Num contexto político-militar e social desfavorável, em razão da guerra que arruinava o país, cinco formações concentraram-se em Luanda para disputar a fase final, com Benguela e Huambo a serem representadas pelas respectivas Selecções provinciais. A vontade de todos em fazer crescer a modalidade era tanta que Mário Palma, então ligado ao Benfica de Luanda, auxiliou tecnicamente a equipa do Planalto Central. Por seu turno, Victorino Cunha (1.º de Agosto) fez o mesmo com a turma de Benguela. Outros tempos!…

Modalidade que desde os primórdios da independência do país colocou-se na vanguarda do desporto nacional, o basquetebol não foi apenas a primeira a formar a Selecção Nacional, cuja estreia aconteceu em 1 de Fevereiro de 1976, pouco mais de dois meses após o fim do colonialismo. Foi também pioneira na organização de Campeonatos Nacionais, começando com o “Nacional” de jovens, cujo berço foi a cidade do Huambo, onde o Benfica de Luanda sagrou-se campeão nacional. Lá mais à frente, entre 17 e 21 fez disputar o Campeonato Nacional de seniores femininos tendo também a cidade do Huambo como sede. A vencedora foi a turma do INEF.

O “Nacional” de seniores masculinos fechou o ciclo de campeonatos, com a fase final agendada para o período de 27 de Abril a 2 de Maio de 1979. No sistema de todos contra todos a uma volta, em princípio, seis equipas iriam bater-se pelo título em Luanda. Seriam os três primeiros classificados do “Provincial” de Luanda, assim como os representantes de Benguela, Cabinda e Huambo, esta com quatro jogadores promovidos dos juniores. A insegurança vivida à época, com o país ainda em guerra, tornava impossível a disputa no formato de Liga, como acontece actualmente.

Pouco antes do início da prova, Cabinda anunciou a respectiva desistência e o número de competidores na prova ficou em cinco. Assim, ao “assalto” do título perfilaram-se as formações do Clube Ferroviário de Angola, FC Luanda, 1.º de Agosto, bem como as Selecções de Benguela e do Huambo. Assim aconteceu, de modo a que o fosso entre ambas as províncias e Luanda não fosse muito acentuado. Em vez de clubes, a Federação entendeu que seria melhor que fossem representadas por selecções. Afinal, era importante que outros centros desportivos do país não se desmoralizassem com eventuais placardsdescomunais e que a modalidade chegasse a todo o território nacional ou pelo menos às principais cidades. 

Com tudo a postos, o primeiro Campeonato Nacional de Angola independente “arrancou” finalmente em 27 de Abril, no pavilhão gimno-desportivo da Cidadela, com o 1.º de Agosto a descansar por força da desistência da Selecção de Cabinda. Após desfile das equipas participantes, em singela cerimónia de abertura, a primeira partida opôs o FC Luanda à Selecção do Huambo. Os da capital do país venceram sem problemas de maior por 86-27, com já favoráveis 52-11. Na outra partida, o Ferroviário cilindrou a Selecção de Benguela por 130-44, com 58-28 no meio-tempo.

O “jogo do título” chegou à terceira jornada, agenda 29 de Abril. Colocava frente-a-frente o Ferroviário e o FC Luanda, então os dois principais emblemas do cenário basquetebolístico nacional. Os “cincos” de ambas as formações eram bastante equilibrados, com as “locomotivas” a levarem vantagem no “banco”. O favoritismo da equipa do Bungo decorria do facto de se campeã provincial e de ser também dona dos troféus do Torneio Início e Abertura. 

O pavilhão encheu-se para ver o “confronto do ano” e o desafio começou movimentado, com o FC Luanda a comandar as “operações”. Certinhos, os “azuis e brancos” dominaram o oponente nos momentos iniciais e aos 12 minutos já venciam por 33-26, números bons demais, mesmo nos tempos. A superioridade dos “luandinos” levou a que saíssem para o intervalo com vantagem de 12 pontos (45-37). No regresso à quadra, após oito minutos de jogo já o Ferroviário havia encurtado a diferença pontual para dois (57-59). Mas com António Henriques “Tonecas” e Carlos Oliveira condicionados nas acções defensivas em virtude de estarem à janela da desqualificação, a turma “locomotiva” voltou a tremer. Porém não soçobrou. Aos 12 minutos ainda perdia por um pontinho (65-64)… 

Num momento de inspiração, Alberto Carvalho “Jinguba” sacou dos galões e anotou seis pontos de rajada. Com isso, resgatou os níveis de confiança dos parceiros, que o seguiram na empreitada de levar de vencida o adversário. Beneficiando de uma melhor frescura física, devido a possibilidade de efectuar substituições sem baixar a qualidade de jogo, o Ferroviário passou na frente do marcador para não mais ser apanhado. Assim, aos 18 minutos ganhava por 79-69, enquanto Mário Octávio fazia a gestão do tempo, jogando com o cronómetro e assistindo só mesmo quase próximo do fim dos 30 segundos de ataque. Quando o desafio terminou, o placardera favorável (85-61) à equipa do Bungo. Nas contas finais, Carlos Cunha, com 30 pontos, foi a “estrela da companhia”, secundado por Mário Octávio, com 19. Na banda contrária, que não contou com a sua principal unidade, no caso António Guimarães – ausente de Luanda por razões profissionais –, Diogo “Didi” Cruz marcou 26 pontos, ao passo que Hilário Sousa e Zito ficaram-se pelos 14 cada.  

Antes do “jogo do ano”, numa partida sem história, a Selecção de Benguela foi derrotada pelo 1.º de Agosto por 121-37. Os argumentos “militares” foram infinitamente superiores aos do seu rival, que não contava para a luta pelo ceptro em disputa.  

Depois dessa ronda, o caminho do título estava praticamente aberto para o Ferroviário, apesar de ter de defrontar o 1.º de Agosto na 5.ª e última jornada. Quis o capricho do sorteio que ambas as formações se encontrassem exactamente na derradeira ronda da competição. Em caso de derrota dos “locomotivas” e vitória do FC Luanda nos restantes desafio, haveria lugar a uma finalíssima, como aconteceu no Campeonato Provincial de Luanda. Antes, porém, na quarta jornada, os “locomotivas” cilindraram a representação do Huambo por 124-49 e o FC Luanda superou o 1.º de Agosto, numa partida bastante equilibrada e espectacular.

No dia de todas as decisões, 1 de Maio de 1979, a Selecção do Huambo, que durante a prova teve o auxílio técnico de Mário Palma, venceu a sua congénere de Benguela por 67-43, assegurando assim a quarta posição no “Nacional”. Na partida decisiva entre os do “Bungo” e do “Rio Seco” o equilíbrio foi a nota dominante, com alternância constante no marcador. Mas no final das contas o Ferroviário triunfou sobre o 1.º de Agosto por 81-78, arrancando o suado triunfo nos últimos quatro segundos. Isto, depois de superar uma desvantagem de 41-42 ao intervalo. Foi considerado então como o melhor jogo da época, tendo registado a maior moldura humanada competição.

Desse modo, o Ferroviário de Angola sagrou-se primeiro campeão de Angola independente e no final da partida o “capitão” Tonecas recebeu a correspondente taça das mãos do secretário do Comité Central do MPLA para a Cultura e Desporto, António dos Santos França “Ndalu”. Na contagem de espingardas, Carlos Cunha (Ferroviário de Angola) foi o melhor “cestinha” e MVP, enquanto Óscar Fernandes foi considerado o “Melhor Árbitro” e a Selecção do Huambo recebeu a distinção de “Equipa Fair-Play”.

Sob orientação técnica de António Henriques “Tonecas”, que fez de jogador-treinador, uma figura então muito comum nas equipas angolanas, assinaram igualmente o título pelos “locomotivas” Carlos Cunha, Mário Octávio, Jinguba, Arnaldo Guimarães, Carlos Oliveira, Jorge Abreu, Fernando Teixeira, Pedro Sousa, Fernando Sousa, Jorge Gonçalves, Adalberto e Nelson Campos. À frente da equipa estava o presidente Francisco Almeida, numa altura em que os clubes não estavam suficientemente estruturados, não contando nem com estatístico, nem massagista. As lesões eram tratadas pelos próprios jogadores socorrendo-se de métodos arcaicos. Em casos mais graves intervinha uma conhecida senhora da urbe, a Velha Guinhas, das Ingombotas, uma invisual solicitada por metade da cidade para tratar desses casos, fossem desportistas ou não. “Tive uma lesão na tíbio-társica e tratei-a eu mesmo, com água quente e sal”, conta António Henriques “Tonecas”.Então, sem salários nem prémios de jogo, os atletas sequer tinham apoio alimentar. Vez por outra, comiam uma sanduíche e bebiam um refrigerante no bar do clube, após as partidas. E transporte… nem pensar. Para os treinos e jogos, quase todo o plantel andava à boleia de Tonecas, Arnaldo Guimarães e Carlos Cunha, os únicos que à época já possuíam automóvel…

Jornalista há 38 anos, tendo iniciado a carreira na ANGOP, em 1984. Mobilizado nesse ano para o cumprimento do serviço militar obrigatório, ingressou nos quadros do Jornal Desportivo Militar (JDM). Regressou a ANGOP em 1992, tendo saído em 1999. Entre 1988 e 1991 teve uma experiência como redactor principal na revista Golo. Foi co-fundador do Angolense (1997) e do Semanário Angolense (2003), de que foi diretor-adjunto. Prémio Maboque de Jornalismo em 1999, foi colaborador do Jornal de Angola, Jornal dos Desportos, jornal O Jogo e da SIC (os dois últimos de Portugal), além de ter sido correspondente da emissão em português da Rádio Havana Cuba, do jornal O Diário e do Semanário Desportivo (Portugal). Actualmente é correspondente das agências EFE (Espanha) e AGI (Itália).