Para a eternidade partiu um “gigante” do basquetebol, a quem a morte chamou quarta-feira última, 4, para, espero, subir aos céus e repousar tranquilamente sob o resplendor da luz perpétua. O seu nome é Vicente José da Costa Júnior ou apenas Vicente Costa para as gentes da “bola ao cesto”. Seguramente, poucos terão ouvido falar deste nome, mas ele foi o homem que, regressado à sua Luanda natal em 1966, conferiu uma certa modernidade aos processos de treinamento da modalidade que em Angola eram, como dizia o saudoso prof. Teotónio Lima, “pré-históricos”.

Nascido a 18 de Abril de 1931 na Ilha de Luanda, em 1951 deslocou-se a Portugal continental – é assim que se chamava à potência colonizadora, enquanto Angola era província –, a fim de prosseguir os estudos, na Universidade, grau de ensino que não era ministrado nas colónias. Na “Metrópole”, ingressou no Instituto Superior Técnico e lá começou a jogar basquetebol, aproveitando a sua estampa atlética e altura (1,80 m), que para os padrões da época era apreciável e até podia arriscar jogar nas posições mais próximas da tabela.   

Embora curta, fez carreira como jogador, passando também pelo Benfica de Lisboa e Clube Desportivo Universitário de Lisboa (CDUL). Mas foi como treinador que se destacou, tendo iniciado no ofício, ainda novo, nos “universitários” da capital portuguesa. Dirigiu depois os juniores do Benfica de Lisboa, o Instituto Superior Técnico e FC Barreirense, com o qual fez a sua estreia nas competições europeias de clubes, em 1961, tendo por adversário os franceses do Charleville/Mezière. 

cartão de técnico de Vicente Costa

Naqueles tempos, ninguém vivia exclusivamente dos chamados “desportos pobres”, onde incluía o basquetebol. Porque ordenados, só no futebol e mesmo assim… olha lá. Havia apenas prémios simbólicos em ocasiões especiais. Por isso, o jovem Vicente aprendeu a cuidar dos negócios da família. Foi nessa condição em que, em Dezembro de 1966, se deslocou à terra natal, mandadopelo pai, a fim de tratar de assuntos pontuais e depois regressar a Lisboa. 

Mas a caminho de Luanda, a bordo do navio “Uíje”, a “pérola” da Companhia Colonial de Navegação, um antigo condiscípulo do Liceu Salvador Correia o reconheceu e, sabendo que em Portugal continental ele havia treinado o “Técnico”, interessou-o imediatamente a ir orientar o Sporting de Luanda. De seguida, o “intermediário”, com a embarcação ainda em alto mar e longe de chegar à capital angolana, enviou um telegrama aos dirigentes “leoninos”. Mas o propósito de Vicente Costa em Luanda não era este e rejeitou o convite. 

Entretanto, o que era suposto ser uma estadia de curta duração, começou com reuniões familiares, contactos com amigos que não via há alguns anos, passeios a muitos locais da vetusta Luanda da sua juventude… e foi-se alongando até que acabou abordado pelo capitão Alfredo Moura para o substituir na liderança técnica do Benfica de Luanda. Dadas às suas obrigações castrenses, o oficial do exército não pôde continua no leme da turma “encarnada”, onde passara de raspão, para ocupar a vaga deixada por Henrique Miranda, o grande incentivador da modalidade no grémio da “águia” luandense. Com 36 anos de idade, Vicente Costa aceitou o desafio, ele que já tinha certa experiência.

Vicente Costa, num timeout, falando para Agostinho Reis (5), Carvalhinho (de perfil), Antônio Guimarães (encoberto) e Mário Palma (12)

No Benfica de Luanda introduziu modernos métodos de trabalho e rapidamente a equipa começou a “desbobinar” um basquetebol de altíssima qualidade. Além da preparação técnico-táctica e física diferenciada do que se fazia em Angola, agregou outro elemento ao treino desportivo: a preparação psicológica, o que era então estranho às gentes do basquetebol angolano. Com isso, não só ganhou o de 1967, como também arrebatou surpreendentemente o “Nacional” de Portugal do mesmo ano, no que foi o primeiro triunfo de um clube ultramarino no campeonato de Portugal em masculinos, alargado às colónias desde 1963. Esta performance lhe valeu a inédita presença na Taça dos Clubes Campeões Europeus, em que o Benfica de Luanda representou Portugal, sendo eliminado pelo Racing Malines (Bélgica), na primeira ronda. 

Depois disso, Vicente Costa fez contas de somar… títulos. Ganhou mais cinco campeonatos, o último dos quais, em 1975, já na transição para a independência do país, com o CDUA, onde comandou nomes conhecidos do basquetebol angolano como Victorino Cunha, Waldemiro Romero, Paulo Múrias, Rui Marques, Soares de Campos e Luís Torres, entre outros. De “águia” ao peito conquistou os campeonatos de Angola de 1967, 1968, 1970, 1971 e 1972, sendo o técnico mais vezes campeão no período anterior a 11 de Novembro de 1975.

Quando, aliás, no princípio da década de 1970 chegou a moda dos jogadores-treinadores americanos, em 1972 a direcção do Benfica teve que chamá-lo de volta para substituir no comando técnico o americano Richard Almstedet, a fim de salvar do naufrágio a “nau encarnada”, ganhando assim o título da temporada. Depois disso, saiu por um período sabático em que dedicou mais tempo e energias à recém-criada Escola de Instrutores de Educação Física (EIEF), de que foi o primeiro professor da cadeira de basquetebol. E o Benfica de Luanda nunca mais ganhou qualquer título!

Os confrontos entre os chamados movimentos emancipalistas (MPLA, FNLA e UNITA) entre 1974 e 1975 puseram Angola à ferro e fogo, mas ele não embarcou na “ponte aérea” para Portugal, que constituiu um dos maiores êxodos da história recente da humanidade. Ele ficou na sua terra natal e em 1976 fez dupla com Victorino Cunha, na estreia da Selecção Nacional de seniores, diante da Nigéria, a 2 de Fevereiro. Um ano depois assinou por Angola a actua constitutiva da Associação Internacional de Treinadores de Basquetebol, fundada em Tenerife, Espanha, aonde foi, impulsionado pelo seu companheiro das últimas grandes jornadas, Victorino Cunha.Radicou-se em Portugal em 1978 devido a makasque a esposa, a “Nelinha”, como carinhosamente a chamava, teve com a DISA… 

O último encontro entre Vicente Costa (à esquerda) e o autor, em 2019, em Lisboa pouco antes do início da pandemia…

Conheci pessoalmente este homem polido e afável, em Setembro de 2008, na Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB), em Lisboa. Foi numa altura em que, desmoralizado, cheguei a aventar a hipótese de capitular na pesquisa para escrever um livro que retratasse o percurso da modalidade durante o período colonial.  Embora levasse de Luanda indicações do seu sobrinho e meu amigo Justino Pinto de Andrade para o contactar, antes fui à FPB tratar institucionalmente da recolha de material do basquetebol angolano. Fui recebido por Leonel Santo, um antigo basquetebolista de Moçambique e um funcionário da instituição, que imediatamente apontou para um sujeito simpático e sorridente. “O Vicente é que esteve em Angola. Fala com ele…” A partir daí, construiu-se uma amizade sincera e sólida. Disponibilizou-se a ajudar-me em tudo que estivesse ao seu alcance e assim foi. Fotos, recortes de jornais, detalhes informativos e tudo o mais o homem disponibilizou-me. Desse modo, redirecionei a pesquisa e felizmente o livro está escrito, pronto para a publicação em breve. Pena que não o poderá ler!

De lá para cá conversamos muitas vezes e sempre que eu fosse a Lisboa, saíamos para almoçar e conversar muito sobre basquetebol, trocamos e-mails muitas vezes e com ele aprendi imenso. Não apenas sobre basquetebol. Foi com ele, por exemplo, que aprendi que “poste-baixo” não tem necessariamente que ver com a altura. Muitas vezes almoçamos na baixa lisboeta no seu restaurante predilecto, o “Leão de Ouro”. E ele fazia questão de pagar a conta. “És meu convidado”, dizia ele para quem a paracuca é das melhores petisqueiras que teve a oportunidade de comer. O Vicente Costa, o “kota”, como eu o chamava, introduziu-me no encontro anual dos antigos jogadores do Vila Clotilde, que ocorre no Verão, em Portugal. Também me apresentou a algumas figuras gradas da “bola ao cesto” das décadas de 1960 e 1970, como o antigo seleccionador de Angola, Manuel Campos e Carlos Gonçalves, professor de Educação Física no Liceu Paulo Dias de Novais e introdutor, em 1967, do mini-básquete em Angola. Ambos me ajudaram imenso, com informações e dados, para o livro sobre o primeiro período da “bola ao cesto” dentro das nossas quatro paredes, intitulado Caminhos do Basquetebol Angolano (1930-1975).

Senhor de deleitante prosa, homem de elevada cultura, Vicente Costa marcou época no basquetebol angolano. Por isso e sem favores ele figura num livro da minha autoria intitulado Baralho do Basquetebol Angolano, uma obra que elenca cerca de seis dezenas de figuras, entre atletas, técnicos e dirigentes que se destacaram desde 18 de Maio de 1930, quando a bola foi lançada pela primeira vez ao ar em território angolano. Correspondendo cada figura a uma carta do baralho comum, concedi-lhe a honra de estar no naipe de Reis, no qual ostenta o símbolo Copas. 

Agora o meu baralho ficou mais pobre. Saiu ao “Rei de Copas”, que partiu para uma viagem sem volta. Paz à sua alma.

(*) Adaptado do livro Baralho do Basquetebol Angolano, da autoria de Silva Candembo, no prelo.

Jornalista há 38 anos, tendo iniciado a carreira na ANGOP, em 1984. Mobilizado nesse ano para o cumprimento do serviço militar obrigatório, ingressou nos quadros do Jornal Desportivo Militar (JDM). Regressou a ANGOP em 1992, tendo saído em 1999. Entre 1988 e 1991 teve uma experiência como redactor principal na revista Golo. Foi co-fundador do Angolense (1997) e do Semanário Angolense (2003), de que foi diretor-adjunto. Prémio Maboque de Jornalismo em 1999, foi colaborador do Jornal de Angola, Jornal dos Desportos, jornal O Jogo e da SIC (os dois últimos de Portugal), além de ter sido correspondente da emissão em português da Rádio Havana Cuba, do jornal O Diário e do Semanário Desportivo (Portugal). Actualmente é correspondente das agências EFE (Espanha) e AGI (Itália).