O velho MPLA, que se distinguiu no panorama político nacional, entre outros, pela sua astúcia, deu hoje lugar a uma organização muito previsível, pouco imaginativa. 

O MPLA dos dias de hoje é um partido cujos passos podem ser antecipados com largo tempo de antecedência.

A também chamada “grande família” perdeu a capacidade de surpreender o país, de apanhar os adversários em contra-pé.

Sem ser profeta, em 2019, a activista social Sizaltina Cutaia desaconselhava a estratégia do PRA JA  de “anunciar aos quatro ventos (e depois submeter ao Tribunal Constitucional) um número de assinaturas superior ao requerido por lei”.

Num post que escreveu no dia 23 de Junho do ano passado, ela vaticinava que “os documentos submetidos pela Comissão Instaladora do PRA JA serão usados em  2020 para constituir e formalizar a candidatura de partidos da vida”…

A pouco menos de um ano das próximas eleições legislativas, o vaticínio da activista social está a concretizar-se plenamente.

A explosão de comissões instaladoras de partidos políticos, todas elas partindo da mesma árvore genealógica, não é alheia à fartura de assinaturas colhidas por Abel Chivukuvuku. 

Do nada, surgiram comissões instaladoras para todos os feitios, mas com o mesmo gosto.

A abrupta proliferação de comissões instaladoras coloca-nos perante uma evidência: o MPLA já nem sequer se dá já ao trabalho de esconder a mão com que atira a pedra. A cobertura que a comunicação social pública faz a todos os eventos que envolvam dissidentes ou arrependidos da UNITA mostra a quem pertence a mão.

Como se sabe, do nada surgiram comissões instaladoras de partidos como Njango, de Dinho Chingunji, Humanista, de Bela Malaquias, Esperança, de Mufuca Muzemba, Partido Cristão, de um desconhecido pastor Noé Mateus, e de um tal Movimento de União Nacional, cujos rostos são por ora indefinidos. Faltando ainda alguns meses para o próximo pleito, não surpreende que outros projectos políticos estejam na forja.

Hoje, no novo paradigma de criação de partidos-satélites os interessados só precisam de preencher um requisito: a falta de carácter. Dela decorre tudo o resto, nomeadamente a disponibilidade para ser bobo da corte

Além de partilharem a mesma árvore genealógica, os três primeiros projectos políticos estão unidos por uma singularidade: nenhum dos seus líderes precisou de calcorrear o país para atrair simpatizantes ou aderentes. 

Mfuca Muzemba anunciou a sua desvinculação há apenas uma semana. Mas isso não o inibiu de garantir, já nesta quinta-feira, que terá assinaturas suficientes para viabilizar o seu projecto político. Desde que formalizou a sua desvinculação do Galo Negro, há apenas uma semana, Mfuca Muzemba não arredou pé de Luanda. De onde lhe vem a segurança de que o Esperança recolherá em todas as províncias as assinaturas requeridas pela lei?

Desde que anunciaram os propósitos de criação de seus partidos políticos, tanto Dinho Chingunji quanto Bela Malaquias nunca foram vistos em qualquer outra parte do território nacional em trabalho de campo visando interessar cidadãos às suas propostas.

Diz um velho adágio português que “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vêm”.

Hoje, no novo “paradigma” que o muito previsível MPLA criou para a proliferação de partidos-satélites, os interessados só precisam de preencher um requisito: a falta de carácter. Dela decorre tudo o resto, nomeadamente a disponibilidade para ser bobo da corte.

A recolha de assinaturas e outros procedimentos anteriores e posteriores à legalização de partidos políticos correm por conta da mãe Joana, que é nisso em que o histórico MPLA se transformou.

Amedrontado pela crescente perda de popularidade, o que é indissociável dos maus caminhos que escolheu, o MPLA agora apostou no tudo ou nada. A proliferação de projectos políticos não visa, apenas, dispersar os eleitores. Antes do mais, é um caminho que banaliza a actividade político-partidária.

A proliferação de partidos mostra que eles não têm como substrato o bem comum. Mesmo porque nem sequer é possível divisar-lhes quaisquer diferenças ideológicas ou programáticas.  

A proliferação de partidos políticos é a arma a que o MPLA lança mão para, não apenas afugentar os seus próprios medos, mas, sobretudo, afastar o cidadão decente do exercício político.

Com o patrocínio do MPLA e de instituições como o Tribunal Constitucional, a actividade político-partidária tornou-se num verdejante pasto onde se alimentam, até à fartura, os sem vergonha. 

Como era inevitável, a comunicação social pública vai fazendo o seu papel na publicitação dos projectos políticos paridos no Kremlin. Mesmo quando o cheio a esturro se antecipa ao anúncio do seu surgimento.

Perdido nos seus próprios medos e fantasmas, o MPLA perdeu de vista que, como até alertou o seu líder, o excesso pode causar congestão.

Há um grande equívoco aí na sede do MPLA: alguém está a tomar todos os angolanos como um bando de idiotas. Alguns de nós serão, certamente. Mas não a maioria.

Com a mão visível do MPLA, projectos políticos estão a brotar ao ritmo de cogumelos em épocas chuvosas.

E aqueles que hoje emprestam os seus rostos e identidades a esses projectos precisam de olhar para o passado para terem presente que são instrumentos circunstanciais, que serão descartados mal os seus criadores alcancem o objectivo. A multiplicidade de partidos não agrega nada ao jogo democrático; pelo contrário, no nosso contexto concorre para o enfraquecimento e fragilização do espectro partidário. Partidos insignificantes não ajudam em nada, mas podem atrapalhar os cidadãos no momento do voto.

Os bobos da corte de hoje não deveriam perder de vista os exemplos dos muitos e vários Valentins desta vida.

O MPLA, como se sabe, não costuma ter preguiça de descartar a fralda usada. 

Avisa a sabedoria popular que quem corre por gosto não se cansa.

Os novos bobos da corte não poderão, depois, alegar falta de aviso para o que lhes vai, fatalmente, acontecer…

Jornalista há 40 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação social públicos e privados. Na mídia pública regista passagens pela ANGOP, Jornal de Angola e Televisão Pública de Angola. Na imprensa privada tem profundas impressões digitais no Correio da Semana, Folha 8 (de que foi co-fundador e editor chefe), Angolense (co-fundador e editor chefe), Semanário Angolense (co-fundador e Director Geral) e, actualmente, no Correio Angolense. Como militar das antigas FAPLA registou passagens pelos jornais Njango Ya Sualaly (órgão da então Direcção Política Nacional) e Jornal Desportivo Militar (JDM).