Bichas quilométricas, com pessoas quase encavalitadas uma em cima das outras, mesmo em tempo de Pandemia, é a confrangedora imagem que nos oferece as mais de 3.000 caixas automáticas espalhadas pelo país, principalmente no final e no começo de cada mês, período em que estão disponíveis os salários da generalidade dos trabalhadores, sejam do sector público ou do privado. 

As enchentes, de fazer inveja a assistência alguns jogos do “Girabola”, constituem risco real de contágio de doenças várias, entre as quais a letal Covid’19, em razão da proximidade, em muitos casos quase íntima, de cliente e também devido ao manuseio das teclas dos terminais. Provavelmente, muitos dos casos de contágio por Novo Coronavírus ocorrem nos também chamados ATMs.

Já se sabe que as multidões que se concentram diante dos ATMs se devem à exiguidade de caixas electrónicos conforme, aliás, reconheceu há sensivelmente dois anos a Empresa Interbancária de Serviços (EMIS), SA, gestora da rede de Multicaixas dispersas pelo país. No seu relatório relativo  a 2019, a companhia indicou que para as exigências do mercado havia necessidade de se dobrar o número de caixas, que então era de 3.125.   

Este não é, porém, o único problema dos Multicaixas. Há outro nada despiciendo. Trata-se do balde de lixo geralmente colocado ao lado desses terminais. Nesses recipientes são lançadas todos os dias toneladas de papel, sobretudo referentes a consultas de saldos e recibos de levantamentos, seja sem cartão ou com cartão.

Seguramente por falta de educação ambiental, muitos clientes de bancos solicitam papel na consulta de saldo e depois de verem quanto têm na conta, acto contínuo, depositam o papelucho no cesto de lixo. Há também aqueles que solicitando talão do movimento efectuado, de seguida procedem da mesma forma ou até se esquecem do pedaço de papel na máquina… Cálculos feitos por um professor de matemática contactado pelo Correio Angolense indicam que mais de 75% dos utentes dos serviços Multicaixa não necessita do recibo, razão pela qual imediatamente após o receberem jogam no lixo.

“Quem vê o saldo no papel e logo a seguir o põe no lixo, pode muito bem ver apenas no monitor do Multicaixa. De uma forma ou de outra, a pessoa terá sempre o montante da conta presente na memória. Não fosse assim, os cestos de lixo colocados ao lado dos terminais não estariam sempre cheios. Por outras palavras, quem põe o papel no lixo é porque já memorizou o valor”, disse Luís Silva, docente de matemática de uma universidade pública. 

Aparentemente pacífico, o problema preocupa sobremaneira, visto que o número de ATM’s vai seguramente aumentar nos próximos tempos, de modo a satisfazer a demanda e acabar com as quase intermináveis bichas. Isto quer dizer que quanto mais ATMs disponíveis, mais papel será gasto, o que não pode ser encarado de ânimo leve nestes tempos em que se fala insistentemente em economia verde e protecção dos ecossistemas para uma vida qualitativamente mais saudável.

Manuel Lima, engenheiro ambiental, entende que a EMIS tem sido pouco amiga do ambiente, pois podia encontrar soluções que evitassem o desperdício de papel. “Se tivermos em conta o eucalipto como árvore padrão para a produção de papel, temos que gera em torno de 20 resmas de papel, o mesmo que dizer 10 mil folhas de formato A4 com 75 gramas por metro quadrado, Isto significa o derrube de milhões de árvores anualmente para a quantidade de papel utilizada em todo o Mundo”, detalhou.

Para o nosso interlocutor são igualmente graves os problemas associados ao descarte do papel. “Não havendo em Angola recolha selectiva de resíduos, o que inviabiliza a reciclagem, pelo menos em grande escala, o papel vai para aterros comuns e leva entre duas a 25 semanas para se decompor no ambiente. Aparentemente é pouco tempo. Contudo é bastante para causar graves prejuízos ambientais. Por exemplo, se mal manuseado, em zonas citadinas podem concorrer para a ocorrência de enchentes”, ilustrou.

“O ideal mesmo é evitar ao máximo o abate de árvores, porque mesmo que o papel jogado nos cestos do lixo dos ATMs fosse reciclado, haveria sempre danos ao Ambiente. É que, a reciclagem implica sempre a utilização de produtos químicos, sendo a actividade em si tão poluente quanto à produção de papel a partir de árvores abatidas”, explicou o nosso interlocutor.

Em face desse quadro preocupante, Manuel Lima é de opinião que a EMIS deveria tomar medidas que concorram para desencorajar o uso desnecessário de papel, aliás, uma prática adoptada por inúmeras instituições bancárias em países com políticas ambientais sérias. 

“Bastava que a EMIS criasse uma taxa ambiental suficientemente alta para desencorajar a quem, no Multicaixa, pedisse minudências como saldo de conta, que corresponde a cerca de 90% dos papéis jogados no lixo”, sugeriu antes de acrescentar que “o cliente pagaria pelo talão como se estivesse a pedir um cheque no balcão do banco, prática que muita gente já evita em virtude dos gastos associados”.   

Jornalista há 38 anos, tendo iniciado a carreira na ANGOP, em 1984. Mobilizado nesse ano para o cumprimento do serviço militar obrigatório, ingressou nos quadros do Jornal Desportivo Militar (JDM). Regressou a ANGOP em 1992, tendo saído em 1999. Entre 1988 e 1991 teve uma experiência como redactor principal na revista Golo. Foi co-fundador do Angolense (1997) e do Semanário Angolense (2003), de que foi diretor-adjunto. Prémio Maboque de Jornalismo em 1999, foi colaborador do Jornal de Angola, Jornal dos Desportos, jornal O Jogo e da SIC (os dois últimos de Portugal), além de ter sido correspondente da emissão em português da Rádio Havana Cuba, do jornal O Diário e do Semanário Desportivo (Portugal). Actualmente é correspondente das agências EFE (Espanha) e AGI (Itália).