A importância de comunicar bem

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“(…) Nos últimos dias eu ouvi muito barulho, mas ninguém apontou-me alguma falta (…)”

(Presidente da República caracterizando comentários da sociedade civil à decisão tomada por ele de nomear a advogada Laurinda Tavares para a presidência do Tribunal Constitucional)

É dos dicionários da Língua Portuguesa que barulho significa som estrepitoso, estrondo, agitação barulhenta, algazarra, alvoroço, tumulto ou revolta provocada por disputas ideológicas, políticas ou sociais.

No contexto em que foi manifestada, a reacção do Presidente da República aos comentários de conhecidos a propósito da nomeação da Dra. Laurinda Tavares para a presidência do Tribunal Constitucional sugere que esses pronunciamentos chegaram aos ouvidos do Presidente da República na forma de (insuportável) barulho.

 Entre os cidadãos que exerceram o seu direito de questionar a opção do Presidente da República incluem-se a veneranda juíza jubilada do Tribunal Constitucional, Professora Luzia Sebastião, o economista e professor universitário Jonuel Gonçalves, o escritor Jacques dos Santos ou, ainda, o Engenheiro António Venâncio, assumido militante do MPLA.

Interpretada à letra e à quente, há, claramente, nessa declaração do Presidente da República desrespeito, deselegância e rudeza. Uma demonstração de intolerância para com opinião diferente. Se, repetimos, interpretada à letra, pode encontrar-se na declaração evidências de que Angola estaria perante um desafio inédito na história da Humanidade: o de abalançar-se para a construção de um Estado Democrático e de Direito quando tem à sua testa alguém que demonstra pouca simpatia para com a democracia; alguém que se “vai aos arames” quando confrontado com opinião diferente.

Mas, quando analisada com a serenidade que o passar do tempo impõe, não se “enxerga” na declaração qualquer premeditação de desrespeitar aqueles que questionam a sua decisão.  O Presidente revela, até, alguma humildade quando admite que poderia voltar atrás se fosse confrontado com evidências de que a nomeação de Laurinda Tavares feriu a lei.

O que eventualmente estará por detrás daquele descuido, recorrente nele, é a sua incapacidade de ajustar os diferentes níveis de linguagem a contextos concretos.

Como sabemos, a linguagem está dividida em vários níveis e cada um é aplicável a contexto específico.

No contexto em que foi usado, aquele “ouvi muito barulho” seria mais ajustado numa circunstância em que o Presidente da República se estivesse a exprimir em linguagem informal ou popular. Mas sucede que não é recomendável que o Presidente da República se exprima recorrentemente nessa linguagem. Menos ainda naquele sábado, 21, em que o Presidente da República explicava ao país e ao mundo os fundamentos da sua escolha. O discurso requeria rigor.

De resto, João Lourenço não tem sido bem-sucedido sempre que despreza o contexto específico a que se ajusta cada nível de linguagem.

Por exemplo, quando, em Lisboa, qualificou de “marimbondos” os corruptos e ladroes angolanos, João Lourenço deixou os portugueses boquiabertos. É que os “brancos alheios” não estão habituados a que um Chefe de Estado, sobretudo estrangeiro, se exprima em linguagem informal, mais ainda empregando adjectivos que eles desconhecem.

Muitos angolanos também ficaram boquiabertos quando ouviram do seu Presidente afirmação trocista de que “se eles (adversários) não aguentam o MPLA, que chamem os amigos e vizinhos”. Esse é um nível de linguagem que não é recomendável a um Presidente da República, sobretudo quando se refere a entidades relevantes na sociedade.

Não sendo incorrecta, a linguagem informal pode, porém, dar azo a algumas transgressões gramaticais, matéria em que o Presidente da República tem sido recorrente.

Os recorrentes descuidos nos discursos do Presidente da República podem ser eliminados ou mitigados. O caminho mais rápido que leva a isso é a contratação de um assessor que eduque o Presidente da República a escolher cuidadosamente os contextos em que se aplicam cada um dos níveis de linguagem.

Rodeado de assessores para tudo e para nada, o Presidente da República não perderá nada – antes pelo contrário! – se juntar à panóplia de gente de que se faz cercar alguém que o ajude a comunicar melhor.

 Mas é importantíssimo que o “professor” do Presidente da República não seja mobilizado no seu inner circle. Tem de ser alguém, recrutado de fora, que olhe para o Presidente da República não como um semi-deus, mas como pessoa de carne e osso, que, como o comum dos mortais, não sabe tudo. A assessoria que aqui se prega é de COMUNICAÇÃO, em todas as suas vertentes.

Os desacertos do Presidente da República não são “incuráveis”. No encontro que teve com jovens, em Novembro do ano passado, João Lourenço esteve bem. Usou linguagem coloquial, a linguagem em que a generalidade dos jovens angolanos interage.