O país perdeu um pedaço importante da história do seu basquetebol. O “poste” que iniciou no Benfica de Luanda e acabou no Petro-Atlético de Luanda foi dos pouquíssimos a fazer a travessiacomo sénior do período colonial para o pós-independência, mantendo statusde indispensável em qualquer das equipas que representou em mais de 20 anos de carreira… 

A notícia chegou-nos fria e devastadora, dada por um amigo de longa data. Pereceu em Luanda às primeiras horas desta segunda-feira, 12 de Abril, António Ribeiro Guimarães Júnior, vítima de doença. Nascido na capital do país em 5 de Janeiro de 1950, ele foi uma das principais referências do basquetebol angolano. Conhecido nas lides basquetebolísticas como António Guimarães ou “Toy Guimas”, para os mais próximos, ele foi dos pouquíssimos que integraram a Selecção de Angola antes e depois da independência nacional – os outros foram Gika e Mário Octávio. Por esta razão e pela importância que tinha nesses “cincos”, erigiu-se como ponte entre os períodos anterior e posterior ao 11 de Novembro de 1975. Foi, em rigor, o que mais tempo fez num e noutro ciclo, sempre ao mais alto nível, com um detalhe nada despiciendo: foi campeão em quase todos os clubes por que passou. Dos cinco, só num não ergueu a taça de campeão.

Estampa física assombrosa para os padrões da época, com os seus 191 centímetros de altura, António Guimarães impôs-se sempre como o principal rosto das equipas que defendeu. Foi assim no Benfica de Luanda, onde começou a carreira e chegou à formação principal na temporada 1967/68, logo após as “águias” da capital angolana haverem conquistado o título de campeão nacional de Portugal, numa épica fase final disputada em Luanda (o local era rotativo). A sua importância debaixo da tabela a recuperar ressaltos era tal que nos meios luandenses acabou apelidado de “Gaby”, uma referência a Gabriel Monjane, o moçambicano que já foi o homem mais alto do mundo com os seus 2,46 metros…

Mas António Guimarães não se desempenhou bem apenas no capítulo defensivo. Era igualmente extraordinário no jogo ofensivo, com uma meia distância letal, a pedir meças a do seu colega de equipa Agostinho Reis, um dos melhores lançadores de todos os tempos do basquetebol de Angola. Mesmo quando em 1971 começou a “invasão” de atletas americanos ao basquetebol angolano, conservou o seu statusde “rei das tabelas”, graças à sua incomparável capacidade de impulsão e de luta dentro do “garrafão”. Na área restritiva era insuperável, um “poste” que ditava as regras do jogo. De modo que, após carregaràs costas o Benfica de Luanda na peleja pelo título do “Nacional” de Portugal de 1970, foi “intimado” a jogar no clube-sede, o mesmo que dizer no Benfica de Lisboa, então o campeão lusitano de basquetebol. Mas, rejeitou o convite por entender que também estava num clube grande! Então, havia marcado 21 pontos no desafio com as “águias” lisboetas. Atente-se que à época não havia ainda linha dos 6,75 metros e em vez dos actuais 48 minutos, jogava-se apenas 40!

António Guimarães, o primeiro de pé à direita (n.º 11) na equipa do Benfica de Luanda, campeã de Angola de 1971. Na foto se reconhece Agostinho Reis (5) e Mário Palma (10) dois nomes sonantes dos “encarnados” da capital angolana

Com a camisola do Benfica de Luanda foi campeão de Angola, às ordens do técnico Vicente Costa, em 1968, 1970, 1971 e 1972, tendo “escolta” de americanos só nas últimas duas temporadas. E em 1971, quando esteve ausente da fase final do campeonato de Portugal, em Lourenço Marques (hoje Maputo), a imprensa moçambicana foi unânime que a classificação dos “encarnados” luandenses teria sido possivelmente outra se António Guimarães estivesse lá, acompanhando colegas como Richard Almstedt, Agostinho Reis, Mário Palma, Martin Roseira e outros. Ele era elemento de suma importância nas equipas que representava, onde integrava sempre o cinco titular. 

No FC Luanda, emblema do qual pouco se esperava porque veio praticamente de baixo, António Guimarães também foi campeão de Angola em 1973 e 1974, este o primeiro ano em que a prova se disputou em sistema de Liga, todos contra todos a duas voltas, com oito concorrentes. Em 1973 o candidato ao título era o tri-campeão Benfica de Luanda e em 1974 era o FC Vila Clotilde. Mas quem tinha António Guimarães arriscava-se a ser campeão. E assim foi sob orientação técnica de Carlos Ferreira, o homem que começou a dar verdadeira dimensão competitiva ao basquetebol angolano, então mais dado a floreados estéreis. O seu rendimento era tão alto que em 1973 integrou a Selecção de Angola que disputou em Luanda os Jogos Luso-brasileiros, com Victorino Cunha, Mário Cardona, Luís Filipe “Gika”, Martin Roseira, Mário Octávio, José Patrício, Agostinho Reis e outros. Era treinador Manuel Campos, figura incontornável da “bola ao cesto” angolana da última metade da década de 1970.

António Guimarães, à direita no pódio do torneio dos II Jogos da África Central como “capitão” da Selecção Nacional de basquetebol

Em 1979 transferiu-se para o Desportivo da TAAG, depois que o FC Luanda fechou as portas ao basquetebol. Com a turma “aviadora” foi peça-chave e campeão nacional em 1980. No ano seguinte esteve com a equipa na primeira presença angolana na Taça dos Clubes Campeões de basquetebol disputada em Bamako, Mali, na condição de “capitão”. António Guimarães ainda foi a tempo de se sagrar campeão nacional pelo Sporting de Luanda (então designado Leões de Luanda) em 1984, ao lado do irmão José Carlos Guimarães e de nomes como os de Armando João “Lapa”, Zezé Assis, António Castelo Branco, Wemba, Mayala e pouco mais, sob batuta de Óscar Fernandes. Encerrou a carreira no Petro-Atlético de Luanda, em 1987, no único clube onde passou sem conquistar título de campeão nacional.

Muito antes de colocar ponto final na carreira, ajudou a desbravar o caminho por onde mais tarde passaria a Selecção Nacional até assumir a hegemonia no continente. Em 2 de Fevereiro 1976 foi uma das principais figuras da primeira Selecção de Angola, cujo “baptismo” aconteceu diante da Nigéria, em jogo particular. Em 1980, aos 30 anos de idade, foi o “capitão” da equipa nacional que se estreou em “Afrobaskets”, na 10.ª edição do torneio, disputada em Rabat, Marrocos. Também foi ele o “capitão” nos II Jogos da África Central e no “Africano” de Mogadíscio, em 1981, referente à 11.ª edição.

Feitas as contas, embora António Guimarães não tenha conquistado nenhum Campeonato Nacional de Portugal (ao tempo em que Angola era colónia) e no seu currículo não consta nenhuma medalha do “Afrobasket”, ele foi figura de primeira linha do basquetebol angolano. Ele foi enorme por tudo o que representou nos clubes por que passou e pela capacidade de liderança na Selecção Nacional. Por isso, muito merecidamente, há muito fazer parte do “Hall of Fame” imaginário da nossa “bola ao cesto”. 

(*) Adaptado do livro Baralho do Basquetebol Angolano[ainda no prelo], no qual a figura de António Guimarães está associada à carta Rei de Copas

Jornalista