Lições de empreendedorismo sobre carris …ou como deserdados fazem pela vida (I)

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Mais de 400 quilómetros, entre Lwena e Kuito, cobertos por uma locomotiva lentíssima. Mas não é perda de tempo. Aulas grátis de empreendedorismo são ministradas em todas as carruagens e estações, onde gente deserdada vende de tudo um pouco para levar uma vida digna. São lições que Faculdade nenhuma ensina…

O relógio marca 6h00, tempo universal coordenado, de uma manhã de segunda-feira. Diferentemente do que acontece no Litoral, no Leste do país o Sol há já alguns minutos irrompeu horizonte acima, a caminho do zénite. Segundo a Meteorologia, nesta região o relógio anda adiantado quase meia hora. Na estação do Lwena, apelidada de “Cidade da Paz”, o comboio do CFB buzina com todas as suas forças, quase enrouquecendo no fim da apitadela. Estremece e parte trémulo, aos soluços, ameaçando desconjuntar-se, tanta é a tremedeira. Segue pachorrento para mais uma jornada de dois dias até ao Huambo, no centro do país, ponto que dista 608 quilómetros. Duas vezes por semana, à segunda-feira e à quarta-feira, é assim, mesmo em tempo de Pandemia. 

Três classes se dividem pelas composições da máquina, que parece do século passado, tal é a desesperadora velocidade com que segue. Talvez uns 50 quilómetros por hora. Ou menos… se calhar, muito menos (o pequeno ecrã à frente dos assentos não funciona e por isso não há qualquer informação sobre a viagem). A primeira classe está quase cheia. O bilhete de passagem é relativamente barato. São AKZ 7.350,00 para o destino mais solicitado, Kuito, que está no meio do percurso até Lobito. Inclusive quem vai ao Huambo ou a Benguela prefere descer na “Cidade Mártir” e cobrir o resto do itinerário de automóvel. É infinitamente mais rápido que o comboio. No compartimento em que seguimos parece haver muito pouca gente que vá até ao Huambo. Ninguém aguenta tamanho sacrifício e muito menos em carruagens sem cama, como as do comboio em que seguimos. O CFB tem um outro com maiores comodidades, incluindo cama…

Ainda não são 6h30 e na carruagem n.º 2, onde viajamos, há três pequenas colunas de som acopladas de forma remota a modernos smartphones. Cada com a sua música, numa desenfreada competição de lançamento de decibéis, a imitar a secção de aparelhos de som de um qualquer mercado do Congo do tempo de Mobuto. Salvaguardadas as devidas proporções… “Todo o moço quer ser arqueado, toda a moça quer ser arqueada…” ouve-se repetidamente. É um conjunto de traços sonoros aparentemente desordenados, provavelmente com não mais de duas notas. É kuduro. Parecia que a letra da música se resumia ao refrão. Pela primeira e única vez na vida ouvimos aquela canção. Mais ou menos no centro da carruagem outra coluna. Esta despacha kizomba, género musical nascido da imitação do zouk. E mais adiante alguém ouve Roberta Miranda. Aquela voz estridente penetra os ouvidos de muitos e o “dono” do som tem os olhos fechados, como que a sorver cada nota. É a balbúrdia na classe nobre do comboio do CFB. Mas, estranhamente, ninguém reclama do barulho, incompreensivelmente (ou nem tanto?) ninguém faz menção de dormir, espantosamente ninguém parece incomodado com tanto vozerio. É quase um milagre o que está a acontecer… 

O split do AC, ao fundo na parte posterior do WC do comboio!

Aos solavancos, o comboio continua a sua marcha triunfal rumo ao Planalto Central de Angola. Do nada, antes de completar meia hora de viagem, a cabine é invadida por um intenso cheiro de café. Quando giramos o pescoço para identificar a procedência do convidativo aroma, demos com Maria, a tentar fazer-se ouvir no meio de tanta algazarra. “café, café… chá, chá… leite, leite…” propõe aos passageiros. Ela não é assistente da companhia. É vendedeira ambulante. Ou melhor, é empreendedora – já vamos conhecer a história dela. Porta três garrafas térmicas, copos de plástico, e pão com manteiga num saco transparente. Tudo num artefacto acondicionado no tronco, como se fosse um colete, de onde pende um outro saco com “mata-bicho de garfo”. Pão com carne, pão com peixe frito, pão com omelete, pão com chouriço assado… o menu é diversificado. Atrás dela segue uma espécie de ajudante, com um saco contendo gelo e cheio de bebidas, igual ao dos rapazes que vendem no congestionado trânsito da capital do país. Refrigerante, cerveja, água, sumo e até pequenos pacotes de vinhos que nunca mais deram notícias em Luanda. Gaivota, Catujal, Vinul ainda alegram alguns bebedores. O negócio da Maria anda bem.

A espaços, a carruagem em que viajamos é visitada por vendedores ambulantes. Um fulano vende óculos de todo o tipo, outro tenta convencer os passageiros de que tem as maiores novidades musicais do “mundo e arredores” nas pendrives que lhe pendem do pescoço por fitas multicolores. Um terceiro tenta impingir quinquilharia diversa: porta-chaves, canetas, porta-cartões, carteira de documentos… enfim, um sem-número de itens. A clientela quase não manifesta interesse pela mercadoria que desfila pelo largo corredor da carruagem n.º 2. Apesar do barulho da música e das conversas em voz de grita para tentar passar por cima do som emanado das colunas, uns tentam dormir. Parece impossível, mas não. Depende do cansaço de cada um. 

Passageiros a conversa na cabine da primeira classe…

Miraculosamente, duas filas atrás da nossa há quem consiga tirar um cochilo. Ronca com precisão e ritmos de motor de Ferrari. Atrás, um viajante comenta: “Que inveja. Dormir nessas condições! Quem me dera. E o homem tem o motor bem afinado”, graceja em relação ao ronco afinado e cadenciado do companheiro de viagem. A conversa rola solta na cabine, há gargalhadas e uma das colunas, a da Roberta Miranda, pára de cantar. O dono também dorme, o que provavelmente será o sono dos justos.

São 9h00 e o comboio ainda não parou em qualquer estação ou apeadeiro. Maria, entretanto, volta à carruagem da 1.ª classe. Desta vez tem proposta gastronómica diferente. Ovo cozido, moelas, fígado de galinha, patas de galinha. Tudo num pequeno alguidar que leva à cabeça sem precisar de o segurar. Numa das mãos, um saquinho com jindungo e outro com sal. O gostoso aroma daquela profusão de acepipes toma conta do compartimento. Atrás dela o vendedor de bebidas não a deixa ficar mal. A cada dose servida, generosamente adubada com jindungo, não falta o acompanhante líquido. Geralmente cerveja. Mas no saco havia também vinho. Àquela hora da manhã, vinho parecia mal. Por isso, ninguém optou por esse caminho.  

A petisqueira, com molho, era servida num pratinho forrado com pequenos sacos de plástico, a que a populaça chama geralmente imbalaz (entenda-se, embalagem). O desígnio é evitar que o prato suje. Surpreendidos, perguntamos o fundamento daquele expediente e Maria foi clara: “Não há água no comboio e não há como lavar pratos”. Em poucos minutos conferimos a informação. Numa visita rápida ao WC, o quadro é o de muitos aposentos do género em repartições públicas. Torneira seca, um enorme balde de água, uma caneca e uma metade de sabão azul quase nanando numa saboneteira improvisada, com água a meio. Na parte posterior da parede do quarto-de-banho está pregado um aparelho de Ar Condicionado, desses que está na sala de qualquer um de nós. Parecia ser de 24 BTUs. Surreal. O sistema central de refrigeração está avariado. Como diz o ditado, quem não tem cão caça como o gato (e não com gato, como diz a multidão…).

Vendedor de colunas de som no interior da carruagem

Uma kitanda na 3.ª classe

O comboio serpenteia a sua preguiça sobre os carris. Como se não quisesse andar. Nos lados, praticamente só mato. Muita terra devoluta. Angola é realmente grande, mas quase todos preferem encavalitar-se numa atolada Luanda, sem infra-estrutura decente de cidade. Espaçadamente, surgem algumas povoações e vilas, umas maiores que outras. Salema, Cachipoque, Kangumbe, Cangonga, Mosimoje, Munyango e Savinguila passam lentamente pelas amplas janelas da composição. Todas as localidades já foram ou são ainda estações ou apeadeiros do CFB. Já não controlamos o relógio. Contar tempo é perda de tempo. Surge a primeira paragem: Kuhemba (geralmente grafado Cuemba), depois de uma remansosa marcha de cerca de 250 quilómetros.

Quando a locomotiva se imobiliza ao lado da plataforma, vendedeiras de alimentos assomam às portas da máquina. Como que por milagre a música da carruagem cessa. Em contraponto, o berreiro dos pregões gritados nas portas adentra o compartimento. Alguns passageiros compram mel, frutas diversas, feijão… um pouco de tudo. Tudo muito mais barato que no Lwena. Passageiros de primeira viagem, que às pressas compraram mel no Lwena, estão agora arrependidos. Ai, ai… se o arrependimento matasse! Algumas vendedeiras entram mesmo na composição da 1.ª classe e tentam despachar as mercadorias que levam em alguidares de cores garridas. Cada fruta mais apetecível que outra, cada legume mais viçoso que outro.

Vendedor de óculos de sol e de “leitura” na primeira classe…

Constatamos que as portas das carruagens da 3.ª classe estavam mais abarrotadas que as da 1.ª e da 2.ª. O espaço é disputado ao cotovelo, a ver quem vende mais. O inusitado chamou-nos a atenção e a pergunta, surgiu naturalmente, no ar, sem destinatário específico: porquê mais gente a tentar vender lá atrás que aqui à frente? Um passageiro frequente explica que há um mercado na terceira classe. Isso mesmo, um mercado. Desde o começo da viagem que a praça está aberta e, segundo o nosso “guia turístico” de circunstância, há produtos revendidos na 1.ª classe saídos da “Kitanda da 3.ª”. Também há quem compre para revender na “Cidade da Paz”. Depois que o comboio deixou a estação, a curiosidade empurrou-nos para o mercado. Impressionante. Vende-se de tudo um pouco. Vestuário, comida, bebida e até calçado. Saldos de telefones, envelopes, papel de 25 linhas e até canetas. É muita coisa. Sentados, os vendedores – constituem a maior parte dos ocupantes da carruagem – têm os produtos no colo e conversam alegremente entre si. Não há pregões, mas gargalhadas e conversas se sobrepõem no contagiante ambiente de alegria. Também há colunas de som tocando música alta. Quem vê aquela gente é capaz de acreditar que não tem problemas, tal é a boa disposição. Os clientes são geralmente da 2.ª e 3.ª classes.

Depois de quase meia hora de paragem, o comboio segue a sua marcha. Esquecemos o relógio. Cálculos por alto fazem-nos supor que andamos perto das 11h00 da manhã. Tão logo a máquina parte com destino à paragem seguinte, um cheiro intenso à guisado de carne de caça enche o compartimento da 1.ª classe. É novamente Maria com um alguidar maior, onde acondiciona algumas panelas. Dois molhos de carne de veado (fresca e seca), feijão de óleo de palma, kizaka e outras folhas. É hora do almoço. O funji, já separado em doses, está acondicionado em saquinhos de plástico. Atrás de Maria segue o auxiliar de bebidas, que depois de descrever com ligeireza as opções etílicas (e não só) da Carta, anuncia com algum drama e em tom mais ou menos conspirativo: “Também tem Água do Chefe…”. Há mais de uma hora que a mistura de cheiros das distintas iguarias continua impregnada no compartimento da 1.ª classe.