Governo alcançou a “imunidade de grupo”

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I. Não é apenas o vídeo feito no Hospital Américo Boavida que choca; chocante não é apenas a quantidade de pessoas deitadas no chão gélido, deixadas à sua sorte, ou o desespero do corpo clínico. 

O que choca mais é a ordem de prioridades estabelecida por quem detém o poder.

Ordenar que os órgãos de comunicação social dessem prioridade total à encenação montada em Cacuaco em detrimento do perturbador drama que se vive no HAB significa, acima de tudo, que quem governa este país já se acostumou ao caos e, portanto, tornou-se insensível a tragédias como a que vimos. 

Em linguagem médica dir-se-ia que os governantes angolanos já estão imunes à comoção, à sensibilidade, à dor alheia.

É essa imunidade que explica que, ano após ano, mesmo somadas, as fatias do Orçamento Geral de Estado destinadas à Saúde e à Educação sejam inferiores às reservadas às forças de defesa e segurança. 

Na verdade, o grande problema que hoje se coloca aos angolanos é “ a “imunidade de grupo”  que cobre os governantes, tornando-os insensíveis à dor, ao sofrimento, às lamúrias, enfim, às necessidades dos cidadãos.

Essa imunidade não foi obtida agora. Já ao tempo do Presidente José Eduardo dos Santos foram raros os momentos em que ele se comoveu em momentos trágicos vividos por angolanos. Jamais se lhe ouviu uma palavra de conforto às famílias atingidas pela brutalidade policial ou por desastres naturais. Cidadãos como Kamulingue,  Caçule, Ganga e muitos outros foram friamente abatidos por forças de defesa e segurança, mas jamais se ouviu do ex-Presidente qualquer palavra de consolo às famílias das vítimas e menos ainda o compromisso de indemnizar os entes sobrevivos. 

Em 2015, mais de 100 angolanos morreram em Benguela em virtude de violentas enxurradas.  Ninguém ouviu ou viu de JES qualquer gesto de comoção.

João Lourenço, o sucessor que prometeu e de quem se esperava um novo paradigma para o país, está a revelar-se, neste aspecto, um fiel e consequente seguidor do antecessor.  Em Cafunfo, um número ainda não determinado de cidadãos foi morto pela pessoa, mas o PR não se comoveu. Porque não usava máscara facial, um médico pediatra foi arrastado até uma esquadra policial, onde acabou por perder a vida. O PR não disse uma palavra que fosse.

Agora, perante a tragédia do HAB, o PR, mais uma vez, omitiu-se, melhor, escondeu-se por detrás da ministra da Saúde, a quem ordenou que sacrificasse a direcção do hospital, como se a troca de Agostinho Matamba por Mário Fernandes fosse trazer alguma solução para os gravíssimos problemas por que passa aquela unidade hospitalar.

O cardiologista Fernandes não tem nenhuma varinha mágica para dar resposta aos imensos problemas do hospital. 

II. Ainda há poucos dias, por ocasião do Dia da Liberdade de Imprensa (03 de Maio) algumas vozes teimavam em responsabilizar exclusivamente o poder político pelas gravíssimas insuficiências do Jornalismo que vamos praticando no País. Estão erradas. Defendemos, há muitos anos, que as responsabilidades são repartidas. É tão responsável o político que impõe a agenda e estabelece as prioridades editoriais dos órgãos de comunicação social quanto os jornalistas que obedecem sem resmungar as instruções dos políticos.

O jornalista que minimiza as tragédias que acontecem nos nossos hospitais, mesmo com o risco de ter um familiar ou um amigo entre as pessoas que agonizam por falta de leitos e de assistência, é tão responsável quanto o político que desvia recursos públicos destinados à saúde ou que, quase duas décadas depois do fim da guerra em Angola, continua a dar à Defesa e Segurança a fatia de leão no Orçamento Geral do Estado. O jornalista é tão responsável pela teatralizarão e banalização da vidas dos angolanos, quanto os políticos que roubam, com total impunidade, dinheiro com que se poderia providenciar condições humanas e materiais necessárias para o razoável funcionamento dos hospitais.

Dir-se-ia que, de alguma maneira, a tal “imunização de grupo” também já chegou a jornalistas.  Há, sobretudo na comunicação social do Estado, aquela que é sustentada pelo dinheiro de todos, provas mais do que bastantes de jornalistas que estão imunes ao sofrimento dos seus concidadãos.

A imunização contra a dor e o sofrimento gerou ou aguçou  em alguns jornalistas os mais reles valores humanos como é, por exemplo, a adulação a qualquer indivíduo que detenha alguma capacidade de decisão, por mais pequena que seja.

Nas redes sociais correm relatos segundo os quais neste momento já não é apenas do 3. andar de sede do MPLA, do CIPRA, do Gabinete de Acção Psicológica ou do MTTIC que emanam orientações e ordens de cumprimento obrigatório pela comunicação social. 

Diz-se que um certo general, que tem da comunicação social o mesmo conceito e o mesmo domínio que qualquer cidadão tem da ciência aeronáutica, também dá ordens sobre o que os jornalistas devem ou não fazer. Segundo se diz, é do gabinete desse general que emanam as ordens  e o guião para a diabolização de Adalberto da Costa Júnior e lá também que está o cofre de onde saem os trocados com que se compram as consciências que nesta altura do campeonato estão à mercê de quem paga mais.

III. Enquanto os detentores do poder parece que dão o melhor que sabem em encenações teatrais de baixíssima qualidade, nas redes sociais as atenções dos internautas são agora atraídas por Isabel dos Santos, que, ao dizem, postou uma foto em que seriam visíveis partes de roupas que a maior parte das mulheres costuma resguardar cuidadosamente. 

Se Isabel dos Santos expôs publicamente os seus trajes menores não se pode falar em descuido. Tê-lo-á feito propositadamente. Se isso aconteceu, houve claramente a intenção de distrair alguns angolanos com questões menores como será, indiscutivelmente, a cor ou o tamanho da cueca da primogénita de José Eduardo dos Santos.

Num momento em que os hospitais públicos de Luanda não conseguem dar resposta à enorme e esperada demanda – o descaso ou desleixo com o lixo  avisaram previamente – , em que milhares de angolanos não sabem como e nem onde abrigar-se das chuvas que continuam a fustigar o país, a atenção de alguns angolanos é atraída para a cor do bikini de Isabel dos Santos.

IV. Uns e outros, isto é, governantes e Isabel dos Santos, estão mancomunados no desprezo em que têm os angolanos.

Joseph Maistre, filósofo, advogado, escritor e outros ofícios, nascido em França em 1753, dizia que “toste nation a le gouvernement qu’elle mérite” (toda Nação tem o governo que merece).

Depois de 1992, os angolanos têm deixado escapar todas as oportunidades de construírem uma vida melhor para si e para os seus descendentes. 

Ora, diz a sabedoria popular, quem corre por gosto não se cansa… 

Portanto, não há muito e nem porquê de nos queixarmos.