Idrissi Déby, o tirano que já vai tarde

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Na mensagem de condolências, o Presidente João Lourenço qualificou o déspota, que governou rodeado de familiares, como “uma personalidade de grande estatura política”. Um embaraço para construtores de estados de direito e democráticos

O Presidente João Lourenço precisou de pouco mais de 24 horas para exprimir sentimentos de pesar às famílias enlutadas pela violenta chuva que se abateu sobre Luanda na madrugada e manhã de segunda-feira. 

Naquele dia, o número de mortos era de 14 pessoas e mais de 8 mil famílias desalojadas.

A expressão de dor e consternação do Presidente foi posterior a do Presidente e do Primeiro Ministro portugueses aos quais, com algum constrangimento, João Lourenço viria agradecer depois pela solidariedade prontamente manifestada.

A imprensa pública angolana ignorou as manifestações dos dois dignitários lusos.

Na mensagem de condolências aos angolanos, o Presidente quase culpou as vítimas e seus familiares por haverem construído as suas habitações sobre linhas ou condutas de água. “Aproveito esta oportunidade para apelar ao bom senso e compreensão de todos os habitantes da capital, para que evitem agravar o já frágil sistema de saneamento da cidade, abstendo-se de construir sobre as linhas de água e canais de escoamento das quedas pluviais, respeitando as medidas adoptadas para o seu pleno funcionamento”. Nenhum dedo apontado aos poderes públicos que licenciam a construção de obras nesses locais.

No mesmo dia em que confortou as famílias angolanas, quase 24 horas depois que perderam os seus entes, o Presidente João Lourenço exprimiu sentimentos de pesar pela morte do seu homólogo do Tchade, Idrissi Déby Itino, falecido naquele mesmo dia.

São muitas e consistentes as evidências de que Idrissi Déby foi assassinado por um indivíduo da sua própria guarda. 

De 68 anos, chegou ao poder no dia 2 de Dezembro de 1990, após afastar aos tiros o seu antecessor Hissène Habré, a quem serviu como comandante das Forças Militares e assessor. 

Nos ininterruptos 30 anos que permaneceu no poder, Idrissi Déby  organizou e, evidentemente, venceu com “folga” seis eleições presidenciais (1996, 2001, 2006, 2011, 2016 e 2021).

Na mensagem de condolências pela sua morte, o Presidente João Lourenço qualificou o tirano Déby como “uma personalidade de grande estatura política, que soube assumir posições de liderança firme como chefe de Estado, nos processos complexos que se desenrolaram na Região do Sahel e na Africa Central. Perdeu-se um estadista africano empenhado na construção de uma África forte, coesa, independente e voltada para o desenvolvimento e progresso social dos seus povos”.

Ao estilo de Vladimir Putin, na Rússia, em 2018 Déby fez reformas constitucionais que lhe permitiriam ficar no poder até 2033. 

Se balas não lhe tivessem perfurado o corpo, ele permaneceria no poder por longos 43 anos. Um pequeno “detalhe” em África…

Na Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, um outro amigo dos governantes angolanos, está no poder desde 1979, após depor, também através de um golpe militar, o seu tio Francisco Macías. Aos 79 anos de idade, 42 dos quais como dono absoluto da Guiné Equatorial, Teodoro Nguema não faz nenhuma questão de deixar o poder. 

Por certo que quando chegar o seu dia – e esse chegará inevitavelmente – alguém há de referir-se a esse outro tirano como “estadista africano empenhado na construção de uma África forte, coesa, independente”.

O tirano tchadiano, que se auto-proclamou marechal, liderou um regime assente no nepotismo. O quadro abaixo é uma “pequena” ilustração de como o ora defunto transformou a República do Chade num quintal familiar.

Aliás, um dia após a morte do pai, o filho, Mahamat Idriss Debi, 37 anos, dito general, assumiu o comando de um Conselho Militar, que governará o país pelos próximos 18 anos.

Quinta-feira, a propósito da morte de Idriss Déby, o escritor e jornalista Sousa Jamba fez a seguinte reflexão na sua página no Facebook: “O falecido presidente do Chade, Idriss Deby, brincava com a constituição. Ele deu instruções para acabar com o limite dos mandatos e isto foi feito de imediato. Quando notou que um adversário político seu, o Dr. Sucess Masra, vindo do África Development Bank, estava a ter muitos êxitos, a Constituição foi modificada, primeiro para permitir que só aqueles que tinham mais de quarenta e cinco anos é que poderiam concorrer à Presidência. O Dr. Masra, de trinta e oito anos, foi excluído. Agora o filho do General Déby, com 37 anos, poderá  concorrer nas próximas eleições. Claro que a Constituição vai ter os seus devidos ajustes…”

Num referendo popular limpo e transparente, muito dificilmente a África partilharia com João Lourenço a convicção de que com a morte de Idrissi Déby perdeu-se “um estadista africano empenhado na construção de uma África forte, coesa, independente e voltada para o desenvolvimento e progresso social dos seus povos”.

Para Angola, um estado de direito e democrático em construção, com disputa de poder protegida na sua Constituição, é embaraçoso que o seu Presidente da República se refira ao déspota que acaba de ser abatido como “uma personalidade de grande estatura política”.

Com eleições gerais previstas para o próximo ano, quando chegará ao fim o primeiro mandato de João Lourenço, aqui e ali vão surgindo vozes, aparentemente isoladas, defendendo uma alteração constitucional que alargue para três os mandatos presidenciais em Angola.

No Chade, Idrissi Deby começou com um, ganhou-lhe o gosto, e só ao sexto mandato consecutivo foi travado por “fogo amigo”.