JL e as denúncias de Isabel

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Isabel dos Santos não é nenhum modelo de transparência, lisura, ética, empreendedorismo. Ela é antítese desses valores.

Embora goste de repetir o contrário, todos sabemos que o império de Isabel dos Santos foi construído à pala do erário.

Isabel dos Santos teve em José Eduardo dos Santos um pai cúmplice que lhe fraqueou acesso irrestrito a bens e dinheiro público.

A rigor, Isabel não tem um único empreendimento de vulto que não tenha na sua génese dinheiro público. Isabel dos Santos tornou-se uma das donas da UNITEL sem suar às estopinhas. Todo o império dela, é bom sublinha-lo, foi erigido com dinheiro público.

Entrevistada pelo influente jornal britânico Financial Times, em 2013, Isabel dos Santos gabou-se de ter sentido para o negócio desde tenra idade. “Tive sentido para os negócios desde muito nova”. É nessa altura que forjou a lorota de que o seu império começou com a venda de ovos.  

Quer seja nos bancos, na EFACEC, na indústria do cimento, nas telecomunicações, na indústria petrolífera ou nos diamantes, não há uma única porta de negócios de Isabel dos Santos que não tenha sido aberta com dinheiro público.

Em suma, Isabel dos Santos não pode ser chamada em conversa que exalte os bons exemplos de moralidade. Pelo contrário, o nome dela deve ser afastado o mais distante possível.

Presidente continua válida a afirmação de que ninguém é suficientemente rico que não possa ser punido? Ou já nem por isso?

Produto do poder autocrático exercido pelo pai por longos 38 anos, Isabel desenvolveu algumas “taras” que não ficam bem a ninguém. Uma delas é a propensão para a gabarolice.

Por exemplo, sempre que fala da UNITEL fá-lo sempre na primeira pessoa do singular, como se a operadora tivesse sido exclusivamente criada por ela e nem tivesse outros accionistas.

Na entrevista ao Financial Times sugeriu que atingiu o apogeu nos negócios caminhando pelo próprio pé e negou qualquer influência do pai-presidente.

“Há muitas pessoas com ligações familiares, mas que hoje não são ninguém. Se for trabalhador e determinado vai ter sucesso e isso é o principal. Não acredito em caminhos fáceis”.

Agora na entrevista que deu a semana passada ao João de Almeida, da MFM, Isabel reivindicou protagonismo que não lhe pertence. Trata-se do fim do monopólio de São Vicente sobre o seguro petrolífero. “Essa mudança não foi pacífica, ainda houve alguma negociação, ainda foi um pouco difícil portanto no início não fomos bem entendidos, mas  paramos o contrato e fizemos um contrato novo já com valores muito mais baixos, ou seja acertamos um contrato novo que era 70% mais barato do que o contrato anterior e  claro que o contrato já não foi com as AAA, já foi com outra empresa”.

A farra de São Vicente chegou ao fim por via de um decreto presidencial de 30 de Março de 2016, três meses antes da nomeação de Isabel dos Santos para a presidência da Sonangol.

Como se diz na gíria, em muitos aspectos, Isabel dos Santos não vale nada.

Mas, apesar desse seu lado e da sua irresistível tentação para a gabarolice e para o auto-elogio, há, na entrevista, afirmações sobre as quais vale a pena reflectir.

“(…) Percebemos que era por via dos contratos que a Sonangol podia estar a perder dinheiro ou que podia mesmo haver fugas ou desvios de dinheiro da Sonangol. Então começamos a rever esses contratos todos, um a um, desde a imobiliária, à aviação, à venda do petróleo, o setor da saúde; girassol, base da Sonils revimos todos os contratos. E percebemos que realmente havia uma grande sobrefaturação em muitos deles, ou seja, os custos que estavam lá imputados não eram os custos do mercado, e começamos a tentar fazer uma comparação de quanto é que seria um custo normal em relação àquilo que estava a ser cobrado. A partir daí efetuamos muitas mudanças, efetuamos muitos cortes, e o que me espanta é que depois da minha exoneração uma grande parte desses contratos, que eu já havia anulado, foram outras vez renovados e com as mesmas empresas e se não com as mesmas pessoas que criaram empresas novas e sempre com os mesmos preços altíssimos”.

“(…) hoje quando me perguntas se me espanta haverem contas bancárias com tanto dinheiro bom não me espanta, e acho que não deve ser a única conta bancária de pessoas ligadas à Sonangol que tem muito dinheiro. Ou de pessoas que estiveram ligadas à Sonangol, que fizeram muitos negócios e têm muitos ativos. Acho que esta não deve ser a única conta e este não deve ser o único caso”. 

“Outra questão que devemos colocar é a seguinte: a empresa AAA faliu, foi à falência. Como é que é possível que uma empresa que era rentável, dava lucro, durante dez anos ganhou 4 ou 5 mil milhões, portanto 4 Bis ou 5 Bis de dólares, como é que faz falência? E, depois, a seguir aparecem outras empresas chamadas AAA que não sabemos que relação é que tinham com as AAA Seguros, com uma série de ativos? Com prédios, com hotéis, com contas bancárias? Infelizmente, na Sonangol este caso dos seguros não é o único caso. Havia mais casos, há mais casos, nós detetámos vários outros contratos” 

“(…) na questão da aviação, nos helicópteros nós paramos os contratos porque os preços eram altíssimos, e não fazia sentido. A Sonangol é que comprava as aeronaves, a Sonangol é que pagava o combustível, a Sonangol é que pagava os salários, mas para além disso sempre que utilizava os helicópteros pagava o preço como se estivesse a alugar. Então eu pergunto a Sonangol comprou o avião ou o helicóptero está a pagar o salário dos pilotos, está a pagar o combustível, o seguro e sempre que usar a aeronave paga o aluguer a uma terceira empresa como se estivesse a alugar? Haviam empresas de várias pessoas ligadas à Sonangol que beneficiavam desse tipo de esquemas”. 

“(…) se o combate à corrupção é genuíno, acho que a transparência seria bem-vinda.  Acho que uma auditoria à Sonangol seria um sinal positivo, seria um sinal de transparência. Uma auditoria numa empresa esclarece coisas boas e coisas más. Podem ser identificados contratos e investimentos que a Sonangol tenha feito e que eram bons contratos e que eram boas parceiras, que era bons investimentos, bons lucros e com certeza serão também identificados os contratos maus.. os contratos onde tenha havido perda de ativos, ou desvios de fundos e quem efetivamente beneficiou desses contratos, tratando-se da maior empresa pública do país, acho que é um passo normal e maior parte dos angolanos viria com certeza com bons olhos um ato desta natureza”.

 

A Sonangol durante muitos anos tinha comprado jatos, jatos privados que faziam parte da frota da Sonair e quando chegamos à Sonangol nenhum desses jatos estavam em Angola. Tinham desaparecido todos. Nós identificamos nas contas mais de 9 ou 10 jatos de última geração que tinham sido comprados, cada um deles com custos de cerca de 60 milhões de dólares, se não estou em erro, e esses aviões tinham pura e simplesmente desaparecido! Já não estavam em Angola, e tivemos de ir à procura dessas aviões. Encontramos um avião na Ásia, encontramos um avião na África do Sul, outros aviões já registados em nome de outras empresas que já não tinham nada a ver com a Sonangol”.

“É quase impossível combater vícios do sistema com pessoas que estão dentro do sistema (…) Tu não vais conseguir encontrar os esquemas e vícios dentro da organização usando as pessoas de dentro, porque tu não sabes quem está lá dentro, quem está no esquema e quem é que não está”.

A mais intrigante das declarações de Isabel dos Santos é de que a sua administração pôs a direcção do país a par de tudo o que se passava na Sonangol.

 “Da informação que fomos conhecendo da empresa, fizemos várias relatórios, apresentamos esses relatórios inclusive ao PR João Lourenço, na altura ainda era candidato, fomos ao BP do MPLA fizemos a apresentação das diferentes questões que estávamos a levantar dentro da Sonangol e eu sempre tive a esperança que depois de ter informado essas questões, que realmente algo seria feito, mas  foi com grande espanto que vi que quando fomos exonerados a equipa que voltou é a mesma, algumas dessas pessoas inclusive estavam envolvidas nalguns dos casos que detetámos e informamos na altura ao BP do MPLA, estou a falar, por exemplo, da Sonair e a investigação da Sonair, ou em casos como a base da Sonils, ou ainda casos relativos à Sonip,  a parte imobiliária da Sonangol”.

 

 Em 2017, contavam-se já os dias que faltavam para a passagem do testemunho na sua liderança, o MPLA organizou um Luanda um workshop sobre a corrupção, durante o qual José Eduardo fez um inflamado discurso contra uma prática que ele próprio qualificara como o segundo mal que flagelava Angola logo depois da guerra.

Nessa altura, a direcção do MPLA já sabia o que se passava na Sonangol.

Porém, desse patético conclave não saiu qualquer recomendação aos órgãos de justiça para aprofundar as denúncias de Isabel dos Santos, e nem o então já eleito Presidente da República tomou os informes da administração da Sonangol como ponto de partida para o seu compromisso de vergar a corrupção em Angola.

Já de malas prontas, José Eduardo dos Santos, também não moveu palha nenhuma no sentido de dar seguimento às denúncias produzidas pela própria filha, que ele colocou à testa da petrolífera nacional com o suposto propósito de salva-la da anunciada falência.

Se tivesse tomado a peito os relatórios de Isabel dos Santos e sua turma, seguramente a cruzada de João Lourenço teria começado na Sonangol, hoje apropriadamente descrita como o epicentro da corrupção em Angola.

A pergunta é: por que razão MPLA e João Lourenço ignoraram os informes da administração da Sonangol?

Sim, o Presidente da República precisa de explicar aos angolanos por que razão evita tocar na ferida? 

Os angolanos precisam de saber por quer razão o Presidente da República e a Assembleia Nacional, dominada pelo MPLA, não avalizam uma auditoria às contas da Sonangol.

“Ninguém é suficientemente rico que não possa ser punido, ninguém é pobre demais que não possa ser protegido”, João Lourenço, 26 de Setembro de 2017, no discurso de tomada de posse como Presidente da República.

O caso da Sonangol confirma a velha máxima segundo a qual falar é infinitamente mais fácil do que fazer.

É que diante da hecatombe desencadeada pelo furacão São Vicente, casos como os que envolveram Augusto Tomás ou Zenu dos Santos e Walter Filipe nem para “aperitivo” servem…