O “emudecimento” da Polícia podia levar ao caos!

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As redes sociais foram varridas pela informação segundo a qual um “activista” havia sido morto à queima-roupa por um elemento da PN. Esta não reagiu à desinformação e quando surgiu a público para dizer algo sobre a manifestação por si abortada, continuou “muda” em relação à suposta morte de Lando Domingos. Sequer informou aos angolanos quantos detidos e feridos foram!… E a PN tem meios tecnológicos que lhe permitem chegar com a maior celeridade possível onde quiser… 

No dia em que o país celebrou 45 anos de independência política, uma tentativa de manifestação em Luanda marcou a efeméride. Um grupo de jovens viu frustrada pela Polícia Nacional a sua pretensão de se manifestar “pelo fim do elevado custo de vida e por autarquias em 20121, sem rodeios”.

Como acontece sempre nesses casos, logo às primeiras horas da manhã, nas redes sociais começaram a ser enxertadas imagens de suposta actuação truculenta da Polícia Nacional (PN). Algumas dessas imagens são antigas e nada têm a ver com o que se passou efectivamente esta quarta-feira, 11 de Novembro. Na enxurrada de informações desconexas a propósito do que estava a acontecer, falava-se inicialmente em detidos e feridos por elementos da corporação policial. Fotos de Nito Alves e de Laurinda Gouveia surgiram nas redes com legendas a indicar atrocidade policial. 

Em função das informações que iam surgindo, usuários das redes debitavam as repectivas opiniões, a maior parte das quais condenando de forma veemente a suposta actuação brutal da polícia. Isto, mesmo sem que a tal maioria tivesse verificado a veracidade das informações postas a circular nas redes. A onda de solidariedade para com os “activistas” foi crescendo e pouco antes da 15h00 surgiu a informação segundo a qual um presumível activista, de nome Lando Miguel Lundoloki Domingos, teria morrido com um tiro à queima-roupa disparado por um elemento da PN.

Em obediência aos preceitos básicos do jornalismo, o Correio Angolense tentou o contacto telefónico com a Polícia Nacional, a fim de verificar se a informação procedia. Porém não obteve sucesso, acontecendo o mesmo com as mensagens enviadas, tanto pelo Whatsapp quanto por SMS. Durante quase três horas o nosso site tentou obter a versão oficial das autoridades, sem, entretanto, a conseguir. Em nenhuma rede social visitada pelo nosso site havia qualquer informação oficial da PN sobre os acontecimentos que se iam sucedendo desde as primeiras horas da manhã.

Após a publicação da informação sobre a suposta morte de Lando Domingos, um activista contactado pelo Correio Angolenseconfirmou a “execução” do seu colega “com um tiro à queima-roupa na cabeça, nas imediações do hospital Américo Boavida, sem quaisquer motivos”. Enquanto narrava os supostos acontecimentos, o nosso interlocutor, cujo nome preferimos manter em reserva, chorava copiosamente pela “morte” do colega, cuja execução disse ter visto com os seus próprios olhos.   

Tal como aconteceu com o Correio Angolense, correspondentes da media  estrangeira em Angola e órgãos de informação sérios também tentaram, entretanto, sem sucesso, o contacto com as autoridades policiais. Mais: esperavam por um pronunciamento oficial da PN. Uma, duas, três horas e… nada! Ou seja, nenhuma posição da corporação! Três horas!!!! Isto é sério? É inacreditável! É surreal. Sobretudo porque a PN até não terceiriza serviços relacionados com comunicação institucional, tendo um Gabinete que inclusivamente produz e monta os seus conteúdos. Logo, o tempo de reação tinha de ser mais lesto. É inaceitável que um Gabinete com gente da Inteligência e outros técnicos qualificados leve quatro horas para reagir. E quando reage, não informa aos cidadãos se houve mortos, feridos e detidos, ficando-se por generalidade que parecem esconder algo.

O tempo em que os decisores da PN ficaram a coçar, se um qualquer órgão produzisse uma notícia só com a versão dos manifestantes – falando da morte, obviamente –, cairiam certamente o Carmo e a Trindade. A corporação e a sociedade e o partido no Governo falariam seguramente em jornalismo irresponsável, em falta de isenção e outras surradas lições de moral…

A falta de comunicação podia, por exemplo, exacerbar o ambiente já de si tenso e levar mais gente à rua por causa de uma morte que não ocorreu. Podia ter acontecido uma tragédia de gravíssimas proporções porque, ao ser omissa, a PN deu espaço ao boato, deixou a população empenhar pelos ouvidos, fomentou a desinformação e, mais grave do que isso, permitiu que grande parte da população tomasse a informação sobre a “execução” de Lando Domingos como sendo fidedigna. Podia ter causado o caos. Isto não deixa de ser intrigante porque a PN tem meios tecnológicos de última geração que lhe permitem a qualquer momento fazer passar a mensagem que bem entender, com a celeridade que lhe comprazer.

Se eventualmente acontecesse de um “banho de sangue”, na sequência de confrontos entre populares e elementos da PN, em virtude da “morte” do activista, a factura deveria ser creditada por inteiro à corporação, que tinha a obrigação de serenar os ânimos por via de uma comunicação clara e rápida, mas incompreensivelmente não o fez!