Explosão de alegria na RNA

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Declarações do deputado António Paulo, do MPLA, criticando o desempenho da comunicação social pública foram recebidas com uma explosão de alegria nos corredores da Rádio Nacional de Angola, nomeadamente nas áreas afectas à Informação.

Sábado, 04, no programa “Conversas EntreCruzadas”, da rádio MFM, António Paulo, que também é membro do Comité Central do MPLA, disse que a “comunicação social pública tem feito um mau jornalismo”. Segundo o deputado, com “a capilaridade que tem, se a comunicação social pública tivesse feito um jornalismo mais equilibrado – e foi possível fazer um jornalismo mais equilibrado num passado recente – nós teríamos melhorado muito”. 

António Paulo sustentou o recuo havido na comunicação social com o exemplo da principal emissora de rádio pública do país. “Nós já tivemos na Rádio Nacional de Angola debates ao sábado com pluralidade”.

Logo depois da declaração do dirigente do MPLA, trabalhadores da Rádio Nacional de Angola, nomeadamente jornalistas, correram pelos corredores, abraçando-se uns aos outros, comemorando aquilo que, para todos eles, teve sabor à liberdade.

Funcionários da área técnica da rádio MFM receberam imensos pedidos de seus colegas da RNA para o envio do áudio contendo as declarações de António Paulo.

No estúdio da MFM, onde também participava do debate, Teixeira Cândido, secretário do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, classificou as declarações do membro do Comité Central do MPLA como uma “vitória” da classe.

Mestre em Direito Constitucional e docente universitário, António Rodrigues Paulo também foi jornalista do Jornal de Angola. O contacto com o jornalismo deu-lhe da Comunicação Social uma perspectiva que muitos dos seus colegas de partido não têm. 

Sendo a primeira vez que um dirigente do MPLA se pronunciou de forma crítica sobre o desempenho da comunicação social pública, os jornalistas da Rádio Nacional de Angola, Televisão Pública de Angola, Jornal de Angola esperam que as declarações de António Paulo prenunciem uma mudança de estratégia e de atitude de quem tem ditado as regras de jogo na matéria.

À investidura do Presidente João Lourenço, em 26 de Setembro de 2017, seguiram-se tempos de significativa abertura da media pública. Pela primeira vez, em décadas de governação do MPLA, a população angolana pôde ver e ouvir, através da media pública, que Angola não era o paraíso terrestre que a mesma media pública sugeria ser ao tempo do governo de José Eduardo dos Santos.

Pela primeira vez, os angolanos tiveram uma visão global do estado do país, marcado por estradas esburacadas, fome, ausência de assistência médico-medicamentosa em quase toda a parte. 

Porém, em Fevereiro deste ano, o secretariado do Bureau Político do MPLA emitiu um comunicado estabelecendo uma ligação entre a ”abertura democrática que se vive realmente em Angola desde as últimas eleições que elegeram o Camarada João Lourenço como Presidente da República” e o que classificou como “desrespeito à autoridade instituída, o desrespeito ao património público e à propriedade privada”. 

Emitido a propósito de eventos violentos ocorridos na localidade de Cafunfo, na Lunda Norte, no comunicado do órgão executivo do Bureau Político do MPLA estabelecia uma relação de causa e efeito entre a “abertura democrática” e o que chamou de actos de desrespeito à Constituição e à Lei.

“(…) esta maior liberdade de imprensa, de expressão, de reunião e de manifestação, está a servir para promover o desrespeito à Constituição e à Lei, aos símbolos nacionais, o desrespeito à autoridade instituída, o desrespeito ao património público e à propriedade privada, o que é perigoso para a estabilidade político-social e contrária ao bom ambiente de negócios atractivo do investimento privado, que se vem criando ultimamente”. 

Desde essa declaração, a comunicação social pública fechou-se para a sociedade e centrou-se exclusivamente no MPLA e no Executivo, adulando-lhes as mais triviais realizações ou mais banal discurso.

Desde então tem-se aprofundado o divórcio entre a media pública e a população de tal ponto que a integridade física de profissionais da comunicação social estatal já corre mesmo risco.

Recentemente, um trabalhador da estação televisiva pública quase foi linchado após haver sido identificado como tal por passageiros de um táxi popular, vulgo candongueiro.

Pouco informados, a generalidade dos cidadãos tende a culpabilizar os seus jornalistas pelo sofrível desempenho da media pública. 

O jornalista José Alves Neto Fernandes tem à perna um processo disciplinar por haver denunciado, recentemente, censura nos órgãos de comunicação do Estado.

Quadro sénior da Televisão Pública de Angola, com passagens por várias áreas da casa, Zé Neto – é assim que é tratado entre os seus íntimos – disse que a imprensa pública é guiada por uma cartilha que, entre outras limitações ofensivas à Constituição, lhe impõe a proibição de dar espaços aos principais líderes da oposição.

É por isso que no sábado, 04, um jornalista sénior da Rádio Nacional de Angola “viu” nas declarações de António Paulo aquilo que espera ser o “princípio do fim”, ou seja, o fim do asfixiante controlo que o partido governante exerce sobre a comunicação social do Estado.