (*)

3.º Lugar (13 de Setembro de 1980)

Nigéria, 95 – Moçambique, 90

Final (13 de Setembro de 1980)

Angola, 90 – RCA, 81

(*) O Egipto venceu por falta de comparência, em razão de a Líbia não ter aceitado jogar devido a um diferindo político entre ambos os países.

Os heróis da memorável gesta:

Jogadores

4 – Jacinto Neto (CDUA)

5 – Carlos Silva (Petro-Atlético de Luanda)

6 – Vitor Almeida (Ferroviário de Luanda)

7 – Armando João “Lapa” (Leões de Luanda)

8 – Mário Alberto (Petro-Atlético de Luanda)

9 – Tó Ventura (CDUA)

10 – Artur Barros (Petro-Atlético de Luanda)

11 – Rui Neto (1.º de Agosto)

12 – Rui Aguinaldo “Buda” (Petro-Atlético de Luanda)

13 – Alfredo Santiago “Mamoeiro” (Petro-Atlético de Luanda)

14 – José Carlos Guimarães (Leões de Luanda)

15 – Nelson Ferreira (Petro-Atlético de Luanda)

Oficiais

Chefe de delegação: Fernando Vieira Dias “Tio Novato”

Coordenador: Apolinário Monteiro

Técnico principal: Mário Palma

Técnico-adjunto: Alberto Carvalho “Jinguba”

Médico: Paulo Múrias

Fisioterapeuta: António Sousa

Cozinheiro: Fernando Pacheco